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Lançando uma Mandinga em forma de gibi

Batemos um papo com a dupla Guilherme Smee e Danilo Aroeira sobre sua HQ que valoriza o folclore nacional com uma abordagem contemporânea e urbana

Por THIAGO CARDIM


Uma história sobre lendas do folclore, que existem de verdade e vagando ocultas entre as pessoas comuns, nas sombras em meio às modernidades de uma cidade grande, manipulando quem quer que seja para continuarem sobrevivendo. Se a gente estivesse falando de vampiros e lobisomens, poderia ser o Mundo das Trevas dos RPGs. Ou quem sabe o livro Deuses Americanos, daquele rapaz chamado Neil Gaiman. Mas as tais lendas do folclore são, no caso, lendas do folclore NACIONAL. Ah, aí então tá fácil, é óbvio que estamos falando de Cidade Invisível, aquele série exibida via Netflix com a Alessandra Negrini (amém). Nops. Errou. Estamos falando, isso sim, da HQ independente Mandinga.

“Foi uma baita coincidência saber que, enquanto estávamos desenvolvendo Mandinga, a Netflix iria lançar uma série brasileira que focava as lendas brasileiras”, contam ao Gibizilla os autores do gibi, Guilherme Smee (roteiro) e Danilo Aroeira (arte).

“Claro que pensamos em aproveitar a grande repercussão da série para usar em nosso favor na divulgação. Mas como desenvolvemos o quadrinho antes de ver a série, além da temática semelhante, nada mais tem em comum”. Eles destacam que, ao contrário da série, que parte dos olhos de uma pessoa comum, no caso o policial vivido por Marco Pigossi, o quadrinho traz a trama a partir do ponto de vista da lenda, que é a real protagonista. “Também é uma trama mais pontual e menos extensa, focando elementos de suspense e de terror”. 

Tudo começou num Beco dos Artistas

O Guilherme, natural de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul e hoje residindo em Porto Alegre, é publicitário de formação e trabalha com roteiros e design gráfico, além de ser pesquisador acadêmico de histórias em quadrinhos. Mas ele faz quadrinhos desde 2013 e tem publicado ao menos um trabalho por ano, entre títulos como Desastres Ambulantes, com desenhos de Romi Carlos; Bem na Fita, que conta com diversos desenhistas; e Sigrid, desenhado por Thiago Krening.

O roteirista já conhecia o trabalho do Danilo por ter cruzado com ele em eventos como FIQ e CCXP, mas a dupla nunca tinha conversado pra valer. Danilo, vindo de Belo Horizonte, também é publicitário e circula no meio acadêmico, como professor universitário. Nos quadrinhos independentes, começou TAMBÉM em 2013, publicando o webcomic Samurai Boy sob o pseudônimo Dan Arrows, o que lhe abriu diversas portas. Foram parcerias como Moleque – A Casa da Bruxa, com Marcos Pena e o o mangá Alynna, com Lais Menin, além das participações no circuito dos eventos de quadrinhos. Aí os caminhos se cruzaram pra valer.

“Começamos a trocar ideias em um grupo de WhatsApp de quadrinistas quando descobrimos que os dois tinham um background acadêmico”, explica Guilherme. “No mesmo ano, ao procurarmos parceria para dividir mesa na CCXP 2019, combinamos de estar juntos no evento. Lá estreitamos nossa amizade e combinamos de, um dia, fazermos um quadrinho juntos”. A oportunidade chegou quando descobriram o edital de quadrinhos da Lei Aldir Blanc da Secretaria de Cultura e Turismo de Minas Gerais. “Ao sermos contemplados com o edital, começamos a investir em Mandinga”. 

Página da HQ Mandinga
Página da HQ Mandinga

Vale um pouco de contexto

Se você não faz ideia do que a palavra “mandinga” significa, tudo bem, a gente explica – derivada a partir da designação de um grupo étnico do Brasil colonial que carregava junto ao peito uma bolsa com amuletos e orações, a palavra de origem africana se tornou sinônimo de algum tipo de feitiço. No gibi de Smee e Aroeira, eles deixam claro que as lendas fazem a mandinga que for necessária para continuarem vivas nos corações e nas mentes dos brasileiros.

Mandinga é uma história que valoriza o folclore nacional, mas diferente da maioria de histórias sobre esse tipo de manifestação cultural, resolvemos dar uma abordagem contemporânea e urbana para a trama”, explicam os dois autores. O leitor é convidado a conhecer Luna, uma mulher sensual e misteriosa que, na verdade, é a criatura marinha Cotaluna, uma mistura de sereia com fantasma conhecida por habitar o rio Gramame, em João Pessoa, Paraíba – embora também haja relatos a seu respeito no Rio Grande do Norte.

Dentro desses muitos jogos sedução, Luna acaba matando uma lenda como ela, o que pode incorrer na ira do deus Tupã, que ameaça inundar a Terra. “Para se livrar de uma possível maldição – ou uma mandinga do deus dos deuses indígenas – ela vai contar com a ajuda de outros seres das lendas brasileiras, como a Mula Sem Cabeça, o Saci, a Matinta Perera e outros mais. Nesse percurso, muitas tramoias, feitiços e traições irão ocorrer”. 

Um caldeirão de ideias

Para atender ao edital, os quadrinistas pensaram em algo que unisse temas brasileiros, com um quê de mineirice, mas que também, de certa forma, fosse universal. “Entre muitos temas que pensamos, chegamos no consenso de lendas brasileiras, mas com uma pegada a la Deuses Americanos”. Além do Gaiman, as inspirações vieram de muitos cantos diversos, como histórias do Chico Bento se relacionando com lendas, o Sítio do Pica-Pau Amarelo e seus personagens icônicos, histórias de horror em quadrinhos como as de Hellblazer

“Um livro que ajudou imensamente na pesquisa foi o Monstruário, do (psicanalista) Mário Corso, que inclusive é citado no nosso glossário de lendas que está incluído nos extras da publicação”, afirma Guilherme.

Como eles tinham um tempo muito curto para realizar a HQ – o prazo inicial era de apenas três meses, que depois foi estendido -, não puderam contatar especialistas ou representantes especializados. “Entretanto, nossa HQ começa em uma cidade do Nordeste brasileiro, ainda que não especificada previamente. (…) Mais tarde, os personagens vão a São Paulo para acelerar a história e dar esse aspecto urbano que necessitamos”. Além disso, eles fizeram questão que a protagonista fosse uma mulher negra e outros personagens importantes na trama assumissem formas distantes do homem branco tradicional quando em suas formas humanas. 

Bom, parece que, diferente de Cidade Invisível, alguém soube como lidar com as raízes étnicas da nossa cultura, afinal de contas… 😉

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