Shintaro Kago: o próximo Junji Ito?
Considerado o mestre do ero guro, mangaká entra de vez no radar das editoras brasileiras de quadrinhos e pode se tornar a nova febre do terror nipônico por aqui
Por THIAGO CARDIM
Nos últimos anos, um nome se tornou presença frequente no mercado editorial brasileiro dedicado aos quadrinhos: Junji Ito.
O mestre do terror japonês, carinhosamente apelidado pelos leitores BR de Jorgito, ganhou as listas de lançamento de nomes como JBC, Darkside, Pipoca & Nanquim e Devir. Basicamente, o catálogo do homem foi escarafunchado de cima até embaixo, porque todo mundo queria um Junji Ito pra chamar de seu, fosse leitor ou editora.
A obra grotesca e perturbadora de Junji Ito virou queridinha do Brasil – mas digamos que o seu reinado passa a ser oficialmente ameaçado graças a um outro autor japonês chamado Shintaro Kago.
Se você não conhece o homem, mas curte quadrinhos japoneses com humor ácido, bizarrice estética e uma dose de horror tão estranha quanto fascinante, digamos que existe grande chance do sujeito cair nas suas graças…
Quem é Shintaro Kago?
Nascido em 1969, em Tóquio, Shintaro Kago estreou como mangaká em 1988 na revista COMIC BOX. Desde então, vem desenvolvendo uma obra só sua, seduzindo pela ousadia. Especialista no subgênero ero guro — uma fusão de erotismo, grotesco, escatologia e surrealismo —, Kago criou um estilo vívido, satírico e completamente original.
Alguns chamam sua arte de “paranoia chique” (fashionable paranoia) — rótulo que ele mesmo costuma minimizar, mas que traduz bem a violência estética que combina humor negro, composições absurdas e uma quebra constante da narrativa tradicional.
Fora isso, muito pouco se sabe sobre o autor, que não é lá muito fã de dar entrevistas e tampouco falar sobre sua vida pessoal – que ele deixa claro que é bastante simples, tranquila, quase bucólica, de um pai cuidando de crianças.
Aos 12 anos, Shintaro começou a visualizar o que se tornaria seu estilo característico: mas, embora sonhasse em trabalhar como diretor de cinema, suas ideias continuavam se manifestando em ilustrações. Ele se juntou ao clube de mangás da escola e notou que outro aluno da mesma série fazia quadrinhos que pareciam “saudáveis”. Shintaro não gostou e decidiu ir na direção oposta, permitindo que seu humor negro jorrasse livremente. “Eu sempre me pegava rindo de coisas que eram tabu para rir”, disse ele, em rara entrevista para a revista Huck.
Shintaro não frequentou uma escola de arte. Ele acredita que é possível desenvolver um estilo próprio e distinto – e não demorou muito para que essa atitude desse resultado. Em uma sociedade conhecida por seus valores sociais conservadores, no entanto, esse não foi um caminho fácil.
“Trinta anos atrás, alguns artistas se inspiraram em mangás de terror e causaram escândalos com seus trabalhos”, diz ele. “Houve um período em que desenhar mangás de terror se tornou muito difícil… Me disseram para fazer um favor a mim mesmo e parar de desenhar esse tipo de arte”.
Obviamente que o artista cagou e andou para esta recomendação, hahahaha

A essa altura, aliás, Shintaro já está mais do que acostumado a reações negativas. Ele sabe que imagens de cérebros dissecados e membros impossivelmente renderizados não são para todos. Quando as pessoas respondem com desgosto, ele quase trata isso como um elogio… porque no fim do dia, incomodar é o objetivo. “Esse tipo de insulto não é, na verdade, insulto algum”.
Quando você tem liberdade para expressar o que quiser, ele explica, isso pode se tornar um obstáculo; ao passo que, quando limites são impostos, de alguma forma sua gama de potencialidades criativas se torna mais rica, porque você luta pra transgredir. Choque e indignação, acrescenta Shintaro, só provam que ele está no caminho certo. “Você deve desenhar coisas que outras pessoas normalmente não fazem, na medida do possível”.
Trajetória e características marcantes
Kago é aquele tipo de autor que nunca recuou da experimentação: suas páginas inusitadas e a quebra da quarta parede são algumas de suas marcas registradas. Ele mistura influências para lá de ecléticas — de Shigeru Mizuki a Katsuhiro Otomo e Fujiko Fujio — com trilha erudita e humor Monty Pythoniano (sim, o grupo de humor inglês é uma de suas grandes paixões declaradas).
Suas histórias transitam entre o sci-fi satírico e coletâneas de horror psicológico, sempre embaladas com grotesco e dissecções narrativas. É preciso, inclusive, destacar não apenas a sua irreverência, mas como ele usa o grotesco como uma ferramenta estética para comunicar absurdos, críticas sociais e uma lógica própria, quase enlouquecedora. Originalmente, explica Shintaro, sua arte era voltada para o público japonês e ele não a considerava adequada “para estrangeiros”. No entanto, a internet expandiu seu público de maneiras que ele jamais imaginou, com a demanda crescendo em países como Itália, França, Espanha e Grécia.
A notoriedade fora do Japão começou ganhar mais corpo em 2008, quando um de seus desenhos foi parar na capa da revista estadunidense Vice, nos Estados Unidos, em 2008. Já em 2013, foi um dos grandes convidados da 19ª Feira de Mangá de Barcelona e, no ano seguinte, ilustrou a capa de “You’re Dead!”, disco do rapper, DJ e produtor norte-americano Flying Lotus (Steven Ellison).
O magaká diz, num papo com a revista Retrofuturista, que sabe que muitas pessoas acreditam que conteúdo grotesco ou violento pode influenciar os espectadores e levar a incidentes reais (por exemplo, assassinatos, etc.). “Por esse motivo, a expressão em quadrinhos às vezes é restringida. Isso também aconteceu com meus projetos de mangá, alguns dos quais foram interrompidos”. Em comparação com décadas atrás, no entanto, ele acredita que os tabus e preconceitos que antes eram comuns parecem estar desaparecendo. Maaaaaas… “É claro que existem tabus e preconceitos que não desaparecem facilmente. E mesmo que os antigos desapareçam, novos tabus e preconceitos eventualmente surgirão”.
Shintaro confessa que não se considera um artista de sucesso, insistindo que ainda tem um longo caminho a percorrer. Eventualmente, ele espera se aventurar muito mais em novas fronteiras, como cinema e escultura, mas, por enquanto, se contenta em continuar surpreendendo as pessoas. “O melhor comentário que alguém pode me fazer é se visse uma imagem minha, achasse uma ideia incrível e se perguntasse por que alguém desenharia uma coisa dessas”, diz ele, animado. “Isso me deixaria feliz”.

Vamos falar sobre Kago, então…
Veja, estamos no Brasil. Portanto, tiremos o elefante branco da sala – da mesma forma que o sobrenome do baixista do grupo Stratovarius, Lauri Porra, claramente leva a uma série de piadocas bastante quinta série, é inevitável que o Kago de Shintaro faça você rapidamente pensar em variações bastante engraçadinhas. Então, eu vou te ajudar neste contexto – porque se tem um tema que também costuma aparecer bastante nas obras do autor, veja só, é a boa e velha escatologia.
“Scat é apenas algo que uso como base para minhas histórias”, explica ele, numa entrevista pra revista Vice. “Escolhi o tema porque, na época em que comecei a desenhar, ninguém mais era famoso por abordar isso no mundo dos mangás. Além disso, costumo me ater ao formato da revista para a qual desenho, e naquela época a maioria das revistas que publicavam meus trabalhos eram bem peculiares. A temática de merda surgiu quando comecei a desenhar uma série para uma revista de mangá especializada em scat”.
Pois vejam vocês, hahahahaha
“É bem difícil, pra ser sincero, inventar histórias sobre merda o tempo todo, sabe?”, confessa ele. “Quer dizer, principalmente fazer com que seja erótico ao mesmo tempo”, explica, reforçando que, no entanto, não tem um interesse particular sobre o assunto, em sua vida pessoal e sexual.
“Basicamente, é uma questão de quantas variações de histórias eu consigo inventar que envolvam merda e sexo. É tão difícil. Na verdade, eu queria desistir depois das duas ou três primeiras que desenhei”, brinca. “Merda e sexo são apenas os pontos de partida, e a menos que você consiga riscá-los, não consegue nem começar a pensar em uma narrativa. E eu tento apresentar garotas jovens e simpáticas como personagens principais. É mais ou menos isso”.
Shintaro no Brasil
Com o anúncio da coletânea de histórias curtas “Dano Cerebral”, da Comix Zone, já em pré-venda na Amazon, e igualmente da série distópica “Parasitic City” via Conrad (dentro da iniciativa HQ Para Todos, a preços BEM acessíveis), Shintaro Kago chega a sete títulos lançados aqui no Brasil – sendo oficialmente editado por seis empresas diferentes e ultrapassando a marca de Junji Ito.
A saber, temos por aqui também:
Dementia 21 – Dois Volumes (Todavia): história sobre os percalços de uma dedicada cuidadora de idosos, a jovem Yukie Sakai ― que envolvem alienígenas, monstros, idosos psicóticos e dentaduras possuídas pelo demônio.
Pedacinhos (Darkside Books): uma série de assassinatos assusta os moradores da região do distrito de Setagaya, em Tokyo, onde são encontradas mulheres com os corpos divididos ao meio. O autor dos crimes, ainda não identificado, é apelidado de Maníaco Fatiador.
Anamorfose (Darkside Books): tudo começa quando uma equipe de TV decide pregar uma peça em um jovem artista adormecido, tentando fazer de tudo para convencê-lo de que ele se transformara em um monstro gigante, em uma típica cena das séries japonesas de super-heróis. Contudo, o que era para ser uma brincadeira sai do controle e resulta em uma tragédia chocante.
A Grande Invasão Mongol (NewPOP): este é um mundo alternativo onde existem “gigantes” que são utilizados como ferramentas pela humanidade. Tudo começou com as invasões mongóis e sua existência se tornou decisiva nos grandes momentos históricos…
A Princesa do Castelo Sem Fim (Pipoca & Nanquim): há quase quinhentos anos, o grande senhor de terras Oda Nobunaga , um dos maiores responsáveis pela unificação territorial do Japão, foi emboscado e morto em uma rebelião liderada por um de seus principais vassalos, o general Akechi Mitsuhide . Mas e se não tivesse acontecido assim? E se o golpe de Mitsuhide tivesse na verdade aberto uma fenda no espaço-tempo, permitindo a materialização de todas as possibilidades, desde as mais simples até as mais absurdas?
Por que ele pode ser o novo Junji Ito no Brasil, portanto?
_Subgênero sobrenatural e visceral: assim como Ito, Kago entrega horror psicológico com doses intensas de grotesco, mas com humor ainda mais ácido.
_Estilo visual e narrativo distinto: a quebra de padrões narrativos, layouts perturbadores e sátira escatológica o tornam um ícone moderno.
_Conteúdo de nicho que vira referência: fãs de quadrinhos mais alternativos tendem a adorar esse excesso estilístico, e então o boca a boca começa a funcionar.