O filme da Supergirl e os nerds que odeiam as mulheres
A adaptação pras telonas é apenas ok. Mas até aí existem 20 filmes ruins para 2 bons com protagonistas homens e eles não atraem esse hate todo. O que está por trás desse ódio e o direito de mulheres protagonizarem filmes medíocres.
Por GABRIELA FRANCO
O novo filme da Supergirl estreou aqui no Brasil dia 25 de junho de 2026 e foi dirigido por Craig Gillespie, (diretor de “Eu, Tonya” e “Cruella”) com roteiro de Ana Nogueira (roteirista de “Vampire Diaries”) e produção da dupla Peter Safran e James Gunn. No elenco estão Milly Alcock (protagonista de “A Casa do Dragão”), Jason Momoa (como Lobo) e David Corenswet (em participação especial como Superman). Por uma série de razões, acabou que nem a gente conseguiu falar aqui sobre ele – mas aproveitamos a sua chegada ao HBO Max, com pompa e circunstância, para abordar o tema.
Em sua chegada aos cinemas, a produção gerou uma certa expectativa, primeiro entre o público em geral, até porque Milly já havia feito uma participação no filme do Superman de James Gunn, de 2025 e foi um sucesso MODESTO de bilheteria (cerca de US$ 618,7 milhões pra um orçamento de US$ 225 milhões) mas mesmo assim se tornou o filme de super-herói de maior bilheteria de 2025, à frente de Quarteto Fantástico: Primeiros Passos.
Mas, claro, rolou um frisson principalmente entre os fãs de quadrinhos, pois eles sabiam que o filme seria uma adaptação de uma famosa e elogiada série da heroína lançada pela DC: Supergirl: A Mulher do Amanhã, escrita por Tom King e ilustrada pela brasileira Bilquis Evely, com cores do também brasileiro Mat Lopes. E outra, sim, também porque o Jason Momoa apareceu nos teasers como Lobo e atiçou as lombrigas nerds da galera.

A questão é que, vamos lá, só fã de quadrinho não banca bilheteria de filme de quadrinho. Quem banca é quem é “FÃ FESTINHA”, que gosta dessa coisa de herói mas não necessariamente é leitor de HQ; aquele que gosta de filmes de ação ou é uma molecada mais jovem, adolescente, criança, enfim… parte do chamado grande público.
Acontece que essa HQ que foi adaptada pro filme, mostra uma Kara bem diferente da versão otimista, feminina e gentil da tradicional prima de Kal-El. Mostra, isso sim, uma mulher que cresceu sozinha num pedaço de Krypton à deriva no espaço, viu todo o seu povo morrer e virou uma heroína mais dura, sarcástica e marcada por diversos traumas. Na história, ela acompanha a jovem alienígena Ruthye numa jornada de vingança pela morte do pai da garota.
A própria roteirista Ana Nogueira disse que só “entendeu” a personagem ao ler essa versão, porque achava estranho uma sobrevivente que assistiu à destruição de Krypton ser retratada como uma Pollyana sempre gentil e alegre. Pois é: se a própria roteirista não entendeu, quem dirá o público tradicional, que está acostumado com uma heroína tradicional, aquela que está sempre sorrindo, de braços abertos, sempre gentil, meio burrinha e doce, inocente e ao mesmo tempo gostosa, como a versão de Helen Slater de 1984 era. Como uma “mulher” deve ser.
Só que não.
Essa versão é outra. A Kara de Milly Alcock é uma mulher niilista, com raiva, que bebe, xinga, arrota alto e não é muito fã de andar asseada. Que carrega dentro de si um luto não elaborado por um planeta inteiro, cheia de sarcasmo, que não está ali para agradar ninguém. Não tem um romance nem flerte nem nada do tipo. E foi todo esse combo que este público não perdoou.
É preciso dizer com honestidade: Supergirl é só um filme OK. Não tem grandes sacadas, a história é meio esquizofrênica, cheia de altos e baixos no plot, as cenas de ação são caóticas, a iluminação é esquisita (tem um filtro amarelo ou laranja que REALMENTE me incomodou). A crítica em geral acertou ao apontar seus problemas, e até quem gostou reconheceu a narrativa irregular.
Mas Alcock é a melhor coisa da película. O que não funcionou foi justamente o resto ao redor dela: a abordagem do diretor Craig Gillespie, cujo estilo é justamente misturar humor com drama e histórias de personagens desajustados ou fora do padrão pareceu forçada, além de um vilão considerado insosso, uma história rocambolesca e o tom todo da coisa.
Resultado: Supergirl recebeu críticas mistas e foi um fracasso de bilheteria, arrecadando US$ 126,4 milhões contra um orçamento de produção de US$ 186 milhões. O ponto de equilíbrio estimado era de cerca de US$ 300 milhões, e o filme caiu 74% no segundo fim de semana de exibição nos EUA, a terceira maior queda da história para um filme baseado em quadrinhos de super-heróis
Tudo bem, acontece. Existem filmes bons e ruins e esse, infelizmente, ficou no meio do caminho. Só que o detalhe que desmonta a ideia de que tudo não passou de uma reação natural do público a um filme mediano é a cronologia dos fatos: o ódio dos fãs chegou MUITO ANTES de sua estreia.
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Vamos falar do que circunda o filme?
Quando a DC revelou o projeto, ainda em 2025, parte dos fãs de super-heróis passou a atacar Alcock, chamando-a de “mulher trans” (como se isso fosse uma ofensa) e rotulando o filme inteiro de “fiasco WOKE”. Ninguém tinha visto um único minuto da obra sequer. O que estava sendo julgado não era o filme, era uma mulher ocupando um papel que certos fãs achavam que ela não deveria ocupar.
A própria atriz previu o que viria. Em março, ao comentar sua experiência em “A Casa do Dragão”, ela disse que simplesmente existir como mulher nesses universos geeks já era motivo de comentários – e que neles os fãs sentiam que tinham uma estranha sensação de posse sobre o corpo das mulheres. A resposta foi imediata, e a máquina de raiva das redes apontou pra ela com mira laser. É um ciclo INFINITO quase didático, em que uma mulher diz que mulheres são atacadas por existir nesses espaços e é…justamente atacada por apontar isso. Depois do fracasso nas bilheterias, a lógica se completou.
Comentaristas conservadores chamaram Alcock de “detestável” e culparam a mensagem de “girl-boss” do filme pelo desempenho fraco, enquanto outros responsabilizaram as falas da atriz na divulgação, como o fato de que ela achava ótimo o filme não girar em torno de um homem nem de um romance. Uma heroína que não precisa de um homem na própria história ainda é tratada como provocação aos valores conservadores… Quem poderia imaginar, não é?
O duplo padrão de análise para filmes medíocres estrelados por homens e por mulheres fica evidente quando a gente olha para os fracassos masculinos. O bizarro Lanterna Verde de Ryan Reynolds, Morbius, Adão Negro, The Flash, Aquaman 2 e Kraven, o Caçador foram tão ou ainda mais mal recebidos que Supergirl. Lembrando ainda do inexorável filme do velocista escarlate com Ezra Miller, que está entre os maiores prejuízos da história da DC. Nenhum deles levou alguém a concluir que homens não conseguem carregar um filme de super-herói porque NÃO VIVEM UM ROMANCE.
Morbius virou meme, Adão Negro virou piada, mas o diagnóstico dessas pérolas sempre recaiu sobre pontos bem específicos: roteiro ruim, estúdio metendo o bedelho, escalação errada. O gênero do protagonista JAMAIS entrou na conta. Quando uma mulher fracassa, porém, o raciocínio muda de escala. Supergirl passou a ser somada a As Marvels e Madame Teia e, como o denominador comum desses filmes é ter protagonistas mulheres, o risco é Hollywood concluir que FILMES DE HERÓIS COM MULHERES são apostas mais arriscadas.
Um filme protagonizado por um homem fracassa por mil motivos. Já o que tem protagonista mulher fracassa justamente porque ela é mulher.

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E então…
Existe uma ideia antiga no feminismo de que a igualdade de verdade não virá quando uma mulher brilhante for tratada como um homem brilhante, mas sim quando uma mulher medíocre for tratada com a mesma indulgência que um homem medíocre. Hollywood produz todos os anos dezenas de filmes de ação genéricos meia-boca estrelados por homens, e eles são simplesmente esquecidos, sem virar julgamento sobre a existência e capacidades masculinas.
Diretores fracassam aqui e ganham rios de dinheiro ali, em um próximo projeto, vida que segue. Atores ABUSAM DE MULHERES, são processados, “cancelados”, emendam fiascos, mas continuam sendo escalados, famosos, dando autógrafos, tornando-se objetos de admiração. Para as mulheres, cada filme vira um teste de legitimidade e competência em que é preciso ser no mínimo excelente para provar que elas merecem estar ali.
Se o filme for só razoável, logo concluem que ela nem devia ter tentado. É um peso injusto, porque exige perfeição justamente de quem recebe menos (em termos financeiros, literalmente) e tem menos oportunidades de errar e de acertar.
Sabemos bem que por trás desse ódio está algo mais profundo que o gosto cinematográfico e o apego a personagens de HQ. Estão a sensação de posse de uma parte do público sobre esses universos, a expectativa de que heroínas confirmem um ideal de feminilidade doce e desejável, e a assimetria que torna o erro masculino individual e o feminino coletivo.
Personagens masculinos atormentados e raivosos, como Wolverine, Kratos ou o Batman de Robert Pattinson, são celebrados como complexos, profundos. Na mulher, a mesma raiva vira antipatia, arrogância, vulgaridade ou “lacração”. A Supergirl de Helen Slater cabia no molde e agradava ao olhar masculino. A de Milly Alcock se recusa a isso e é punida.
Não se trata de negar que o filme teve problemas reais, nem que fatores comerciais possam ter pesado. Vale lembrar que Supergirl nunca foi uma personagem capaz de gerar um estouro de bilheteria, que o filme enfrentou Toy Story 5, Minions e o Homem-Aranha, e que parte das próprias mulheres, em geral (infelizmente) também não se interessa em pagar para ver filmes desse tipo. Tudo isso ajuda a explicar por que Supergirl fracassou.
Mas não explica por que o ódio chegou antes do filme existir, nem por que um Adão Negro é só um filme ruim, enquanto uma Supergirl vira um veredito sobre o direito das mulheres de protagonizar histórias de heróis. O que se pede não é que filmes com mulheres sejam poupados de críticas. É que eles tenham o mesmo direito que os filmes com homens sempre tiveram: o direito de serem apenas ok, medianos e de fracassarem por si só.
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