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Sobre Amazon, altos preços e novos leitores

As mais recentes desavenças da gibisfera me fizeram multiplicar um único assunto por muitos outros – considerando que, sim, realmente tá tudo conectado e precisa ser discutido de maneira integrada

Por THIAGO CARDIM

A tal da Amazon Dependência. Um tema que não é novo, assim como o termo também não. Uma discussão que outrora permeava inicialmente o universo de atuação dos chamados gibitubers – aquelas pessoas que falam sobre quadrinhos em seus canais, sejam eles no próprio YouTube ou então no Instagram, TikTok e afins. E que eventualmente se tornaram dependentes financeiramente dos links afiliados da Amazon, através dos quais ganham uma comissão a cada exemplar vendido, tal qual vocês veem a gente mesmo fazendo aqui no site ou nas redes sociais do Gibizilla.

(Vamos lá, um parêntese fundamental aqui: claro que faz sentido questionar um gibituber e sua linha editorial sem um mínimo de crítica, que simplesmente diz que todos as HQs do mundo são lindas e maravilhosas, porque afinal eles precisam convencer as pessoas a comprarem aquilo pra ganharem um cascalho. Mas importante dizer que todo mundo também precisa ganhar dinheiro e pagar as suas contas. E, bom, o percentual que a Amazon paga por venda é de fato BEM mais interessante do que aquele que YouTube e TikTok usam para remunerar seus criadores de conteúdo por views. E dá pra monetizar muito antes de ser um canal imenso, inclusive. Ou seja… Deixo vocês aí pensando nisso.)

Mas “Amazon Dependência” também se tornou sinônimo de uma discussão muito maior: aquela que diz que todo o mercado de quadrinhos, em sua essência, acabou se tornando dependente da Amazon aqui no Brasil. Dos gibitubers aos consumidores, passando inclusive pelas próprias editoras. Claro, é preciso dizer, há quem argumente que o assunto veio à tona nas últimas semanas apenas e tão somente porque agora a Panini TAMBÉM tem as suas lojas físicas, em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília e Niterói. Ou seja, passou a doer no bolso da maior editora de gibis do país, que responde por mais de 50% do mercado como um todo, que tem a sua loja online e agora também uma franquia de lojas no mundo “real”.

E daí pra puxar a discussão nos principais espaços de quadrinhos da internet, é um pulo… Uma discussão que, no entanto, eu acredito que se multiplicou em muitas frentes BEM interessantes e pouco óbvias. Então, mordi a isca.

Amazon x Lojas de Quadrinhos (ou Livrarias)

Tudo começou, na real, quando o Universo HQ reuniu, numa live, os donos da Comic Boom, Comix, Monstra, Ugra, Cidade de Papel e Taverna do Rei, grandes nomes do segmento de comic shops em São Paulo, para discutir a atual situação das lojas especializadas em gibis – e, claro, os impactos da Amazon neste rolê todo. Dali, uma porrada de gibitubers e veículos especializados replicaram e amplificaram a discussão.

“Pelo seu volume, a Amazon compra com condições mais favoráveis do que as outras livrarias. E isso não é apenas preço, também prazos de pagamento e possibilidades de devolução de não vendidos”, opina Rene Pacheco, da Mundos Infinitos, em entrevista ao canal Fora do Plástico. “E quando seu estoque fica elevado, não tem pudor em fazer campanhas com descontos, vendendo os produtos ao consumidor a preços menores do que as livrarias conseguem comprar”.

Numa live do canal da Editora Veneta que abordou a mesma temática, o editor Rogério Campos afirma que precisamos ter uma política para livrarias (o que inclui aí lojas de gibis). Uma política de incentivo, de menos impostos. Mas Douglas Utescher, da Ugra Press, discorda: “Na verdade, nem é tanto isso, mas sim regulamentar a ação dos grandes varejistas. Se eles estiverem mais ‘controlados’, a gente segura aqui. Não adianta dar isenção, dar incentivo, dar um monte de coisa, se a Amazon continua podendo dar 50%, 60%, 70% de desconto, que é uma coisa que eu nunca vou poder chegar. Vamos ficar sempre dependentes de políticas que abafam mas não apagam o incêndio”.

No fim, Guilherme Lorandi, da Loja Monstra, deixa claro que existe uma diferença enorme também FORA da questão do preço. “Queria que os caras que cuidam de quadrinhos na Amazon viessem aqui trocar uma ideia com a gente. Porque de verdade acho que são uns engravatados que não manjam nada de quadrinhos”, diz ele, na live do UHQ. “São pessoas de planilhas, do mercado financeiro. Ninguém aqui gosta de dinheiro, a gente gosta da paixão [pelos quadrinhos] mesmo”.

É o mesmo olhar de Mitie Taketani, da Itiban Comic Shop (Curitiba, PR), também no papo com a Veneta. “A livraria é um lugar de acolhimento, de informação, de trocas, de descobertas. Se uma Ugra, uma Monstra, uma Itiban desaparecem, para onde vai o leitor? Onde vai estar a vitrine das editoras? Num algoritmo que diz ‘se você gostou disso, compre aquilo’?”. Para o professor Alexandre Linck, do canal Quadrinhos na Sarjeta, sem loja de HQs, acabou a diversidade de títulos, os empregos nacionais e, acreditem, os descontos da Amazon. “Faz tempo que ela não dá mais descontos tão bons quanto antigamente em relação a importados”, diz ele, numa thread sobre o assunto lá no Twitter. “Afinal, não há concorrentes. Imagina quando não tiverem também nos nacionais”.

Calma que tem outro lado aqui. Com a palavra, as editoras.

Impossível não concordar com o Douglas da Ugra quando ele diz, por exemplo, que “a Amazon é aquela empresa que não diferencia a migalha do pão. Ela quer comer as duas coisas igualmente”. Mas aí um outro trecho – mencionado por ele e outros pares – causou certo mal-estar entre as editoras… “O consumidor foi educado a pensar em livro, em quadrinhos, como algo em promoção. E se temos um produto que só se vende em promoção, o valor desta promoção já está embutido no preço do livro. A promoção inflaciona o preço do livro”.

Ferréz, sócio da Comix Zone ao lado de Thiago Ferreira, fez até um vídeo comentando o assunto, mas sem dar nomes aos bois, em tom de desafio. “Prova que isso acontece numa conta de editora, na qual às vezes não dá pra por 5% de um direito autoral”, provoca. “Se a gente coloca 2% ou 3%, já dá um problema gigantesco de preço, porque a margem de uma editora é muito pequena”. Ele afirma que, na Comix Zone, ele e meu xará já fizeram isso de colocar um livro a um valor que só se pagava, que não dava lucro nenhum. “Já fizemos esta conta pra baixo, deixa quieto este mês, deixa só empatar. Eu vou arcar com o prejuízo, porque não quero que a gente seja visto só como editora que cobra caro”.

O editor diz que, se você quer criticar uma empresa como a Amazon, multibilionária, tá no seu direito. “Acho legítimo, até porque você faz parte da cena e tá construindo o seu negócio. Agora jogar este BO pra cima da editora… É muita covardia”. Ferréz destaca ainda que outra fala problemática destas lives foi a afirmação de que a Amazon fica com uma margem de 65% de tudo que vende. “Isso é uma fala amadora e mentirosa. Ninguém ia sobreviver com este contrato”.

Mas, afinal, a tal da Amazon Dependência existe também pelo lado das editoras?

Falando com o Fora do Plástico, Bruno Zago diz que a Amazon representa 55% do faturamento da Pipoca & Nanquim, mas que inicialmente este percentual chegou a ser de 80%. “Existe uma dependência? Existe. Mas não é tão mais forte quanto era antes. Hoje temos números bastante relevantes em relação aos demais clientes que compram de nós”.

Sobre os hábitos de compra dos leitores, tem o seguinte…

A pesquisa “Panorama do Consumo de Livros”, realizada pela Nielsen BookData sob encomenda da Câmara Brasileira do Livro (CBL), mostra que aproximadamente 16% da população brasileira acima de 18 anos afirma ter comprado pelo menos um livro (incluindo aqui HQs) nos últimos 12 meses. Isso significa que o mercado editorial do país possui cerca de 25 milhões de consumidores – dos quais 74% afirmam ter a intenção de fazer novas compras de livros nos próximos três meses.

Segundo 60% das pessoas desse grupo, o hábito de leitura, por mais importante que seja, não é tão facilmente acessível. Para elas, preços, ausência de lojas e falta de tempo são os principais fatores que desmotivam ou impedem de efetuar a compra de livros. As regiões Norte e Nordeste são as que concentram o maior percentual de respondentes que indicaram a falta de livrarias como impedimento para adquirir livros.

Os principais canais utilizados para fazer a última compra de livros online, segundo os entrevistados, foram, OLHA SÓ, a Amazon (66,38%), o Mercado Livre (6,85%), a Shopee (4,40%) e a Livraria Saraiva (4,37%) – que teve sua falência decretada em outubro de 2023.

Se a gente tá falando de preço, segura que tem outra questão a caminho

Anota aí: projeto de lei 49/2015. Uma lei que cria a Política Nacional do Livro e Regulação de Preços e que foi batizada de Lei Cortez, em homenagem ao livreiro José Xavier Cortez. E o que ele (o projeto de lei e não o livreiro) tem a ver com a Amazon e com os gibis? Presta atenção aí, apressadinho. Já te explico.

Originalmente apresentado pela então senadora e hoje governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT-RN), o projeto acabou sendo “desarquivado” pela senadora Teresa Leitão (PT-PE). O texto foi atualizado com base em uma audiência pública realizada no ano passado, após aprovação pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), e deve ser apresentado nas próximas sessões da Comissão de Educação do Senado.

Ele tem impacto DIRETO no nosso papo aqui por conta do artigo 1°, que institui uma política nacional de “fixação do preço do livro em todos os seus formatos”, estabelecendo “fixação de preço de venda do livro ao consumidor final” e “fixando preço único para sua comercialização” por todos os meios. TODOS. Incluindo aí grandes varejistas como a Amazon.

Só que tem mais: lá pra frente, o artigo 6º da lei deixa claro que o desconto que pode ser dado pela editora à livraria (o que, NOVAMENTE, inclui aqui TAMBÉM a Amazon) ou ao consumidor final não poderá exceder 10% do preço fixado pela editora durante 12 meses após seu lançamento. Portanto, em tese, acabariam aqueles tradicionais 30% da pré-venda com os quais estamos acostumados…

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o presidente do Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros), Dante Cid, defende a iniciativa e explica que, pelos números registrados nos últimos anos pelo setor, “se a livraria online já representa mais da metade das vendas de livros no país, a realidade agravou o problema da concorrência, porque a pessoa vai, vê a vitrine, explora os livros, mas na hora de comprar vê que está muito mais barato online e compra assim, prejudicando as livrarias físicas e beneficiando quem não tem o custo que elas têm”.

Tem outro ponto aqui: o mercado não gira em torno de São Paulo…

Pois então, o preço final do produto é obviamente importante – e sim, vamos VOLTAR a falar sobre ele mais pra frente. Porém, tem outro “pequeno” detalhe que também tem impacto nesta conversa: o fato de que o Brasil é um país continental.

Como nosso amigo Ricardo Seelig bem reforça em seu vídeo para a Collectors Room, é preciso enxergar o Brasil sob uma ótica que vá para muito além de São Paulo. Ou, melhor ainda, para além das grandes capitais. Aquelas que têm a chance de ter lojas de quadrinhos ou, pelo menos, uma livraria com opções de gibis para quem tá buscando presencialmente…

Ah, mora longe e não consegue comprar gibi numa loja? Vai direto pro digital, então, diriam alguns, mais cínicos… “Nada supera a experiência de ter o material fisicamente em mãos, é uma experiência de compra única”, afirma Seelig.

“Quando começou a doer em São Paulo, rapidinho virou uma pauta do mercado ‘nacional’ de quadrinhos”, diz Igor Mêda, leitor de quadrinhos e twitteiro profissional. “Mas quando, aqui no Nordeste, era desesperador comprar gibi pela dificuldade em achar ou pelos fretes absurdos, ninguém falava”. Ele diz que em sua cidade (Maceió) não tem comic shop e ninguém faz vídeo falando a respeito. “Comprar gibi aqui é igual acabar encontrando ouro. Hoje eu quero um gibi? Vou na Amazon e compro. Simples”.

De acordo com Bruno Zago, da Pipoca & Nanquim, muita coisa se resolveria caso os Correios conseguissem criar uma modalidade de envio de livros, superior a 2kg, para que ficasse um preço acessível para todas as livrarias e comic shops. “A disparidade está exclusivamente no envio, no frete. A Amazon tem um frete muito barato, e isso nenhum outro livreiro consegue”.

Como a gente aumenta este mercado, então? Podemos começar formando novos leitores.

“O jovem não gosta de ler”, diz aquela máxima que hoje já ultrapassa gerações. O jovem do começo dos anos 2000 também, em tese, não gostava tanto de ler e magicamente se tornou viciado em Harry Potter, antes mesmo dos filmes existirem. “Ah, mas hoje a molecada é viciada em múltiplas telas”, sim, isso é verdade. E se quisermos formar uma nova geração de leitores, precisamos lidar com isso. O mundo mudou. A tradicional instituição da era dos trintões e quarentões, a banca, hoje é a nova locadora – tá lá pra qualquer coisa, MENOS para vender revista, jornal e, claro, gibi. Vende muito mais cigarro, carregador de celular e eventualmente um livro de autoajuda de bolso.

E sim, se você chegou até este momento do texto, saiba que estou dizendo com todas as letras: precisamos formar uma nova geração de leitores. E o quanto antes. Porque aquele papo de que os filmes da Marvel iam fazer os meninos e meninas correrem pros gibis pra tentar saber mais sobre aqueles personagens das telonas, adivinha, era pura balela. Não funcionou. Surgiu uma geração inteira de viciados no MCU e que sequer estão preocupados com o que acontece nos quadrinhos. O leitor médio de quadrinhos é o mesmo de uma década atrás. Ele segue envelhecendo. E isso significa que…

Claro que muita gente pode usar os mangás como potencial ponto fora da curva aqui nesta conversa. Muitos e muitos mangás. Que, tal qual acontece lá fora, são a salvação da lavoura quando o assunto é gibi (em tempo: mangá é história em quadrinhos. Ponto. E HQ no Brasil é gibi. Então, é isso, não me amolem) no Brasil. De acordo com Michael Gombos, diretor de publicações licenciadas da Dark Horse Comics, na editora americana o mangá representa 1% da produção… e 66% das vendas.

E ainda assim, no caso dos mangás, existe um outro porém, de acordo com um especialista ouvido pelo Gibizilla, mas que pediu para não se identificar. “Os poucos jovens que gostam de ler mangás o fazem porque sofrem de FOMO”, diz ele, se referindo à síndrome do fear of missing out, o medo de ficar pra traz no hype do momento. Segundo ele, a molecada PRECISA ler o próximo número de One Piece não porque está interessada na história, mas sim porque precisa dizer pros amigos que leu. “Eles não têm paciência de esperar a HQ chegar no ponto de venda e vão direto pro scan, lendo a versão pirata de qualquer jeito”.

De acordo com uma pesquisa do Centro de Pesquisas em Educação, Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), em parceria com a plataforma de leitura Árvore, 66,3% dos alunos brasileiros de 15 e 16 anos não leem textos com mais de 10 páginas. A análise mostra ainda que entre os estudantes que leem textos com mais de 100 páginas, 29% atingiram pelo menos o nível 4 de proficiência em leitura no Programme for International Student Assessment (Pisa), uma avaliação internacional aplicada a alunos entre 15 e 16 anos. Entre os alunos que responderam que o texto mais longo lido no ano letivo tinha uma página ou menos, apenas 5% atingiram o mesmo nível.

Ou seja: o problema vem de LONGE. É questão de educação.

“Precisamos botar livro na mão das pessoas. Bibliotecas. Gratuitas, abertas no fim de semana, bem abastecidas”, diz o tradutor e especialista em quadrinhos, Érico Assis, numa longa thread no Twitter. “Biblioteca com uma cacetada de livro infantil. Biblioteca com coleção inteira de Dragon Ball. Biblioteca com os lançamentos do ano e os clássicos. Biblioteca com todas as capas duras da Darkside. Biblioteca com contação de histórias, com visita de autor, com sessão de cinema e com wi-fi. Biblioteca com um funcionário que saiba responder pra uma criança de 8 anos ‘por onde eu começo?’. Biblioteca que seja o espaço pra criança descansar de telas, pra dona de casa fugir de casa, pra atendente da loja gastar meia hora do almoço”.

E, pelamor, conforme ele mesmo diz, não estamos falando de bibliotecas pra São Paulo, Curitiba e Recife. “Que comece por bibliotecas em cidades do interior, com IDH mais perto do zero. Colada na escola ou no centro do município. Cidades a 50, 100, 200km da livraria mais próxima. Depois se chega nas outras”. Ele afirma ainda que, formando leitores, vai ter demanda de livros. Com demanda de livros, vai ter demanda de papel, de gráfica, de distribuição, de livrarias. E de livros mais baratos.

Pois é. Não sei dizer se bibliotecas são de fato a real solução da história toda, embora pudessem ser uma parte importante da questão, num mix de investimento público e privado. Mas quando o Érico fala em “livros mais baratos” (e, portanto, em GIBIS mais baratos também), chegamos aqui no ponto FINAL desta cadeia de discussão.

Porque a formação de novos leitores passa TAMBÉM, vejam vocês, por preços mais baratos!!!!!!!

Muito gibi. Muita oferta. Muita editora. E pouco leitor. Este é o cenário que temos.

Hoje se desdobra um mercado imenso, inchado, repleto de editoras, lançando gibis em pequenas tiragens e para todos os gostos – além dos heróis, dominados praticamente pela Panini, temos Comix Zone, Nemo, Mino, Veneta, Pipoca & Nanquim, Figura… Temos argentinos, franceses, espanhóis, japoneses. Quadrinhos underground, experimentais, de arte. Tudo em formatos encadernados bonitões, com exuberantes lombadas. Agora, quem tá lendo tudo isso, a gente jura que não sabe. Porque o poder de compra reduzida está forçando um nicho cada vez mais fechado a fazer escolhas. Existe mercado de verdade pra TUDO isso?

Agora, juntemos a esta questão um bando de belos gibis encadernados custando lá por volta de seus R$ 100, quase 10% do atual salário-mínimo. Complicou a vida ainda mais.

Em sua thread, Érico Assis também aborda o tema, fazendo uma conexão simples e direta. “Sim, o Brasil tem leitores, mas poucos entre os 215 milhões [de habitantes]. E desses poucos, poucos conseguem COMPRAR livros. O problema do livro (e do quadrinho) é que livro (e quadrinho) vende MUITO POUCO”, explica ele. “Livro (e quadrinho) têm problema de distribuição? Tem, porque vende pouco. Se vendesse bem, chegaria fácil a qualquer parte do ‘país de dimensões continentais’ como Coca-Cola, Boticário, Elma Chips e seus equivalentes chegam. Falta demanda”.

Ele reforça que, sim, livro (e gibi) é um troço caro. Porque vende pouco. “O quadrinho capa dura a R$ 150 se paga com mil vendas. O mesmo quadrinho poderia custar R$ 50 em edição mais simples, mas precisaria ter dez mil vendas – e não consegue. Não tem demanda. Por isso, capa dura a R$ 150, para poucos”. Mas aí Érico entra no nosso ponto. “Livro caro não forma leitor. Aí você tem menos leitores e livros mais caros. Mais livros mais caros, menos leitores ainda. Sim, tem um círculo vicioso”.

Claro que, logo acima, discutimos a respeito do problema da formação de novos leitores, que isso passa por uma série de fatores – mas uma vez que, UAU, conseguimos um novo leitor interessado, digamos que um gibi de capa dura a R$ 150 tá longe de ser um bom ponto de partida.

Vamos dar um exemplo aqui: a Panini anunciou, com pompa e circunstância, a sua coleção DC de Bolso. Gibi pequenino, tamanho formatinho, um pouco menor do que a gente vê nas revistas Marvel Teens. Muita gente se empolgou, dizendo que ia ser uma porta de entrada perfeita pra novos leitores, tal e coisa, coisa e tal. Pois muito que bem. O primeiro lançamento é a saga “Reino do Amanhã” – e chega custando R$ 49,90. Era óbvio, portanto, que viria uma ENXURRADA de críticas: como diabos dá pra considerar um gibi que custa CINQUENTA REAIS algo como sendo de entrada?

“Gente, sério! Há quanto tempo falamos aqui de preços, de valores de gráfica, dólar, papel?”, disse Cassius Medauar, editor-chefe da Conrad Editora, no Twitter, rebatendo as chineladas da galera. “Esse novo formatinho da Panini saiu lá fora por 10 dólares. O dólar tá 5,18. Sabendo dos custos aqui no Brasil, eu diria que a Panini ainda segurou esse preço de 49,90”.

De fato. Mas aqui há um porém: não creio, mesmo, que a ideia da Panini com esta coleção “de bolso” tenha sido pensar em novos leitores. Não foi MESMO. Mas a própria Conrad, aliás, tem um exemplo de REAL gibi que poderia servir como porta de entrada – no caso, os títulos da série “HQ Para Todos”, que custam entre R$ 9,90 e R$ 14,90, trazendo nomes como Laerte e Max Andrade, por exemplo. Gibis curtinhos, sem muita frescura. Eu mesmo, aliás, cheguei a usar as HQs desta linha para presentear pessoas que NÃO são do rolê dos gibis. E foi só sucesso. O mesmo vale pra linha Contra Versão, da Draco, com belos contos de terror fechados em si e custando por volta de R$ 19,90.

Talvez pegar uma história curtinha do Deadpool, pra aproveitar o hype do terceiro filme, e lançar um one-shot de, sei lá, R$ 15,90?

Não estou aqui pra me candidatar ao cargo de gerente de marketing ou mesmo departamento financeiro de editora de gibi. Mas… vai que? 😉

Em resumo…

A Amazon fode o rolê das lojas de quadrinhos.
Não dá pras lojas chegarem nos preços da Amazon.
Mas por vezes ajuda algumas editoras a crescerem.
Embora as editoras não queiram foder o rolê das lojas de quadrinhos.
Pode ser que o preço ganhe novos contornos com uma nova lei.
Mas talvez esta lei não ajude a formar novos públicos leitores.
Pelo menos, não só esta lei.
Além disso, o mercado não gira em torno de São Paulo.
E não tem loja de quadrinhos em tudo que é lugar.
Neste sentido, uma Amazon supre o papel.
O papel, que aliás, tá caro pra cacete.
Mas o preço dos gibis ainda tá bem foda.
E isso TAMBÉM afasta novos leitores.
E aí…?
Muitas perguntas.
Precisamos buscar as respostas JUNTOS.






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