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Uma história sobre quem cobiça todas as histórias

Com texto de Lucas Benetti e ilustrações de Jefferson Costa, livro infantil resgata a lenda do trapaceiro deus-aranha Anansi e visa ampliar vozes e protagonismos

Por THIAGO CARDIM

A gente já falou sobre ele por estas bandas, mais especificamente NESTE TEXTO AQUI, mas acho que não custa relembrar um pouco sobre quem é Anansi.

Também conhecido como Ananse ou Kwake Ananse, trata-se de um deus da mitologia axante – que também pode ser grafada Axânti, Ashanti ou Achanti – que se refere aos povos de Gana, na África Ocidental. O esperto e manipulador Anansi era uma aranha que percorria o mundo em sua teia sólida, tornando-se um dos maiores contadores de histórias do mundo.

Lembrou, né. Aquele personagem vivido pelo Orlando Jones na TV, que aparece tanto em Deuses Americanos quanto n’Os Filhos de Anansi, obras do escritor Neil Gaiman… E que agora é também estrela de um delicioso livro infantil, cortesia da dupla Lucas Benetti (texto) e Jefferson Costa (ilustrações).

O Jefferson, bom, meio que dispensa apresentações depois do seu trabalho desenhando as duas lindas e premiadas Graphic MSP do Jeremias, ao lado do Rafael Calça. Mas ainda dá pra lembrar das passagens dele por HQs como A Dama do Martinelli (com roteiro da Marcela Godoy); Arcane Sally & Mr. Steam (publicado de maneira independente aqui e nos EUA); e a recomendadíssima La Dansarina (com roteiro do Lilo Parra).

“Para ser sincero, é até esquisito apresentar alguém que parece já ser um baita conhecido de todo mundo!”, brinca o Lucas, num papo exclusivo com o Gibizilla. “Ao menos esse é o sentimento que eu tenho, na grande maioria das vezes. Obviamente, nem todo mundo conhece o Jeff ou o trabalho dele (o que é uma pena para essas pessoas), mas a arte que ele faz é tão viva e o nome dele é tão gigante que é realmente estranho saber que ainda tem gente que não é fã desse cara!”.

O escritor, no entanto, também tem um belo currículo, ainda que só tenha começado a se focar no ofício de contar histórias, sua paixão desde a infância, por volta de 2010. “Em 2014, fui vencedor do Prêmio Off Flip de Literatura (na categoria infantojuvenil; o livro, Andurá, foi publicado no ano seguinte e conta com ilustrações da Carol Borges, das tirinhas da Batatinha Fantasma) e, em 2016, indicado ao Troféu HQMix com o pessoal do Gibi Quântico 2, antologia de quadrinhos organizada por estudantes da Quanta Academia de Artes (SP)”.

Para alguém com tanta certeza de que queria passar a vida contando histórias, foi lindo descobrir que existia um deus das histórias, afinal. “Não me lembro quando foi a primeira vez que tive contato com essa história de Anansi, mas acredito que tenha sido em algum momento entre o começo de 2013 e o começo de 2014”, explica. “Nos primeiros anos da década de 2010, estava meio que fissurado na obra do Neil Gaiman e queria ler tudo o que ele já tinha publicado. As histórias dele me inspiravam de várias formas e me incentivavam a continuar escrevendo”.

Mais ou menos nesse período, rolou aquele boom do storytelling no mundo publicitário (onde o Lucas trabalhava pra pagar as contas), então falava-se muito sobre o que são as histórias, como elas surgiram; indicava-se muito livros sobre narrativas e sobre a Jornada do Herói. “E eu, que acabei arrumando um trampo numa editora, estava simplesmente deslumbrado com todo o poder e magia das histórias recém-descobertos por mim”. E eis que não só ele descobriu Anansi como a história sobre como ele se torna o deus das histórias!

“Nunca tinha visto isso antes, nunca tinha ouvido falar de um deus das histórias. Já conhecia deuses da poesia, da sabedoria, das palavras, mas não das histórias. Aquilo era fantástico e eu estava muito feliz por ter conhecido Anansi e por saber que existia um deus que cuidava do ofício que escolhi pra vida!”, confessa ele.

Vamos então à história sobre as histórias

Anansi, que se encaixa no arquétipo do deus trapaceiro que também categoriza nomes como Loki e Exu, não nasceu como dono e responsável pelas histórias. “Ao contrário, teve que partir numa aventura extremamente perigosa para conseguir o necessário para comprar o baú dourado de Nyame, o deus do céu, onde ficavam guardadas todas as histórias do mundo”. E é aqui que começa projeto da dupla: (re)contar, num livro ilustrado, por que Anansi queria as histórias, o que ele precisou fazer para conseguir o baú e o que aconteceu depois.

A trama nasceu, na verdade, no primeiro semestre de 2014, durante o trabalho de conclusão do curso de roteiro do André Diniz na Quanta. “Adaptei a história do baú de histórias em um roteiro de dez páginas. No segundo semestre, depois de voltar da FLIP, onde fui participar da cerimônia de premiação do Prêmio Off Flip, eu só tinha uma coisa na cabeça: precisava dar o próximo passo na carreira e aproveitar o hype, ou seja, precisava produzir e lançar um novo livro”.

A escolha DESTA história em específico parecia óbvia para o autor. Anansi era pouco conhecido no Brasil, a história do baú idem… “Sem falar que eu acreditava que, de alguma forma, por meio do meu privilégio branco-cis-het, poderia ajudar a ampliar vozes e protagonismos de pessoas e culturas menos representadas, colaborando, inclusive, em questões como a preservação e espalhamento dessas mesmas culturas por meio do meu ofício – assim como tinha feito Neil Gaiman, direta ou indiretamente”, afirma. “No máximo, seria uma grande homenagem de minha parte à Anansi: um agradecimento por ele ter ajudado as pessoas e o mundo por meio das histórias e por ter permitido que eu pudesse contá-las”.

Do tempo todo em que Anansi, o livro, ficou em produção, 1/3 dele foi utilizado para encontrar alguém para ilustrar a obra. Entre convites negados, desistências e sumiços, Lucas acabou resolvendo arriscar entrar em contato com o Jeff. “Ele foi a quarta ou quinta pessoa que eu convidei e, na real, achei que não fosse aceitar. Das pessoas com quem tinha falado até então, o Jeff era o que talvez estivesse mais inserido no mercado na época, ou seja, a pessoa que provavelmente tinha uma agenda ainda mais cheia que as outras”.

Nesse caso, o Jeff se dispôs a ver o que o Lucas tinha a dizer, a conversar sobre o projeto, a negociar – mesmo com a agenda cheia. “Mas isso não significa que minha vida ficou menos emocionante, hahahahaha”, brinca. “Cheguei a achar que ele também tinha desistido do projeto, porque levou uns 6 meses mais ou menos pra ele mandar os primeiros esboços – e eu tentando descobrir quando seria o melhor momento pra dar uma perguntada pra ele sobre como estava indo a produção, até porque não queria correr o risco de ter que começar a ir atrás de artistas de novo. Só depois disso que a ficha caiu e eu saquei que ele realmente estava no projeto e iria até o fim”.

Originalmente, o livro foi feito pra crianças mesmo, num recorte de mercado que vai de algo entre 6 e 12 anos. Mas esse recorte sempre acaba se expandindo. “Teve gente que veio me contar que leu pra crianças de 3 anos, por exemplo, e rolou, saca? A criança não leu sozinha, mas se divertiu da mesma maneira”. Só que, sim, é uma história com muitas camadas. “Quem tem menos idade provavelmente só vai aproveitar a jornada, mas muita gente vai se ligar em outras coisas também, como a importância das histórias e por que isso faz diferença pra nós como humanos e como sociedade, representatividade, consciência de classe, poder para o povo e por aí vai… as histórias são vivas, né, e quem lê é quem termina de contar”.

Mas o escritor torce para que o livro seja um portal, e que as pessoas que tiverem contato com ele sintam vontade de conhecer mais sobre a cultura de Gana, a cultura africana no geral, e que procurem ouvir e aprender de quem tem muito mais a dizer.

Pesquisando e contando a história do contador de histórias

Lucas conta que pesquisar sempre foi e sempre será muito importante, mas acredita que todo mundo precisa tomar cuidado pra não acabar fazendo com que o ato de pesquisar se torne algo eterno e acabe impedindo que a história seja contada. “O mesmo acontece na hora de editar e revisar – e acho que a preocupação é duas ou três vezes maior quando você está criando e adaptando, editando e revisando um material que não é originalmente seu. O produto livro é nosso, a maneira de narrar também, mas a história não”.

Partindo desse princípio, o primeiro passo foi ler algumas versões dela. “Na sequência, li outras histórias de Anansi, reli Neil Gaiman e estudei um pouco sobre o arquétipo do trickster. Também pesquisei um pouco sobre o povo axante, sobre Gana e separei imagens de ganeses, além de fotos de vestimentas e adereços e do trono dourado, lugar em que os reis se sentam, para enviar como referência a quem fosse ilustrar o livro”.

Um dos objetivos desse projeto sempre foi chegar ao maior número possível de pessoas, portanto ele achava que o melhor caminho a seguir seria aquele em que encontraríamos um Anansi perto do que já era mais ou menos conhecido por aqui, culturalmente e comercialmente falando, e que, ainda assim, fosse possível manter sua essência de trickster e a essência de suas histórias – seja na parte em que dizem que elas eram contadas como forma de estimular a sabedoria e criatividade, seja na parte em que dizem que elas foram contadas para dar coragem durante a diáspora africana.

A partir disso, o Anansi do livro se tornou alguém que questiona o estado das coisas e age guiado pelo interesse do bem comum (e isso pode ser visto, inclusive, na diferença do visual entre os deuses), ao mesmo tempo que corre risco real sempre que fala alguma coisa ou tem alguma ideia. Assim, embora ele guarde poucas semelhanças com as versões que pudemos ver nos desenhos animados Super Choque ou Ladybug, por exemplo, ele tem semelhanças com aquele (ou aqueles) vistos nas histórias de Gaiman.

Lucas explica que, apesar de serem voltados para adultos, os romances do escritor britânico trazem um Anansi que conversa muito com o deus que aparece nos contos originais, principalmente em relação às artimanhas, criatividade e sagacidade. “Essas histórias originais também trazem coisas que talvez não fossem consideradas para crianças aqui no Brasil (como acontece com os contos originais dos irmãos Grimm), e o Gaiman se aproveita disso nos livros dele. Já a versão da série American Gods, que é mais jovem e cheia de fúria (com razão), fica, até onde sei, mais distante das outras”.

Mas por que uma história em livro e não uma história em quadrinhos?

Não dava pra deixar de perguntar ao Lucas se eles não chegaram a pensar, em nenhum momento, na possibilidade de transformar Anansi numa história em quadrinhos, aproveitando uma mídia com a qual o Jefferson está sendo recentemente associado mais frequentemente. Direto e reto, Lucas conta que não, por mais que a história tenha mesmo nascido como um roteiro de HQ.

“Já tinha testado o formato e sabia o que funcionava ou não. (…) O roteiro funcionou bem para uma história de 10 páginas, mas provavelmente não chegaria a mais do que 25 páginas, mesmo se déssemos um bom espaço pra arte do Jeff brilhar (e, no fim das contas, não faria sentido algum seguir por esse caminho, pois teríamos um impresso bem menos encorpado do que um livro)”, conta ele.

Ele ainda faz questão de esclarecer que, na real, seria mais fácil encontrar alguém pra fazer 20~30 ilustrações de página dupla do que 20~30 páginas ou mais com 5 ou 6 quadros cada. “E mesmo pra livro ilustrado, às vezes pode ser bem difícil de arrumar parceria, o que é uma pena”.

Além disso, o roteirista lembra que, de fato, existe uma questão mercadológica que não dava pra ignorar – um livro ilustrado/infantil consegue chegar a muito mais lugares do que uma HQ infantil que não seja Turma da Mônica ou adaptações de livros clássicos. “E como nosso objetivo era chegar ao máximo de lugares que pudéssemos, o livro era a melhor opção”.

Pra ajudar a espalhar ainda mais esta história, dá pra comprar o livro BEM AQUI.

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