Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

Sugestão de banda: escute o som do Faca Preta

Num momento em que resistência se torna cada vez mais do que necessária, é bom ver um exemplo como o deste quarteto de São Paulo, que entende EXATAMENTE sobre o que diabos é o punk

Por THIAGO CARDIM

“Ai, não, por favor, não mistura política com meus quadrinhos”. Esta frase, que se tornou recorrente nos últimos anos, um grito de socorro dos ~fãs indignados, é do tipo que nos permite trocar “quadrinhos” por “séries”, “filmes” e até “roquenrou” sem qualquer prejuízo de significado.

Mas se já é bizarro escutar alguém dizer que qualquer espectro da cultura pop não combina com política (porque, SPOILER, vamos lá, política está em TUDO nas nossas vidas… até num posicionamento que se diz ‘apolítico’), imagina o quão SURREAL chega a ser alguém dizer que não se deve misturar PUNK com política.

“Artistas de uma forma geral devem se posicionar contra essas ideias fascistas”, diz Fabiano Santos, vocalista do combo paulistano Faca Preta – não por acaso, uma banda PUNK – em entrevista exclusiva pro Gibizilla. “Artistas sempre influenciaram pessoas e isso é importantíssimo no combate ao fascismo. Quando se fala de bandas punks, isso deve ser ainda mais evidente, é sabido que o movimento punk sempre foi contra o fascismo, sempre combateu esses ideais. Essa é a essência do punk”.

A gente sabe, Fabiano. E a gente concorda, Fabiano. E ficamos feliz de ver, no fim das contas, uma banda punk que entende o que é ser punk. Pode parecer óbvio, infantil até, mas numa realidade na qual tradicionais integrantes desta cena surgem do esgoto defendendo ideias e mitos conservadores, talvez seja bom explicar as paradas detalhadamente.

“Isso é muito bizarro, eu acho que essas pessoas sempre pensaram dessa forma, mas esses pensamentos não eram colocados para fora”, opina o frontman. “Com essa onda direitista ocorrendo no mundo inteiro, eu acho que elas viram uma oportunidade para ‘sair do armário’. Mas é tudo muito contraditório, punks velhos que sempre pareceram ser contra o sistema, de repente apoiando governos racistas, defendendo a pátria de maneira exacerbada, com política anti-imigrantista, é tudo muito esquisito. Espero que essa derrota do Trump agora nos EUA, seja um indício de que essa onda esteja perdendo força”.

Na real, apesar de apontar (com razão) o dedo na direção dos “punks velhos”, o Faca Preta não é exatamente uma banda formada por jovens iniciantes. Dá até pra dizer que os caras são veteranos. Fabiano e o guitarrista Anderson Boscari são amigos de longa data e já tocaram juntos no Inkognitta, que encerrou atividades em 2012. Um ano depois, eles colaram num show do Blind Pigs lá no Cine Joia, casa de shows paulistana, e bateu aquela vontade de voltar a ter banda. O bichinho do rock picou os caras de novo.

“Mas diferente do Inkognitta, que ia para um lado mais metal, queríamos ter uma banda mais voltada para o punk rock. Assim nasceu o Faca Preta”, explica. “Em 2015, lançamos nosso EP em uma parceria entre a Hearts Bleed Blue (Nota do Editor: selo independente focado especialmente em nomes do punk e do hardcore) e o selo Semper Adversus (Nota do Editor: do próprio Henrike, vocal dos Blind Pigs)”.

“Quem gosta de qualquer banda com posicionamento conservador, de direita, fascista e afins, nunca vai gostar da gente”, conta o músico, meio que fazendo uma lista de referências às avessas. “Falando do tipo de som, é uma pergunta difícil, até porque na própria banda os integrantes são bem ecléticos, embora a banda seja essencialmente voltada para o punk rock mesmo”.

Recentemente, os caras lançaram a música Dias Melhores, que veio junto com um clipe que deixa claríssimo para onde eles tão indo. Presta atenção na letra e, claro, na narrativa do vídeo.

Mas, afinal, eles realmente acreditam que teremos Dias Melhores vindo por aí? “Sim, temos sempre que acreditar no melhor, como eu disse acima, espero que essa derrota do Trump seja um indício de que essa onda direitista esteja perdendo força no mundo e que isso se reflita aqui nas próximas eleições”. Só que, enquanto isso não acontece, eles talvez sintam que se posicionar desta forma pode ser um problema no atual cenário que vivemos? “Acho que como não somos mainstream, ainda não sentimos esses problemas na pele, mas tenho certeza de que se estivéssemos inseridos na grande mídia teríamos problemas sim. A patrulha fascista pró governo é bastante atuante, já vimos vários exemplos de artistas sendo perseguidos pelo seu posicionamento político”.

Bom, se depender da gente, vamos trazer muitas dores de cabeça pra vocês daqui pra frente. 😉

Fabiano promete que teremos novidades sobre a banda em breve. Afinal, eles estão com um disco completo já gravado – 10 músicas fresquinhas, saídas do forno, que não viram ainda a luz do dia justamente por conta da pandemia. “Nossos planos são para que ele esteja na praça ainda no primeiro trimestre do ano que vem, vamos ver. Recentemente voltamos aos ensaios também, respeitando todos os protocolos no combate à pandemia”.

Pra quem se interessou, eles têm uma página no Bandcamp, clica pra ouvir mais sons do Faca Preta.

Post a Comment