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2021 tá sendo um bom ano pro metal espadinha

Aquele tradicional subgênero do bate cabeça que os próprios metaleiros dão como morto desde o final dos anos 1990 continua aí, firme e forte – e com uma safra bem interessante de álbuns pra comprovar sua teimosa resistência

Por THIAGO CARDIM

“Eu ouço metal do tipo ‘mamãe quero ser satanista’. Já o Cardim ouve metal do tipo ‘mamãe quero ser cavaleiro medieval’. Deu pra sacar a diferença?”. A divertida explicação, que já tem quase duas décadas, veio de um grande amigo do trabalho, ao ouvir de outro chapa o comentário “vocês do metal”, se referindo a nós dois.

Basicamente, o que ele quis deixar claro é que, apesar de ambos ouvirmos metal, ambos ouvimos tipos bem diferentes de metal – um gênero musical que tem uma imensa profusão de subgêneros.

Claro que ambos ouvimos, sei lá, Metallica, Slayer, Anthrax, Iron Maiden, Judas Priest, estas paradas, os clássicos. Mas ele curtia bem mais aquela turminha esquisita da Noruega, o black metal, de Mayhem a Darkthrone, uns caras que, anos depois, o próprio sujeito começou (como pessoa sensata) a questionar por conta da relação com a extrema direita… Já eu, sempre fui muito da turma da velocidade e dos refrões fáceis, dos corais e bumbos duplos, de um Kamelot ou Stratovarius da vida.

Eu sempre fui fã declarado, sem medo de ser feliz, desta imensa e deliciosa farofada que atende pelo nome de METAL ESPADINHA. Certa vez o Bruno Sutter (também conhecido como Detonator, a voz do Massacration), aliás, disse que o metal espadinha é o equivalente metálico ao hard rock farofa, aquele da Sunset Strip, pro rock “tradicional”. E acertô, o miserávi.

É. De fato, dá pra dizer que o metal espadinha é MESMO o subgênero com maior potencial pop do heavy metal. Ou, como dizia um amigo meu, é o mais próximo de FOFO que o metal conseguiria chegar.

O que é este tal de metal espadinha?

Não tá ligando muito bem o nome à pessoa? Tá bom, o titio aqui te explica. Metal espadinha é apenas mais um termo para o tal do metal melódico, conforme sempre chamamos aqui no Brasil – e que é só mais um dos apelidos para aquilo que os gringos chamam de power metal. É, ele mesmo, o subgênero metálico que teve seu apogeu entre os anos 1980 e principalmente 1990 e que, há uns quase 20 anos, vem sendo declarado morto e enterrado pelos próprios fãs e que chegou até a ser publicamente renegado por alguns de seus mais destacados representantes, como os finlandeses do Sonata Arctica.

Só pra esclarecer aqui: não, não estamos falando do power metal que, primordialmente, era o nome dado ao chamado speed metal praticado nos EUA (o Metallica se denominava power metal nos primórdios, assim como o Pantera, que até batizou seu primeiro disco assim).

Pegue o heavy metal clássico, acrescente uma dose extra de melodia e velocidade, decore com um aspecto ÉPICO e está praticamente pronta a fórmula.  

A parada aqui é aquela sonoridade sim, acelerada, mas que está numa escala totalmente distante dos tipos mais extremos de heavy metal como o black metal, aliás. Tamos falando de faixas que flertam com o sinfônico e o neo-clássico. Um metal bem mais melódico, de vocais mais limpos e quase operísticos, com corais, passagens orquestradas, guitarras cantantes, refrões grudentos, bateria de bumbo duplo, teclados a 100 km/h.

Há quem diga que os temas destas bandas circulam, em 99% dos casos, basicamente em torno de fantasia medieval com dragões, guerreiros, magos e a porra toda, na maior tradição do menino Tolkien – por isso, inclusive, o carinhoso nome de “metal espadinha”. Mas sejamos honestos, hoje o que não falta é banda de melódico falando de muitos outros assuntos. Filosofia, literatura gótica, ficção cientifica, um tantinho de política…

Bastante popular na Alemanha, na Itália, na região da Escandinávia, no Japão e também na América Latina, com destaque pra Brasil e Argentina, o power metal melódico é o que fazem grupos como Blind Guardian, Edguy, Hammerfall, Gamma Ray, Nightwish, Dragonforce e os nossos conterrâneos do Angra (e demais dezenas de bandas derivadas).

Quer entender o que é o power metal? Aperta o play no vídeo abaixo. Se você não ficar com vontade de gritar GLORIA PERPETUAAAAAAA! com este homão da porra que é o Fabio Lione, olha, tem algo de muito errado com você.

Embora dê pra traçar suas origens até os vocais cósmicos de Ronnie James Dio no Rainbow ou as guitarras dobradas do Judas Priest, é inevitável dizer que sua pedra fundamental são os alemães do Helloween, que em 1987 lançaram o clássico Keeper of the Seven Keys, Pt. 1, disco que influenciaria toda uma geração de bandas a seguir que, ao longo da década seguinte, viraria uma verdadeira mania.

Em certos casos, dá pra dizer até que uma verdadeira praga, dada a verdadeira profusão de bandas clones umas das outras, que simplesmente não era possível diferenciar entre elas e que, na virada dos anos 2000, chegou a um limite, uma verdadeira crise de criatividade que, além do ódio dos fãs do metal extremo (que, bom, nunca gostaram de nada que pudesse ser minimamente melódico e não admitiam tê-lo associado ao nome “metal”), trouxe a indiferença de quem um dia foi fanático pelo estilo.

Uma série de bandas consagradas dentro do power metal melódico começaram, então, a enveredar por outros estilos em busca de um sopro de frescor, “infectando” seu som com uma pegada progressiva, naturalmente tornando mais complexa a já intrincada performance de seus instrumentistas (se você ouvir Secret Garden, que o Angra lançou em 2015, vai entender a pegada), ou então indo pro ooooooutro lado e flertando com a festividade simples e direta do hard rock — como foi o caso do Edguy, por exemplo.

Dá pra dizer que mais ou menos de 2010 pra cá, o power metal sofreu uma retomada de interesse, com novas e interessantes bandas surgindo pra dar uma chacoalhada na fórmula e não só trazendo parte de seus antigos fãs de volta como conquistando uma nova geração de jovens cabeludos e cabeludas. Arrisco dizer que um dos principais responsáveis por manter esta tocha acesa é um camarada germânico que atende pelo nome de Tobias Sammet.

De maneira inteligente e com composições chiclete pra cantar junto, ele fez o supergrupo Avantasia se tornar ainda maior do que sua própria banda principal, o Edguy, trazendo nomes do rock mais mainstream como Klaus Meine (Scorpions), Dee Snider (Twisted Sister) e Alice Cooper, tocando nos principais festivais do planeta e fazendo com que os álbuns mais recentes chegassem ao topo das paradas de sucesso em alguns países. Tudo isso e ainda trazendo de volta pro metaaaaaaaaaaaaaaaal um de seus maiores ícones, Michael Kiske, que hoje sai por aí em uma outrora imprensável reunião com o Helloween.

Não é incomum ir a uma apresentação do Avantasia e ver não apenas tiozinhos grisalhos como este que vos escreve mas também um mar de meninos e meninas (sim, muitas delas, ainda bem) do alto de seus 15, 16 anos, curtindo uma parada menos hermética, que pode ser porta de entrada pra um monte de tipos de metal no futuro… incluindo até aqueles com corpse paint na cara que correm nas florestas geladas da Noruega.

E eis que o ciclo se fecha.

O evangelizador do power metal

Não, não, se deixe levar apenas por mim, meu querido. Existem MUITOS dispostos a levar a palavra do metal espadinha adiante.

O norueguês Per Fredrik Åsly, que atende pelo apelido de PelleK, é o caso de um destes evangelizadores do power metal, que ainda existem aos montes. Em seu canal do YouTube, com mais de 3 milhões de inscritos e com vídeos que por vezes ultrapassam 1 milhão de visualizações, ele faz inusitadas versões metalizadas para canções pop de nomes como Bruno Mars, Lady Gaga, Adele, Pharrell Williams, ABBA, Elton John, A-Ha, Lana Del Rey, Imagine Dragons, Michael Jackson, Lorde, Ariana Grande…

“Achei que seria legal brincar com músicas que as pessoas ouvem regularmente nas rádios, e dar a elas uma roupagem de power metal, que é o melhor gênero musical que existe, na minha opinião”, me contou ele, quando o entrevistei pro JUDÃO.com.br. “Ninguém estava fazendo isso e eu achei que seria bacana dar uma contraparte metálica para a música pop”.

O sucesso de suas versões metalizadas acaba ajudando na realização de uma missão: fazer mais e mais pessoas se interessarem pelo metal. “Acho que, como o power metal não é exatamente um dos gêneros mais populares do mundo, estas versões ajudam a apresentá-lo para os jovens e adolescentes. E eles se apaixonam por isso e resolvem que vão ouvir mais disso. É o que eu quero”, diz, em tom de orgulho. “Recebo milhares de mensagens de pessoas que mudaram seus gostos musicais, que ampliaram seus horizontes e passaram a ouvir power metal”.

Fanático por videogames como Final Fantasy e World of Warcraft, ele também já brincou com músicas de clássicos da Disney, do Homem-Aranha, de Duck Tales, de Game of Thrones, dos Caça-Fantasmas… Sua especialidade, no entanto, são os animes – como Bleach, Naruto, Pokémon, Death Note, Full Metal Alchemist e Dragon Ball Z, entre outros.

“A coisa com os animes é que, na verdade, eles já fazem um pouco de uso do heavy metal nas aberturas das séries animadas – mais ou menos como os ocidentais fizeram bastante ao longo dos anos 70 e 80. Lembra da versão do Lion para a abertura de Transformers, no filme animado? A guitarra, os vocais, está tudo lá”, recorda. “E tenho o maior respeito pelos japoneses não só porque eles têm excelentes músicos, mas porque eles ainda fazem bastante metal nas aberturas, e a gente precisa de mais metal na nossa vida. Nunca é o bastante”.

Em pleno 2021 e vocês ainda metal espadinha?

Sim, sim, sim. E muito SIM.

Porque em 2021, enfim saiu Helloween, o álbum autointitulado da banda alemã, seminal para o gênero, que marca o retorno da dupla Michael Kiske e Kai Haisen, pináculos da parada, depois de praticamente 30 anos. Só isso, já seria motivo de comemoração – embora este aqui que vos escreve, para ser total e completamente honesto, não tenha NECESSARIAMENTE entrado no hype.

É um bom disco, coisa e tal, boas músicas, ótima produção, mas um tanto “comportado” demais, aposta DEMAIS no confortável, não brinca mais com a dicotomia das vozes entre Kiske e o “atual” vocalista, o igualmente ótimo Andi Deris. Faltou ser mais Happy Helloween só que sem jogar tanto pra galera assim… Dá pra entender que talvez seja um primeiro passo, mas acabou soando bem mais Helloween feat Kiske do que um Helloween COM o Kiske de fato.

Mas hey, pera lá! Estamos APENAS em julho e tamos longe de ter tido apenas Helloween pros apreciadores de um bom metal espadinha.

Dois dos meus favoritos de 2021, por exemplo, são Creatures of the Dark Realm, dos suecos maquiados do Bloodbound, e Final Days, dos alemães do Orden Ogan. Ambos trazem as doses certas de diversão e empolgação, peso e melodia, dando vontade de cantar junto, de dançar, com aquelas faixas que em poucos minutos você está cantarolando junto, batendo pezinho e se imaginando berrando a plenos pulmões com a galera em um show (aliás, saudades, acaba logo merda de pandemia e merda de presidente).

O ano também nos presenteou com Vagabond, esta coisa linda, com uma doçura metálica que só o espadinha nos proporciona, de uma nova banda chamada Sonic Haven. Nos vocais, o excelente Herbie Langhans, cujo vozeirão a galera conhece das turnês mais recentes do Avantasia. No ano, ainda tivemos espaço para o álbum autointitulado do Hammer King, uns alemães que, apesar do nome e do mascote lembrarem ATÉ DEMAIS o Hammerfall, fazem um trabalho bem competente…

Isso sem esquecer o próximo capítulo de Avalon, a metal opera de Timo Tolkki (ex-Stratovarius), que com seu novo capítulo, The Enigma Birth, ajuda a esquentar os motores até que o Tobias me saia com coisa nova do Avantasia do seu forninho criativo. Tem James Labrie (Dream Theater), tem Fabio Lione (Angra e Rhapsody) e tem até os brasileiros Marina La Torraca (Phantom Elite) e Raphael Mendes (da banda Icon of Sin e que é irmão gêmeo vocal do Bruce Dickinson). E tem muita música boa, apesar de em alguns momentos soar um tanto genérico…

E aqui no Brasil, rolou o Vera Cruz, primeiro disco solo do Edu Falaschi (ex-Angra) – que traz um timaço na banda de apoio e ainda conta com participações especiais como Elba Ramalho (mas sem os ETs) e Max Cavalera. Sim, sim, quando você ouve as músicas e presta atenção na história conceitual por trás do álbum, tá claro que é um “o que aconteceria se o Edu nunca tivesse saído do Angra”, porque tudo soa como uma espécie de continuação do Temple of Shadows com uns toques do Holy Land. O que não necessariamente é algo RUIM, mas digamos que dava pra esperar mais – e talvez um pouquinho menos de megalomania e grandiloquência, de longe os maiores perigos de um bom disco de power metal…

Isso porque vivemos num mundo em que, além dos medalhões de costume, ainda tem Powerwolf (os lobisomens que lançam disco novo, Call of The Wild, em breve), os maníacos históricos do Sabaton e a SUPREMA farofada intergaláctica do Gloryhammer. Tamos aí MUITO bem servidos.

Se quiser escutar um pouco mais deste tipo de música, cola nesta playlist linda que fiz no Spotify, atualizada frequentemente.

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