15 livros pra largar mão de Harry Potter de vez
Com J. K. Rowling ativa, lucrando e financiando agendas contra pessoas trans, a questão deixou de ser somente literária…
Por THIAGO CARDIM
A gente aqui sabe, até por experiência própria envolvendo alguns de nossos filhotes, que durante anos a saga de Harry Potter foi pra muita gente mais do que uma história: foi identidade, refúgio, comunidade. Vimos gente crescendo com aqueles personagens, aprendendo a amar leitura por causa deles, projetando ali um senso de pertencimento que nem sempre existia fora das páginas. E tudo isso é real. Ninguém está aqui para fingir que não importa.
O problema, senhoras e senhores, começa quando esse afeto vira desculpa.
Quando memória vira blindagem. Quando a crítica é tratada como ataque pessoal e não como o que ela de fato é: um chamado à responsabilidade.
Porque não estamos falando de uma autora que ficou no passado. J. K. Rowling está viva, ativa, produzindo, recebendo dinheiro — e aqui lembremos que estamos falando de MUITO dinheiro — toda vez que a obra circula, ganha adaptações, vira bonequinhos. E ainda pior: a mulher está, mais do que apenas vociferando sua postura abertamente transfóbica (o que já seria ruim demais), também usando sua influência e seus recursos para apoiar e amplificar discursos e iniciativas que atacam diretamente pessoas trans.
Nesse cenário, continuar consumindo Harry Potter não é mais um gesto inocente, nem neutro, nem “só nostalgia”. É, no mínimo, uma escolha confortável. No máximo, uma forma de conivência que muita gente prefere não encarar.
“Ah, mas dá pra separar autor da obra”. Olha, até dá — em teoria. E a gente aqui não costuma julgar, porque isso é uma escolha de pessoa pra pessoa. Mas vamos combinar que isso funciona melhor quando o autor já não está aqui para se beneficiar, ou quando não existe impacto direto acontecendo agora, em tempo real. Não é o caso. Em 2026, continuar defendendo essa separação exige ignorar deliberadamente o que está acontecendo fora das páginas. E isso TAMBÉM é uma escolha.
Talvez o ponto não seja exatamente “demonizar” quem tem afeto pela obra, porque sabemos que esse tipo de afeto não se apaga no grito. Mas vamos lá, minha gente querida, maturidade implica revisão. Implica entender que aquilo que te formou pode não ser aquilo que você decide sustentar daqui pra frente. E, principalmente, implica reconhecer que o mundo da literatura (e da fantasia) nunca precisou se limitar a Hogwarts. A gente só foi convencido disso.
Porque existe muito mais. Existe melhor. Existe mais diverso, mais inteligente, mais provocador, mais comprometido com o mundo em que a gente vive — e não com a manutenção de um legado problemático.
E se a pergunta for “o que ler no lugar?”, a resposta é simples: praticamente qualquer coisa que não continue financiando quem trabalha ativamente contra a existência de outras pessoas.
Se liga aqui:

O Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin, entrega uma fantasia sobre poder e responsabilidade com densidade moral real — sem precisar de profecia preguiçosa nem de protagonista messiânico simplificado.
Os Mundos de Crestomanci, de Diana Wynne Jones, mostra que magia institucional pode ser criativa, caótica e divertida sem depender de fórmulas repetidas até a exaustão.
Fronteiras do Universo, de Philip Pullman, faz aquilo que muita fantasia evita: confronta poder, religião e autoridade sem medo e sem simplificar a capacidade de compreensão do leitor.
Discworld, de Terry Pratchett, usa humor como bisturi, uma fantasia com ares de Monty Python desmontando estruturas sociais com uma inteligência que raramente aparece em best-sellers mais “seguros”.
Percy Jackson & os Olimpianos, de Rick Riordan, uma série de livros que prova que é possível dialogar com o público jovem sem subestimar diversidade, inclusão e complexidade. E, bom, se há quem diga que é um “Harry Potter com mitologia grega”, pois que seja. 😉
Bruxa Akata, de Nnedi Okorafor, rompe com o eixo eurocêntrico e apresenta um sistema mágico enraizado em outras referências culturais — algo que deveria ser regra, não exceção. E esquece de vez este rótulo de “Harry Potter nigeriano”.
Legendborn Cycle, de Tracy Deonn, reescreve o conceito de legado e pertencimento com protagonismo negro e consciência histórica. Infelizmente, por enquanto, só em inglês. Mas você dá seus pulos.
A Quinta Estação, de N. K. Jemisin, desmonta estruturas narrativas enquanto fala de opressão de forma direta — sem aquela anestesia quase asséptica comum ao gênero.
A Guerra da Papoula, de R. F. Kuang, abandona qualquer romantização e encara violência, guerra e trauma com a brutalidade que o tema exige. Começa com escola de magia e depois vira outro negócio…
Uma Educação Mortal, de Naomi Novik, pega a ideia de escola mágica e pergunta: e se isso aqui fosse, na verdade, um sistema que te quer morto? Não te lembra nada bastante… ATUAL?
Leopardo Negro, Lobo Vermelho, de Marlon James, rejeita conforto narrativo e exige do leitor algo que Hogwarts nunca exigiu: esforço. De longe, um dos livros mais FODA que eu já li em muito tempo, falando BEM sério.
E, sim, o Brasil também faz fantasia — e faz bem.
A Arma Escarlate, de Renata Ventura, joga magia dentro da desigualdade brasileira sem filtro.
Dragões de Éter, de Raphael Draccon, ajuda a consolidar um imaginário pop nacional.
Ordem Vermelha:, de Felipe Castilho, constrói um mundo político e complexo sem subestimar o leitor.
E O Auto da Maga Josefa, de Paola Siviero, prova que dá pra fazer fantasia com identidade brasileira sem pedir licença.
Pô, verdade, não dá pra gente esquecer de toda a série de livros inspirados no universo de Tormenta, né, que é a maior ambientação nacional de RPG de fantasia.
Isso tudo sem falar d’O Senhor dos Anéis (porque seria meio óbvio) e nem d’Os Livros da Magia (por motivos meio óbvios).
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No fim, a pergunta não é se você pode continuar gostando de Harry Potter. Pode, ué. O que diabos a gente pode fazer pra te impedir?
A pergunta é outra: você precisa continuar financiando isso?
Precisa continuar colocando isso no centro?
Precisa continuar fingindo que não sabe?
Porque, em 2026, ignorância já não é mais uma opção plausível.
É escolha. E escolha, a essa altura, diz muito mais sobre você do que sobre qualquer livro.