HQ brasileira mostra outro lado de Maquiavel
Atualmente em campanha de financiamento coletivo, “A Mandrágora”, da dupla Milena Azevedo e Marcos Garcia, adapta peça de teatro escrita pelo autor para o interior do Brasil nos anos 1980
Por THIAGO CARDIM
Quando a gente menciona o nome do florentino Nicolau Maquiavel, é inevitável que se associe o nome do filósofo, historiador, poeta, diplomata e músico do Renascimento à sua obra mais famosa, “O Príncipe”. Graças a ela, o autor é reconhecido como fundador do pensamento e da ciência política moderna, ainda que o conteúdo seja alvo de polêmicas – pelo incentivo a atos reprováveis e inescrupulosos para se atingir de fato o poder (muitos políticos contemporâneos inclusive fazem uma leitura a ferro e fogo deste livro…).
Mas, para além dos tratados histórico-políticos, existe uma OUTRA faceta de Maquiavel que pouquíssima gente conhece: a de dramaturgo. Sim, ele escreveu peças de teatro – e a mais famosa delas é justamente a comédia “A Mandrágora”, publicada pela primeira vez em 1524 (estudos davam conta que ela tinha sido escrita em 1518, mas novas evidências mostram que Maquiavel a escreveu quatro anos antes).

A trama fala do jovem florentino Calímaco, recém-chegado de Paris, que conhece e passa a desejar ardentemente Lucrécia, mulher casada que não consegue ter filhos com seu marido, o ingênuo doutor Messer Nícias. Para conquistá-la, com a ajuda do amigo Ligúrio, ele finge ser um médico especialista em fertilidade e receita um tratamento à base de uma infusão da planta mandrágora.
Mas o pulo do gato é: o falso médico avisa que o primeiro homem a se deitar com ela após a poção morrerá envenenado em poucos dias. Para poupar a vida do marido, Ligúrio sugere então raptar um jovem aleatório da rua para passar a noite com Lucrécia no lugar do marido. Dá pra imaginar o que eles aprontam para que este homem seja o próprio Calímaco…
Agora, imagina uma adaptação desta trama ambientada no interior do nosso Brasil, ali por volta dos efervescentes anos de 1980? Pois esta é a ideia por trás de “A Mandrágora”, HQ escrita por Milena Azevedo e com arte de Marcos Garcia, já em campanha de financiamento coletivo no Catarse.
Maquiavel com sabor brasileiro
Em entrevista exclusiva ao Gibizilla, a roteirista Milena conta que estava pesquisando algo para a revista Escafandro, da editora Ultimato do Bacon. “Seria meu segundo título para o periódico, pós-Viúva Veneno, lançada em 2022. Mas, dessa vez, minha intenção era fazer uma adaptação de algum clássico da literatura. Foi quando me lembrei da peça do Maquiavel, que conheci (e adorei) no final da década de 1990, quando fiz a disciplina de Semiótica, na faculdade”.
Aí, veio a coincidência: em 2024, “A Mandrágora” estava completando 500 anos. “Reli a peça e escrevi o roteiro, que seria desenhado pela Germana Viana, repetindo a parceria da Viúva Veneno. Apesar de a editora ter aprovado o roteiro, me disse que teria que ficar para 2025. Aí, em 2025, devido a questões pessoais, Germana não conseguiu desenhá-lo. Guardei o roteiro e agora ele ganha vida, desenhado pelo Marcos Garcia. E Germana fez a capa”.
A roteirista reforça que, “A Mandrágora”, Maquiavel faz uma crítica ácida à hipocrisia da sociedade florentina do século 16 e, também, à Igreja Católica. Aos olhos do filósofo, os seres humanos, cheios de princípios morais, eram hábeis em burlá-los, quando estes princípios se tornavam empecilhos para algo que eles almejavam. “E, em sua peça, Maquiavel não poupa ninguém”. Ela acredita, portanto, que essa crítica cabe muito bem nos tempos de hoje, principalmente no tocante às bets e aqueles que as apoiam e aceitam ser seus garotos-propaganda, fechando acordos milionários em detrimento do prejuízo material e psicológico de boa parcela da sociedade.
Mas, refletindo como seria a adaptação da peça para a HQ, a autora logo entendeu que uma releitura era o melhor caminho a seguir, ambientando-a na década de 1980, numa cidade do interior do Brasil, como um terrir. “Assim, eu mantive toda a história do Dr. Nícias e Lucrécia tentando engravidar, com Calímaco se passando por médico para fingir ajudá-los e poder ter uma noite com Lucrécia”. Ela ainda manteve também as características da maioria dos personagens, alterando um tanto Lucrécia, sua mãe Sóstrata e o Frei Timóteo, religioso corrupto que ajuda Calímaco em sua farsa.
“Também remodelei o Siro como irmão caçula do Calímaco (porque na peça, ele é o pajem do Calímaco)”, explica Milena. “Tive um pequeno desafio com a personagem Sóstrata, de como iria colocar uma questão que atribuí à personagem, de forma que fosse cômica, mas não desrespeitosa. Acho que consegui chegar numa formatação bacana”.
Além disso, a ideia de inserir um toque de terror veio quando a roteirista pensou na reformulação da Lucrécia, que na peça é uma mulher um tanto quanto ingênua e deveras religiosa. “Lucrécia seria a única personagem ‘santa’, mas Maquiavel a faz ter um ponto de virada sensacional, no final. Eu quis dar a Lucrécia um ponto de virada igualmente marcante, mas não posso contar aqui, pois seria um baita spoiler”.

É 1500, é 1980… mas também é hoje
Ao ouvir Milena falar sobre “A Mandrágora”, se torna impossível deixar de pensar no quanto falar de hipocrisia a partir do âmbito religioso, por exemplo, é algo que conversa com o que vemos nos dias de hoje, no atual panorama da nossa sociedade. “Nem me fale. Acho que nunca se distorceu tanto a palavra e os exemplos do Cristo e do Buda, como atualmente”, opina ela. “O mais interessante é que temos pessoas que se dizem religiosas, que sabem a Bíblia de cor e salteado, mas não permitiram que as mensagens de amor, de caridade, de humildade do Cristo entrassem nos seus corações. Infelizmente, vemos nos seguimentos religiosos as pessoas mais intolerantes, autoritárias e hipócritas da nossa sociedade”.
Ela lembra que Maquiavel usou o Frei Timóteo para alfinetar o quanto a Igreja Católica gostava de dinheiro. “Na HQ, eu trabalho o Frei Timóteo nesta perspectiva, mas adicionei uma outra camada a ele, que também não posso revelar sem dar spoiler”.

Como Milena é cinéfila (inclusive comanda um ótimo podcast sobre a Sétima Arte, o Cinematógrafo Delirante), resolveu fazer alusões a alguns filmes de suspense e de comédia, bem como ao rock do período. Mas já vimos que, além disso, teremos também algumas referências a ícones nacionais da cultura pop ao longo da trama. “Estou até com vontade de imitar o Hitchcock e pedir para quem ler, não contar aos outros”, brinca ela.
“Algumas referências se consegue pescar de primeira, tipo, o Dr. Nícias foi baseado no Jack Nicholson; o Calímaco e o Ligúrio são minhas pequenas homenagens ao Bruce Springsteen e ao Steven Van Zandt… tem também uma singela homenagem à Rita Lee, como a secretária do Dr. Nícias (relembrando o saudoso programa dela na MTV, onde ela fazia diversos personagens). Há ainda uma vibe dos personagens dos filmes underground do John Waters, mas vou parar por aqui”, conta, deixando o suspense no ar.
Mas ela dá um pouco mais de detalhes, por exemplo, sobre o caso do Jack Nicholson como referência para o Dr. Nícias. “Eu foquei mesmo no personagem dele em ‘O Iluminado’, o escritor e pai de família atencioso que enlouquece devido à bebida e às entidades presentes no hotel; ou seja, é um personagem que transita entre um lado solar e um lado obscuro”. Milena revela que o seu Dr. Nícias é um homem honrado, advogado, casado com uma mulher bem mais nova, mas sua vaidade e seu orgulho o corrompem. “Ele se acha muito esperto e pretende até mesmo ludibriar a esposa para conseguir o filho que tanto quer”.
Tá curioso? Então fica então o convite para apoiar a campanha para a impressão da HQ “A Mandrágora” – que possivelmente será lançada durante a 13ª edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), que acontece entre os dias 4 a 8 de novembro de 2026, em Belo Horizonte.