Hajime no Ippo vira cruzado no queixo do mercado BR
Mangá de Joji “George” Morikawa, considerado “impublicável” por aqui pelo tamanho da obra, é confirmado pela Editora MPEG em formato 2 em 1 e a um valor bastante acessível
Por THIAGO CARDIM
Um sonho impossível.Era assim que muita gente enxergava a mera hipótese da publicação de um mangá como Hajime no Ippo no mercado editorial brasileiro.Estamos falando de um título com vida bastante longa: a criação do mangaká Joji “George” Morikawa estreou em setembro de 1989 na renomada Weekly Shōnen Magazine da editora Kodansha e segue em publicação até hoje, chegando a impressionantes 144 volumes encadernados até o momento, com 1.500 capítulos rolando até o mês de julho e sem previsão de encerramento.
Resumidamente, tamos falando de um dos mangás mais longos da história.
Mas, na última semana, a Editora MPEG realizou um evento próprio, o MPEG Fest (ação presencial lá na Akiba Station, no bairro da Liberdade, em São Paulo), para anunciar algumas novidades que, segundo eles, iriam “parar o mercado de mangás”. E olha… o que parecia um daqueles típicos exageros superlativos do mundinho do marketing, se revelou a mais pura verdade. Porque a empresa anunciou, entre outros títulos, justamente a aguardada estreia em mangá de Hajime no Ippo por aqui, derrubando um dos últimos mitos não realizados do mercado editorial nacional.
Quer saber o melhor? A coleção chega em formato 2 em 1 (ou seja, reunindo dois volumes do original em um só por aqui), com sobrecapas, brindes especiais e design premium — além de um preço BEM competitivo, de R$ 42,90 por volume, com 400 páginas. E quer saber o que é AINDA melhor? Eles não apenas anunciaram o que seria um plano pra daqui, sei lá, um ano, com possibilidade de prorrogação (ou até cancelamento). Eles anunciaram com o primeiro volume JÁ À VENDA. Pois é, já dá pra comprar agora mesmo no site deles, vejam vocês. O.O

Apresentando Hajime no Ippo
Com mais de 100 milhões de cópias vendidas, consolidando-se como uma das mais duradouras e populares HQs do gênero esportivo, Hajime no Ippo (que significa “O Primeiro Passo”) acompanha a saga de Makunouchi Ippo, um adolescente tímido que trabalha ajudando sua mãe em uma loja de barcos e vive sendo alvo de bullying na escola. Tudo muda quando é salvo por um boxeador chamado Mamoru Takamura e inicia sua jornada no ringue buscando descobrir o que significa ser verdadeiramente forte.
O ponto é que Morikawa centra sua história não em um herói, mas na dualidade entre Ippo, o jovem e tímido iniciante, e Takamura, o gigante arrogante, cercando-os de uma dose considerável de personagens secundários e muito senso de humor, equilibrado com toda a emoção e superação que um gibi sobre esportistas poderia garantir.
Fora do Japão, Hajime no Ippo conquistou leitores fiéis e fãs do boxe, sobretudo através do anime produzido pelo estúdio Madhouse, com três temporadas disponíveis na Netflix (a original, New Challenger e Rising!). Aliás, a obra tem pelo menos um fã bem famoso: o ator americano Michael B. Jordan – que, inclusive, revelou abertamente ter se inspirado em cenas do mangá/anime para dar mais profundidade ao seu personagem em Creed III, a continuação da franquia cinematográfica de boxe iniciada em Rocky.
Morikawa abandonou o ensino médio para se tornar assistente de um desenhista profissional. “Fui até o meu professor e disse que tinha me tornado assistente de um mangá e que não voltaria mais às aulas”, revelou ele, em entrevista ao jornal francês Le Figaro, em 2020, na época para celebrar as três décadas de sua obra.Mas Hajime no Ippo ganhou forma graças a dois pilares – o primeiro deles, a paixão por boxe compartilhado com seu pai. “Quando criança, lembro-me de assistir a lutas de boxe na televisão, sentado no colo dele”.
O segundo, claro, foi a paixão pelo mangá Harris no Kaze, trabalho de Tetsuya Chiba – que, anos mais tarde, lançaria a série Ashita no Joe, também sobre boxe. “Eu me apaixonei por esse mangá e por esse autor. Foi isso que me motivou a fazer esse trabalho”.
No fim, o autor diz que Ippo e Takumura são os personagens que mais se parecem com ele, porque ambos têm um lado da sua personalidade. “E, na verdade, eles também são os que menos se parecem comigo, porque têm apenas um lado da minha personalidade e eu completei suas personalidades com sentimentos diferentes dos meus”.
Ele explica que, como o Ippo é apaixonado por boxe, ele também é apaixonado e trabalha bem duro nos seus mangás. “Tanto que, quando desenho meus mangás, você pode me imaginar concentrado, encolhido na minha mesa. Um pouco como o Ippo quando treina”. Mas, por outro lado, quando não está desenhando um mangá, Morikawa se descreve justamente como uma pessoa barulhenta e expansiva. “E costumo até incomodar pessoas tímidas que ficam em seus cantos. Sou um pouco como o yin e o yang”.
O autor – que, entre seus assistentes, já teve ninguém menos do que um jovem Kentaro Miura, de Berserk – se enxerga como parte de uma raça rara de mangaká. “Não defino meu enredo antecipadamente. Deixo os personagens guiarem a história. Sou o veículo através do qual Ippo e Takamura se expressam. Se eu revisitasse a história hoje, tenho certeza de que seria completamente diferente”.
Antes de começar Hajime no Ippo, ele chegou a fazer outros três mangás na Kodansha, todos rejeitados no meio do caminho devido à falta de popularidade. “E quando comecei Ippo, meu editor me disse que era minha quarta e última chance de sucesso. Nesse ponto, mergulhei novamente nos mangás de Tetsuya Chiba, me perguntando qual seria a receita para ser um bom mangaká”, confessa. “O que é força quando você é um mangaká? E acho que é daí que surgiu a pergunta de Ippo, ‘o que é ser forte?’. E você me pergunta se 30 anos depois eu encontrei a resposta? Infelizmente, não. É por isso que Ippo continua sua busca”.

Editora MPEG: quem está por trás do lançamento nacional
A empresa surgiu no fim de 2021 como uma voz nova e promissora no mercado editorial brasileiro, com proposta de diversificar gêneros e ampliar o acesso a títulos inéditos de mangás e light novels. Suas primeiras publicações chegaram em 2023, e seu catálogo vem crescendo com séries tanto em andamento quanto nostálgicas, como Beck, Chihayafuru e agora Hajime no Ippo, um mangá de relevância histórica e apelo amplo que chega ao catálogo brasileiro com condições técnicas e financeiras atrativas.
Pra conseguir chegar no valor de R$ 42,90 por volume, a ser mantido nas primeiras 15 edições (formando, portanto, a primeira temporada do mangá), a MPEG explicou que teve que fazer muita negociação, contando com o apoio inclusive de sua gráfica – e aplicou um modelo comercial no qual a HQ, pelo menos nas semanas iniciais, só pode ser adquirida em lojas parceiras (no caso, a própria Akiba Station e também a Anime Hunter) e no próprio site da editora, para depois chegar à lojas de quadrinhos como um todo.
Ou seja, NÃO, neste momento inicial, nada de Amazon, o que permitiu que eles se livrassem da porcentagem que a loja de Jeff Bezos aplica sobre o preço final dos produtos que comercializa por lá. “Queremos mostrar que ela [Amazon] não é o único meio se a gente quer ter um mercado sustentável”, afirmou a MPEG, em entrevista ao canal Fora do Plástico. “Escolhemos este projeto para mostrar isso e esperamos que as outras editoras também pensem nisso, pelo bem do mercado e para abaixar os preços”.
Mesmo assim, eles relatam que nem tudo é, claro, um mar de rosas.
“Acho que a principal dificuldade é o que toda editora do Brasil enfrenta: chegar na editora original japonesa e ter portas abertas com as mesmas. Apesar de hoje termos uma relação mais estreita com algumas, isso é um processo”, explica Diógenes Diogo, gerente editorial da MPEG, em entrevista ao UOL. “Além da falta de confiança por causa de problemas com outras empresas daqui, os japoneses ainda olham o Brasil como um mercado emergente e que precisa ter cuidado ao ceder seus títulos. Por isso é muito comum os grandes sucessos irem para empresas já consolidadas”.
O porta-voz diz que, sim, eles estão tentando mudar isso com um produto de qualidade e com uma relação de proximidade maior, mostrando as vantagens de estar ao lado da MPEG. “Além disso, queremos deixar claro para o Japão que não somos apenas uma empresa de negócios, mas um parceiro que ama o que está fazendo e que temos capacidade para tal, com uma equipe qualificada”.
Vale destacar também que, além de Hajime no Ippo, a MPEG também anunciou títulos como:
Chihayafuru, de Yuki Suetsugu
Rave, de Hiro Mashima
Hananoi-kun to Koi no Yamai, de Megumi Morino
Omori, de Omocat e Nui Konoito
Kokuhaku, de Kaji Kawaguchi e Nobuyuki Fukumoto
Yano-kun no Futsu no Hibi, de Yui Tamura
Betiger, de Hataoh (mangá nacional)
Miss Fortune, de Gustavo Andrade (mangá nacional)