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Liga da Justiça Internacional: 34 anos de super-heróis e BWAH-HA-HA!

Em entrevista exclusiva, J.M DeMatteis conta um pouco mais dos bastidores da fase humorística da LJI, que ultrapassa as três décadas de publicação exatamente neste dia 5 de fevereiro de 2021

Por THIAGO CARDIM & RENAN MARTINS FRADE

(texto publicado originalmente no JUDÃO.com.br e adaptado para o Gibizilla)

Aquela era uma era de relançamentos. Primeiro, a DC Comics reiniciou o seu universo com a Crise nas Infinitas Terras. Depois, recriou o Superman com a minissérie O Homem de Aço. Por fim, era hora de reiniciar a Liga da Justiça, tão maltratada naqueles tempos. Surgiu a HQ Lendas, com os principais heróis da editora se unindo para lutar contra Darkseid.

Com tudo restabelecido, a editora convocou os quadrinistas Keith Giffen e J.M DeMatteis para cuidar das histórias, além de Kevin Maguire para assinar a arte e aí, em Fevereiro de 1987, mas com “Maio de 1987” escrito na capa, era publicado Justice League #1.

A nova publicação não era exatamente o que os leitores estavam esperando, porém. Pra começar, por mais que Lendas tivesse estabelecido um panteão de heróis como integrantes da Liga, na prática Giffen e DeMatteis não poderiam contar com os principais personagens da DC. O Superman ainda estava limitado ao trabalho do John Byrne pós-reboot, a Mulher-Maravilha era exclusiva do George Pérez e o Wally West estava iniciando a sua fase como Flash. Dos principais heróis, só mesmo o Batman foi liberado pelo editor Denny O’Neil.

Restou, então, convocar personagens como Guy Gardner (então Lanterna Verde da Terra), Canário Negro, Besouro Azul (personagem originalmente da Charlton Comics, incorporado ao Universo DC após a Crise), Capitão Marvel (originalmente da Fawcett, também se reunindo ao resto da DC no pós-Crise) e Caçador de Marte (na época chamado aqui no Brasil de Ajax). Pouco depois ainda adicionariam o Gladiador Dourado (criação do ainda novato Dan Jurgens) e colocariam Maxwell Lord (sim, ele mesmo, aquele do filme da Mulher-Maravilha) como mecenas do grupo, conseguindo o status de “internacional” para a equipe, CHANCELADO pela ONU – resultando, efetivamente, na troca do título da HQ por Justice League International. A essa altura, o humor já era a grande característica do gibi.

O criador fala das criaturas

“Lá pela terceira ou quarta edição nós sabíamos que tínhamos um sucesso nas mãos”, relembra J.M. DeMatteis em entrevista ao JUDÃO e que aproveitamos pra republicar aqui no Gibizilla. Começava uma equipe que marcaria época, que ficou no coração de toda uma geração de leitores como a Liga da Justiça Internacional. Tudo em tempos de HQs sombrias, um caminho iniciado por O Cavaleiro das Trevas.

“Isso evoluiu de forma orgânica. O projeto para a LJI foi criado pelo Keith Giffen e pelo nosso incrível editor Andy Helfer, mas ninguém definiu que faríamos ‘super-heróis engraçados’”, conta DeMatteis. “Keith, sendo Keith, sempre traz um senso de humor no que faz, mas foi bastante sutil no começo. O humor então evoluiu enquanto a série continuou, Keith fazia um setup bem-humorado, eu construía sobre isso, ele construía sobre o que eu tinha feito no roteiro e, com o tempo, o humor foi ficando mais e mais importante. Mas em nenhum momento nós apontamos e falamos ‘vamos fazer uma série engraçada de super-heróis!”.

Com o tempo, os vilões foram ficando em segundo plano e a interação entre personagens tão diferentes passou a dar o tom do gibi, focando mais no que eles faziam nas folgas. A Canário Negro batia de frente com Guy Gardner – recriado pela dupla de quadrinistas como um personagem machista e, eventualmente, até misógino. O Besouro Azul passou a ter problemas com o peso, assim como o Coruja, a versão baseada nele criada por Alan Moore em Watchmen. O Besouro, aliás, desenvolveu uma grande amizade com o Gladiador Dourado, que ficou ainda mais ganancioso do que na versão original do Jurgens. Já o Batman, inicialmente o líder, era retratado em situações como preso no trânsito ou transtornado com a incapacidade dos companheiros.

Por fim, em Justice League International #8, surge a famosa risada “Bwah-ha-ha” – que se tornaria a marca registrada da fase. Agora, como a editora deixou tudo isso acontecer? Super-heróis RINDO?“Depois que a formação final foi definida – e, como eu me lembro, foi bem ditada pela DC, eles não queriam que usássemos os PISTOLÕES além do Batman – nós tivemos uma boa liberdade”, explica o roteirista. “Uma das grandes coisas do trabalho com Andy Helfer é que ele nos protegia. Se tinha outros editores ou criadores reclamando pela forma como lidávamos com os personagens deles, ele lidava com isso e nos deixava sozinhos para contar as nossas histórias”.

“Nós nunca teríamos Superman, Mulher-Maravilha, Hal Jordan, etc. A DC não os queria. E, no final, era realmente a nossa vantagem. Ao trabalho com os personagens de segunda linha, nós tivemos muita vantagem para brincar, para criar uma revista que era única”, continua o quadrinista. “Se estivéssemos brincando com os ícones, a LJI como conhecemos nunca teria acontecido”.

Matteis diz ainda que eles pegaram os personagens que estavam por aí e disponíveis, e então fizeram o melhor para usá-los da forma mais interessante possível. “Besouro e Gladiador, por exemplo, não foram planejados para a dupla de comédia clássica que eles se tornaram. Ambos estavam na revista e, com as histórias evoluindo, nós notamos que eles tinham essa grande química na página, não importando quando os colocávamos juntos. Então os personagens realmente nos lideraram e os seguimos na medida que a revista foi melhorando”.

O processo criativo

Quem olha de fora imagina que todo esse processo criativo tenha sido mágico. Afinal, eram quadrinistas ali, brincando com a principal equipe da DC Comics, divertindo os leitores de uma forma nunca feita antes. Dá até para acreditar que este era um processo cheio de gargalhadas, mas DeMatteis relata que não era bem assim. “Engraçado? Não necessariamente. Divertido? Sim. Keith fazia o plot – desenhando algo que era, essencialmente, uma mini-comic. Eu então escrevia o roteiro direto a partir do plot do Keith, construindo as situações e personagens, adicionando novas camadas e níveis para as já incríveis histórias do Keith. Kevin trazia a sua magia para a página, usando o plot e meu roteiro para formar esses desenhos. Às vezes, eu poderia fazer o script direto da arte do Kevin, também, tudo dependia do tempo que tínhamos naquela edição”.

Falando do Kevin Maguire, aliás, a arte dele era uma parte importante para o resultado final. Como poucos, o artista conseguia retratar as expressões nos rostos dos personagens, fechando o ciclo criativo que tornou a LJI única. “A arte do Kevin era única, tão inovada, se encaixando perfeitamente nas nossas histórias. A sua habilidade de ter os personagens atuando na página era uma grande parte do nosso sucesso. A revista poderia nunca ter funcionado com um artista diferente. A sua influência na narrativa da HQ – e especialmente na atuação de personagens – é sentida até hoje”.

É bom que se diga que não é só a herança do trabalho do Maguire que segue viva, passados 30 anos do início da publicação da LJI. Cresceu também o espaço para o humor entre os super-heróis, seja nos próprios gibis ou em outras mídias, como TV e o cinema. “Eu acredito que muito do que vemos hoje – como nos filmes da Marvel, nas séries de TV da DC – tem a influência do que fizemos”, afirma DeMatteis.

Mas chegou o fim…

Kevin Maguire partiu do gibi no número 23, mas é bom lembrar que aquela era continuou por mais um bom tempo. Aliás, se multiplicou: a LJI se dividiu em duas equipes, Liga da Justiça da América e Liga da Justiça Europa, cada uma com uma HQ própria, ambas escritas por Keith Giffen e J.M DeMatteis. Até que, em Justice League America #60 e Justice League Europe #35 – ambas publicadas no começo de 1992 – a era do “Bwah-ha-ha” chegou ao fim. Dan Jurgens e Gerard Jones, respectivamente, assumiram os dois títulos, formalmente encerrando o uso do humor.

Assim, encerrou-se uma fase de apenas cinco anos com uma equipe que está por aí desde meados dos anos 1950. Mas, ainda assim, será que poderíamos sonhar com o uso de alguns destes conceitos no cinema, no chamado Universo Expandido da DC? “Eu adoraria ver um filme dos SUPERAMIGUINHOS – se você lembrar bem, o time [LJI] se tornou Superamiguinhos quando fizemos a HQ Já Fomos a Liga da Justiça –, com o Besouro Azul, Fogo, Gelo, Max, Oberon e a galera toda”.

Aliás, o próprio JOTA EME mandou o recado: ele tá disponível pra escrever, até porque os produtores da série do CW Legends of Tomorrow já falaram por aí que a fase humorística da Liga é uma das inspirações para eles. “Eu já escrevi para várias séries animadas da DC e trabalhei em vários dos filmes animados deles, e seria ótimo poder contribuir para as séries live-action, também”.

Fica a dica. 🙂

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