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Com o RPG de Conan, agora todo mundo pode dar um pulo na Era Hiboriana

Em um momento no qual parece que o bárbaro cimério voltou com tudo ao mercado nacional, a New Order coloca para financiamento coletivo a versão em português do jogo de interpretação da grande obra de Robert E. Howard

Por THIAGO CARDIM

Quem poderia imaginar que, em pleno 2020, um dos assuntos mais comentados do mercado editorial tenha sido justamente um irascível bárbaro vindo da Ciméria, de espada em punho e dentes trincados, prontinho para estripar qualquer adversário em seu caminho. Afinal, para inaugurar o formato Omnibus por aqui, justamente aquele tão conhecido pelos colecionadores lá fora, com suas mais de 700 páginas, a Panini escolheu justamente Conan, O Bárbaro.

O cabeludo continua com um séquito fiel de colecionadores por aqui, do tipo que vibrou ao saber da primeira compilação de sua fase Marvel, com roteiros de Roy Thomas e arte do mestre Barry Windsor-Smith. E do tipo que ficou justificadamente puto da vida ao descobrir que mais de 60 páginas vieram absolutamente sem nenhuma tradução. “Questão de padronização das edições da Panini no mundo todo”, defende-se a editora, ao dizer que se tratam de “extras para recriar a atmosfera da época”.

Mas se por um lado esta galera tá chiando (com razão, já que nem todo mundo é fluente em inglês, né), por outro tá celebrando ao descobrir que Robert E. Howard’s Conan Adventures in a Age Undreamed of vai ganhar uma versão em português. Batizado de Conan de Robert E. Howard: Aventuras em uma Era Inimaginável, o roleplaying game da londrina Modiphius Entertainment (Star Trek Adventures, John Carter Warlord of Mars) sairá por aqui pela New Order Editora (The Strange, Numenera) – que já colocou, aliás, o projeto para financiamento coletivo no Catarse.

A adaptação ficou a cargo de Rogerio Saladino, conhecido pela turma RPGista brasileira como um dos criadores do bem-sucedido cenário de Tormenta. Mas o que fez com que a dupla Anésio Vargas e Alexandre Manjuba, da New Order, convocasse o cara para a missão foi na verdade um mix de suas experiências com RPG, quadrinhos (ele chegou a editar as HQs da Marvel no Brasil) e literatura de fantasia. “Eles me ofereceram parte da tradução de uma campanha de aventuras de Chamado de Cthulhu (tema que eu simplesmente adoro) que vão lançar, As Máscaras de Nyarlathotep, e já me falaram naquele instante que queriam me passar a tradução do RPG novo de Conan”, conta ele, em entrevista exclusiva pro Gibizilla.

Do que se trata?

Neste caso, estamos falando do RPG mais recente e atual que usa o cenário e a mitologia de Conan, com base nas histórias originais de Robert E. Howard, com um foco mais voltado para ação e tentando capturar a clima pulp fantástico das primeiras histórias do personagem. Quem acompanha o personagem de perto, no entanto, sabe que a propriedade intelectual “Conan” tem uma história complicada e cheia de detalhes e de idas e vidas.

“Teve muito material que foi escrito depois da morte de Howard, em 1936, usando o personagem, ‘completando’ histórias que estavam inacabadas e até mesmo pegando outras histórias de Howard e trocando o personagem principal, para virar uma história do Conan”, explica Saladino. “O sucesso do herói cimério fez que algumas editoras e editores ‘adicionassem’ mais histórias e completassem (com sua visão) partes da história do personagem que não foram descritas por Howard.

Ele reforça que isso não é exatamente algo ruim, mas apenas… diferente do original. “Conan se tornou um personagem tão marcante e influente que acabou gerando um estilo dentro das histórias de fantasia, em vários meios. Muita gente faz história ‘estilo Conan’ até hoje, então não é de se estranhar que os vários meios tenham sua adaptação própria (ou mais de uma) para as histórias do cimério”.

Ele faz questão de deixar claro que o RPG Robert E. Howard’s Conan Adventures in a Age Undreamed of usa como base os contos e histórias originais de Robert E. Howard, e teve participação e consultoria de estudiosos do assunto, como integrantes da The Robert E. Howard Foundation, além de ser um produto licenciado e aprovado pela Conan Properties International. “A ideia é ter um RPG que mantenha e celebre a criação de Howard da forma mais próxima possível da que foi imaginada e apresentada pelo seu criador, nas 17 histórias originais (e mais alguns materiais)”.

Neste caso, a New Order deu ao Saladino total liberdade para traduzir e ajustar os termos da forma que achasse mais adequada ao jogo. “Minha intenção é fazer a melhor tradução possível, que passe o clima e estilo que os autores originais do jogo querem transmitir para as aventuras no mundo de Conan”, reforça ele.

Mas cabe aqui um adendo importante nesta ponte que existe entre “tradução” e “adaptação”. Rogerio diz que, de livro a RPG, de quadrinhos a filmes ou séries, tem SEMPRE uma quantidade variável de adaptação. “Isso envolve muito mais do que só trocar palavras de um idioma para outro. Particularmente eu acho que adaptação faz parte de tradução, e isso varia em cada caso. Falando do caso específico do RPG do Conan da Modiphius, tem muita coisa que não pode ser só tradução ‘dura’, que precisa ser passada em termos que ao mesmo tempo que passem o clima de ação heroica também remeta ao tipo de aventura que o Howard apresentava nas suas histórias”.

De d20 para 2d20

Quando a gente fala de RPGs com ambientação de fantasia, imediatamente comete a obviedade de pensar no bom e velho Dungeons & Dragons. Mas não vamos confundir aqui, porque Robert E. Howard’s Conan Adventures in a Age Undreamed of não utiliza o sistema d20, então a lógica interna e o ritmo do jogo em si não segue o estilo do D&D ou de sistemas com base no d20.

“O sistema da Modiphius é o 2d20, que foca em número de sucessos para se conseguir fazer uma tarefa”, conta Saladino. “O personagem faz testes com dois dados de 20 lados buscando resultados inferiores ao seu atributo relevante, que vão de 6 (o mínimo) a 12 (o máximo humano), com uma média de 8. Alguns fatores alteram os testes, dando bônus (diminuindo a dificuldade) ou fornecendo mais dados além dos dois d20s, aumentando a chance de sucesso – e tarefas mais complicadas podem pedir mais de um sucesso”.

Ele ainda diz que temos outros elementos, alguns inspirados em sistemas contemporâneos de RPG, mecânicas com a intenção de agilizar o jogo, deixar combates mais dinâmicos e participativos (com os pontos de Ímpetos, um tipo de sucesso excedente em uma tarefa que pode ser usado em outra tarefa, até de outro jogador). “Outro exemplo é a magia, que precisa estar presente, mas tem que ter um papel diferente de um RPG de fantasia mais clássico, porque na Era Hiboriana a magia não é tão benéfica e relativamente tranquila de ser usada”, relembra ele. “Precisa de um sistema de regras pra refletir o medo e cautela para se usar magia (ou feitiçaria) no cenário”.

Mais detalhes

O livro básico de Conan de Robert E. Howard: Aventuras em uma Era Inimaginável é colorido, de capa dura, com 432 páginas, trazendo criação de personagens, as regras do jogo e uma diversidade de materiais, incluindo culturas, geografia, religiões, magia, deuses, monstros, orientações de narração, ideias de aventuras e etc., incluindo aí uma aventura introdutória e fichas de personagens prontas para usar. Conforme as metas forem sendo atingidas no Catarse, os suplementos pretendem apresentar o mundo de Conan em mais detalhes e com diferentes estilos de jogo fazendo referência às muitas fases de sua jornada: Ladrão, Bárbaro, Mercenário, Pirata, Salteador, Batedor… e Rei (o fã de verdade deve ter dado um gritinho neste exato momento).

O livro traz ainda ilustrações de nomes de peso, como Cary Nord, Joe Jusko, Paolo Parente, Liam Sharp, Jose Villarrubia, Joe Jusko e o mestre Simon Bisley.

Pra quem se interessou, o link do livro no Catarse é ESTE AQUI.

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