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Ernie Pike: HQ mudou a forma de contar histórias de guerra

A Figura Editora traz de volta ao Brasil um dos maiores clássicos dos quadrinhos mundiais. Criada por Héctor Germán Oesterheld e Hugo Pratt, Ernie Pike permanece como uma das obras mais humanistas já produzidas sobre os horrores da guerra.

Por THIAGO CARDIM

Poucos quadrinhos envelheceram de maneira tão certeira quanto Ernie Pike. Não porque seus temas tenham ficado datados. Pelo contrário: justamente porque continuam dolorosamente atuais.

Publicada originalmente na Argentina em 1957 e agora relançada no Brasil pela Figura Editora em uma aguardada reimpressão financiada via Catarse, a série permanece uma referência absoluta quando o assunto é quadrinho adulto. Muito antes de obras como Maus, Palestina, Pyongyang ou Notas sobre Gaza mostrarem que HQs poderiam discutir política, memória e violência com enorme profundidade, Ernie Pike já fazia exatamente isso.

Mas havia um detalhe fundamental: ela não estava interessada em contar a história dos generais e sim a das pessoas comuns.

Quando o protagonista não é um herói

Ernie Pike não empunha armas, não lidera batalhões, não salva o mundo. Inspirado no lendário correspondente norte-americano Ernie Pyle (vencedor do Pulitzer por suas reportagens durante a Segunda Guerra Mundial), o personagem é um jornalista que percorre diferentes conflitos recolhendo pequenas histórias esquecidas pelos livros oficiais.

A Segunda Guerra Mundial aparece constantemente. Mas também surgem episódios ligados à Guerra da Coreia, ao Vietnã e a outros conflitos espalhados pelo planeta. O olhar, porém, nunca é estratégico ou militar, mas sim profundamente humano.

Em vez de celebrar vitórias, Pike observa soldados assustados, médicos improvisando cirurgias, famílias separadas, desertores, civis presos entre fronteiras invisíveis e pessoas que sequer entendem por que estão lutando. Em suas páginas não existem heróis perfeitos, mas sim seres humanos tentando sobreviver.

A parceria que entrou para a história

Poucas duplas criativas foram tão importantes para os quadrinhos latino-americanos quanto Héctor Germán Oesterheld e Hugo Pratt.

Oesterheld já era um dos maiores roteiristas argentinos quando criou a revista Hora Cero, em 1957. Formado em geologia, abandonou cedo a carreira científica para dedicar-se integralmente aos quadrinhos. Seu interesse nunca esteve em super-heróis tradicionais, mas em personagens profundamente humanos.

Além de Ernie Pike, escreveria obras fundamentais como O Eternauta, considerada talvez a HQ argentina mais importante de todos os tempos.

Sua própria vida acabaria assumindo contornos trágicos. Militante contra a ditadura militar argentina, Oesterheld foi sequestrado em 1977 pelo regime e jamais voltou a ser visto. Tornou-se um dos milhares de desaparecidos políticos do país. Sua ausência transformou sua obra também em símbolo da luta pela memória.

Ao seu lado estava, na época, um jovem desenhista italiano chamado Hugo Pratt. Filho de militares, Pratt viveu parte da infância na Etiópia durante a ocupação italiana na Segunda Guerra Mundial, experiência que marcaria profundamente sua visão sobre conflitos armados.

Anos depois criaria Corto Maltese, personagem que o transformaria em um dos autores mais influentes da história dos quadrinhos europeus. Mas antes disso foi justamente em Ernie Pike que desenvolveu boa parte da narrativa visual que o consagraria mundialmente.

Para desenhar a série, Pratt montou um enorme arquivo fotográfico com centenas de imagens de soldados, uniformes e equipamentos militares, buscando uma precisão documental raríssima para a época.

Um clássico da HQ mundial

Ernie Pike foi publicada originalmente nas páginas da revista Hora Cero, considerada uma das publicações mais importantes da história dos quadrinhos argentinos. Ao longo de 34 episódios realizados pela dupla Oesterheld-Pratt, a série redefiniu aquilo que uma HQ de guerra poderia ser.

Até então, grande parte das narrativas militares girava em torno do heroísmo patriótico ou da aventura. Ernie Pike caminhava na direção oposta: cada capítulo era praticamente um conto independente e muitas vezes nem havia qualquer combate na trama.

O centro da narrativa estava sempre nos efeitos psicológicos da guerra sobre pessoas comuns – e a consequência foi enorme. Décadas depois, autores como Joe Sacco, Jacques Tardi, Garth Ennis, Emmanuel Guibert e inúmeros quadrinistas interessados em conflitos armados seguiriam, cada um à sua maneira, essa tradição inaugurada por Oesterheld.

Não é exagero dizer que boa parte dos quadrinhos jornalísticos contemporâneos inclusive nasce dessa abordagem.

Uma HQ sobre guerra que, na verdade, fala de paz

Mesmo sendo lida HOJE, dá pra dizer que existe algo profundamente moderno em Ernie Pike. Porque, mesmo escrita em plena Guerra Fria, a HQ evita nacionalismos fáceis. Americanos, alemães, japoneses, ingleses, coreanos ou vietnamitas aparecem submetidos à mesma tragédia. O inimigo nunca é exatamente o soldado do outro lado.

O verdadeiro inimigo é a própria guerra.

Esse humanismo radical talvez explique por que a série permanece tão poderosa quase sete décadas depois. Em um mundo que continua produzindo novas guerras praticamente todos os anos, Ernie Pike segue lembrando algo simples: estatísticas escondem pessoas. Cada batalha produz milhares de pequenas histórias que jamais aparecerão nos livros de História.

É justamente delas que Oesterheld e Pratt decidiram falar.

Uma edição, portanto, necessária

A nova impressão da Figura Editora reúne os 34 episódios produzidos pela dupla original, oferecendo ao público brasileiro a oportunidade de conhecer (ou revisitar) um dos maiores clássicos dos quadrinhos mundiais. Mais do que recuperar uma obra histórica, a reimpressão ajuda a recolocar Ernie Pike no lugar que sempre mereceu ocupar: entre os quadrinhos fundamentais do século XX.

Porque existem HQs importantes, influentes, e aquelas raras obras que mudam para sempre a forma como uma linguagem enxerga a si mesma.

Ernie Pike pertence, sem qualquer dúvida, a esse segundo grupo.