Diretamente de Rozan, chega a Cólera do Dragão brazuca
Conversamos com Nando Rodrigues, diretor do fanfilme “O Dragão de Rozan”, que tenta explorar os personagens de Cavaleiros do Zodíaco de um jeito diferente
Por THIAGO CARDIM
O ano era 2003. As redes sociais não existiam, o YouTube não era nem de longe o que é hoje. Mas eu não só já trabalhava com internet profissionalmente havia muito tempo como, inclusive, já tinha meu próprio site de cultura pop, o finado A ARCA. Que, inclusive, fez chegar em mim um curta que tava sendo compartilhado furiosamente por e-mail e via softwares P2P (Kazaa, Limewire e por aí vai), produzido por um tal Sandy Corolla.
Apesar de ser um profissional trabalhando nos bastidores hollywoodianos, Corolla era antes de tudo um fã. E do tipo incansável o suficiente para produzir e dirigir um curta por conta própria, um fanfilme, uma homenagem de coração ao seu herói favorito que seria exibida na Comic-Con de San Diego daquele ano. Estamos falando do hoje cultuado Batman: Dead End, no qual o Morcegão sai à caça do Coringa e acaba se deparando com Alien e Predador no meio do caminho.
De lá pra cá, obviamente, a tecnologia só evoluiu e, com ela, a cultura dos filmes de fãs e sua pegada DIY (do it yourself – ou o bom e velho “faça você mesmo” do movimento punk) nunca parou de crescer, ainda mais com a existência de plataformas que permitem disseminar estas iniciativas de maneira massiva. Recentemente, aqui mesmo no Brasil, saiu o trailer de uma obra live-action nesta mesma pegada e que deixou em polvorosa os fãs d’Os Cavaleiros do Zodíaco – a produção se chama O Dragão de Rozan e, como você bem poderia esperar, o protagonista é ninguém menos do que Shiryu, o cavaleiro de bronze de Dragão.
Rozan é aqui, minha gente
O responsável por “O Dragão de Rozan” é uma espécie de Sandy Corolla dos trópicos – no caso, Nando Rodrigues, cineasta e publicitário brasileiro natural de Mogi das Cruzes/SP, especializado em cinema independente e narrativas que conectam nostalgia, cultura pop e inovação audiovisual.
Antes de se dedicar à uma história estrelada pelo pupilo do Mestre Ancião, Nando já tinha feito – por meio de sua produtora Raciocinando Filmes – um outro curta de CDZ, “A Lenda de Fênix” (2018), e também o longa “Doug na Vida Adulta” (2021), uma releitura live-action do clássico Doug Funnie; além de “Clowns” (2019), obra de terror vencedora de Melhor Curta-Metragem no Nepal Film Festival 2021.

Aproveitando justamente o gancho da celebração dos 30 anos da chegada dos Cavaleiros do Zodíaco ao Brasil, o cineasta resolveu retornar ao universo de Saint Seiya. “Eu sempre quis explorar os personagens de Cavaleiros do Zodíaco de um jeito diferente, aproveitando os ganchos que o próprio anime deixa”, disse ele, em entrevista exclusiva pro Gibizilla. “O Shiryu sempre foi meu favorito, tanto pela sabedoria quanto pela ligação com o Mestre Ancião. Então pensei: e se a gente contasse uma história inédita sobre esse legado do Dohko de Libra fazendo essa passagem de bastão para o seu discípulo? Foi daí que veio O Dragão de Rozan”.
Cronologicamente, a narrativa se passa em um ponto após o término da saga clássica do anime, com inspiração em várias obras, como “Saga de Asgard”, “Lost Canvas”, “Ômega” e “Next Dimension”. Ele explica que gosta de brincar com esses “vazios” deixados pela série. “A gente não está reescrevendo nada, mas criando possibilidades paralelas que fazem sentido dentro da linha do tempo e respeitando as obras clássicas. É quase como se fosse uma história ‘perdida’ do Shiryu, logo após o término da Saga de Hades, dando continuidade ao legado que a série deixou”.
De animação pro live-action, mas sem perder a identidade
Claro que, em se falando de um projeto de fã, 100% independente, todos os envolvidos já sabiam que iam encontrar dificuldades em transpor uma animação como Cavaleiros do Zodíaco para o live-action. “Primeiro porque CDZ é um anime muito estilizado, cheio de efeitos cósmicos, golpes absurdos e armaduras detalhadas. Trazer isso pro live-action sem parecer ‘fantasia barata’ é um baita desafio”, explica ele.
A Armadura de Ouro de Libra, por exemplo, levou mais de um ano pra ser feita, com direito a peças lixadas à mão – e até o próprio diretor colocou a mão na massa pra ajudar no trabalho braçal. “Fora isso, a luta em anime é bem diferente da luta no cinema. Pra resolver, trouxemos profissionais de coreografia de ação e preparação física [da Action Kung Fu] pra que o resultado fosse convincente”.
Além disso, quem assiste ao trailer vai sacar de imediato um presente para os fãs: as vozes. Com direção de dublagem assinada por Bruno Sangregório, temos o retorno de Élcio Sodré ao papel que marcou sua carreira e a infância de milhares de fãs, ao lado de Luciana Baroli, dubladora clássica da doce e determinada Shunrei. O elenco de vozes traz também Renato Marcio Bonfim na voz do Mestre Ancião e Sergio Moreno como Dohko de Libra – ele foi a segunda voz do personagem nas sagas de “Hades: Inferno” e “Elísios”. Já o Bruno, além de dirigir a dublagem, também aparece como a voz de Alberich 13º, guerreiro ancestral que traz em sua linhagem o personagem inédito Erik, vilão criado para a trama do filme e dublado por Celso Henrique.
E quais são os próximos passos?
Parte do material já foi mostrado não apenas para dubladores clássicos, mas também para influenciadores ligados a CDZ – e Nando diz que a recepção foi muito positiva, principalmente porque eles conseguiram respeitar a essência da obra original, mantendo a trilha, a atmosfera e a pegada dramática que os fãs gostam. “A galera sai emocionada das sessões, e isso já é um feedback incrível pra gente”.
Isso significaria que podemos esperar novas produções ambientadas no universo criado por Masami Kurumada? “Olha, sempre existe uma gaveta cheia de ideias”, brinca ele. “Mas a verdade é que dá muito trabalho tirar cada filme desses do papel. Então tudo depende da repercussão de O Dragão de Rozan. Se o público abraçar e a gente tiver apoio, eu adoraria expandir esse universo e contar outras histórias inéditas dos bronzeboys”.
De qualquer maneira, já foram realizadas algumas exibições presenciais do filme em São Paulo e até mesmo uma première internacional em Buenos Aires, na Argentina. Na próxima etapa, o curta será disponibilizado no YouTube, no canal da Raciocinando Filmes, para que todo fã possa assistir de onde estiver, ainda no mês de setembro. “E através do nosso Instagram @odragaoderozan, nós publicamos muitos bastidores de produção do filme, além das novidades e próximos passos do projeto”.
Enquanto isso, faça o favor de assistir ao trailer – obviamente gritando com a gente: CÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓLERA DO DRAGÃO!
*Projeto financiado pela prefeitura de Mogi das Cruzes por meio da lei n° 6.959/14 (Lei de Incentivo à Cultura) – projeto aprovado n° 726/2022 com apoio da empresa JCL Cabos de Aço, Cordoalhas e Acessórios.