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Mata-Mata mistura ebook, podcast e música para falar de pistolagem

Projeto transmídia do escritor e roteirista cearense Zé Wellington começou com um conto e virou um monstro maior – e que, detalhe, tem chance de crescer ainda mais

Por THIAGO CARDIM

Tudo começou com um simples conto. Rolou um edital de incentivo com prazo pra lá de apertado e, então, o Zé Wellington, de bons gibis recentes como Cangaço Overdrive e Steampunk Ladies, resolveu que seria um projeto de literatura, depois de uns cinco anos inteiramente dedicado aos roteiros de quadrinhos. “Um projeto sozinho, depois de tanto tempo fazendo trabalhos com equipes enormes, seria legal e mais fácil de controlar, eu pensei”, diz ele, em entrevista ao Gibizilla. “Mas esse negócio de trabalhar em colaboração está no sangue mesmo…”, completa.

Ele explica que o tal prazo desanimou fazer como HQ porque, se ele fosse escrever um roteiro e ainda aguardar desenhos, não conseguiria acabar esse projeto menos de dois meses, como acabou acontecendo. “A primeira ideia com a participação do Rafael Dantas (Mandacaru Vermelho e Lâmina Azulada) era fazer pelo menos alguns trechos em HQ. Então no roteiro das ilustras que mandei para ele, coloquei várias delas como sequenciais, tipo quadro de quadrinhos”, revela. “Acabou que demorei muito para conseguir mandar esse material para ele (por conta da dinâmica do projeto) e ele fez metade das ilustrações planejadas (a culpa toda minha, vale frisar)”.

Aí, eis que Mata-Mata, o doce e simples ebook, virou uma experiência transmídia, misturando uma trilha sonora com oito músicas de Rafael Cavalcante e um áudio drama em formato podcast produzido pela 20a20 Produtora, com a interpretação dos atores Frank Terranova e Alexandre Fontenele.

Mas do que se trata?

Mata-Mata é um conto de crime movido por dois personagens. Um deles é um assistente social idealista, que começa a atuar num distrito numa cidade fictícia do interior do Ceará. O outro é um homem reservado, inquilino de um abrigo público neste mesmo distrito. O encontro desses dois vai dar início a uma narrativa no mundo dos pistoleiros, aqueles matadores de aluguel tão comuns em todo Brasil. Enquanto conta a sua história, um pistoleiro aposentado vai lidar com o seu passado para resolver uma última treta envolvendo sua família.

“Na minha adolescência, um garoto novo entrou na escola e correu um rumor que era sobrinho de um pistoleiro famoso. Difícil saber se procedia mesmo, mas isso nunca saiu da minha cabeça”, conta o roteirista. “Misturando essa lembrança com uma história que eu tinha pensado usando samurais, acabei escrevendo Mata-Mata, uma história de crime, mas também sobre legado. Afinal, como na maioria das cidades do interior do Brasil, por aqui antes de perguntarem seu nome, perguntam de quem você é filho”.

Ele frisa ainda que é um conto inspirado nas histórias reais de pistolagem no Ceará. “Nas décadas de 1980 e 1990, a gente tinha mesmo alguns pistoleiros que eram lendários no estado, agindo principalmente a favor e contra políticos locais, e pensei que esse pano de fundo seria legal para uma narrativa de crime”, conta. “Ainda acrescentei um ingrediente final, que foi explorar as feridas deixadas por aqui pelo coronelismo”.

E como isso ganhou este tamanho todo?

O conto que teria só algumas ilustras espalhadas pela história mudou de rumo quando Zé começou a escrever o segundo ato da história, que era uma entrevista envolvendo os dois personagens principais. “Comecei a imaginar o pedaço como uma conversa gravada para ajudar a escrever. Provavelmente porque eu estava maratonando o Projeto Humanos, comecei a imaginar que seria legal aquilo como um podcast. Seria uma maneira muito legal também de contrastar passado e futuro, já que é uma história também sobre conflito de gerações”, explica ele.

Quando ele fechou o podcast com o pessoal do Iradex e da 20a20 Produtora, ficou pensando que seria legal ter uma música-tema, para ser usada no fundo do podcast. “Tenho um projeto musical com o Rafael Cavalcante, guitarrista da banda Mimão com Léo, e o convidei para fazer isso. Vale destacar as participações importantes do meu editor, Erick Sama (Editora Draco), e do webdesigner, Gusta Mociaro. Quando vi já estava gerenciando uma galera”, diverte-se. “Mas rolou tudo de forma muito natural. No fim, a história pediu para que fosse assim”.

Então… mão na massa!

Numa parada dessa, claro, é de se esperar que você seja meio como um maestro, para integrar as visões artísticas de todo mundo que está trabalhando no conceito que você pensou, ao mesmo tempo em que fica dando corda para que cada um dê sua visão pessoal. “Além disso, no podcast, que na verdade é um áudio drama, escrevi um roteiro e fui para o estúdio dirigir o trabalho dos dois atores. A edição deixei 100% por conta do Kaio Anderson”.

No caso da música, bom, não tinha como fugir. Afinal, o Zé também é do rolê – com a banda Sobre o Fim, teve três trabalhos lançados e diversas participações em festivais locais, incluindo a seletiva nordestina da Vans Tour 2009. “Fui metido em banda a minha vida inteira, então era algo que eu gostaria de ter me envolvido mais no projeto… Eu tinha pensado em apenas uma música e a ideia era fazer letra e vocais para o instrumental do Rafael Cavalcante”, afirma. “Como a música seria usada no podcast, que ainda precisava ser editado, o Rafa tinha aí uma semana, no máximo, para criar algo. Mas três dias depois de fechar com ele, ele me mandou uma mensagem dizendo que já estava na quinta música!”. EITA PORRA!

O escritor diz que, sim, o mérito pela trilha é todo do parceiro, já que ele só enviou algumas referências. “Aperreado com a gestão do projeto, não consegui nem colocar os vocais em uma das músicas, como era o planejado (embora não tenha desistido da ideia ainda)”.

Ah, sim, ideias, as ideias…

Apesar do Zé Wellington ser um cara dos gibis, bom, ele tem planos de concluir as ilustrações que ficaram pendentes – talvez até para uma versão impressa do Mata-Mata. Mas HQ mesmo? “Essa história ficou tão redondinha como literatura, que talvez eu tenha até dificuldade para imaginar ela como quadrinhos hoje”. Ele lembra que aí tem também um pouco da sua vontade de trabalhar mais literatura nos próximos anos. “Inclusive em breve devo anunciar o lançamento de um livro de contos”.

Assim que o ebook caiu na boca do povo, vieram com as resenhas também os pedidos de continuação. Mas o autor lembra que, como literatura, a história é essa mesma, incluindo os vários espaços em aberto para o leitor concluir. “Já em outros formatos, existem planos. No decorrer dos próximos meses, como exercício de um curso de roteiro de audiovisual que estou fazendo, quero transformar Mata-Mata num projeto audiovisual, embora ainda não saiba se cinema ou televisão”.

Ele acredita que alguns momentos, como o próprio mata-mata que dá nome à história e aos primeiros anos de Ademir como pistoleiro, poderiam ser ampliados.

“Mas é só um sonho ainda”, finaliza. Enquanto isso, aproveite e venha ler (e ouvir) Mata-Mata

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