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Sobre Black Pantera, Seu Jorge e os negros no rock

Depois da apresentação do trio mineiro no The Town, irmão paulistano do Rock in Rio, tive o desprazer de ler umas bobagens tremendas a respeito da presença dos negros no rock (e não apenas no metal). Pois então…

Por THIAGO CARDIM

Enfileirando mais um festival à sua extensa lista de participações nos últimos anos, a trinca Charles Gama (guitarra, vocal), Chaene da Gama (baixo) e Rodrigo “Pancho” Augusto (bateria), os uberabenses conhecidos como Black Pantera, estiveram em destaque neste final de semana num dos palcos paralelos da edição 2025 do The Town. Tem sido muito legal acompanhar a escalada de sucesso dos caras, que infundem a sua sonoridade hardcore/thrash com um forte discurso antirracista, marcando presença em festivais como o próprio irmão carioca do The Town, o Rock in Rio, e ainda Lollapalooza, Primavera Sound, Knotfest, Matanza Fest, Porão do Rock, Bangers Open Air, Goiânia Noise e até mesmo o Hellfest, uma das mecas do metal no verão europeu, lá na França.

Isso, obviamente, além de serem nominalmente citados nas nossas listas de melhores lançamentos de 2022, 2023 e 2024, pensa só? 😉

Mas obviamente que, com o sucesso, vêm também as críticas. E, bom, pra uma banda formada por três homens pretos, digamos que o peso destas críticas costuma ser BEM MAIS intenso, né? No final da semana passada, eu caí na bobagem de, depois de ler um ótimo texto a respeito da apresentação deles no The Town, ir ler os comentários não apenas no site, mas nas redes sociais do tal site. Eu sei, eu errei. Errei feio. Mas a curiosidade foi maior do que eu. Tá bom, tinha gente ali dizendo que não gostava do som dos caras e, OK, isso é justo, muito justo, justíssimo. Gosto é gosto. Mesmo entre punks e metaleiros, pode ter quem não curta porque, claro, pode gostar de algo mais pesado, pode não ir com a cara de quem faz este tipo de crossover entre os dois estilos… Tá tudo bem. Liberado.

Só que o que me pegou, obviamente, foram OUTROS tipos de comentários. “Ah, lá vem a tropa do mimimi de novo”, dizia um. “Não tenho paciência pra estes caras que enxergam racismo em tudo”, vociferava outro. “Porra, pra esses três aí tudo é racismo. Pra mim, isso é racismo contra branco”. Não, não tô inventando nada disso e, em 2025, creio que seja ÓBVIO que vocês sabem que eu não tô. Porque isso é o retrato nítido da imensa porta de esgoto que se abriu depois que fomos apresentados ao inelegível e recém condenado ex-presidente deste nosso complicado país verde e amarelo. Os racistas já estavam por aí mas batiam no peito e tinham orgulhoso de assumir arrombados, até que pintou uma corja que os validou.

“Preto não gosta de rock, o lance deles é funk, kkkkkk”, escreveu um lixo humano. JURO.

Esta gente, como diz o próprio Black Pantera, eu só quero deixar queimar.

Outro argumento, no entanto, e ele que me levou a este texto, foi uma turma dizendo “esse papo de que não tem preto no rock é mentira, sempre teve, eu sei falar um monte de bandas com gente preta, isso é vitimismo” ou então “o rock não precisa de uns pretos dizendo que vão reconquistar a cena porque rock não é só de branco, é super democrático, sempre teve pra todo mundo” e por aí vai. E ao ler mais de uma pessoa levantando esta lebre, eu me lembrei de um texto que escrevi pro JUDÃO.com.br uns bons 10 anos atrás, em 2015, um ano depois do surgimento do Black Pantera, vejam vocês.

E justamente a partir de uma fala do Seu Jorge que foi absolutamente virada do avesso e tirada do contexto real. Achei que era hora de retomar esta conversa.

Com a palavra, eu mesmo. Só que 10 anos mais novo.



Quem vive dessa ingrata profissão de escrever tendo a internet como plataforma, com certeza tem este dilema como discussão central de todos os seus dias de trabalho: caralho, como fazer as pessoas lerem o meu texto até o final ANTES de começarem a cagar regra nos comentários e nas redes sociais? Não concorda? Tá mais do que no seu direito. Mas decidir que não concorda com um texto tendo lido apenas o diacho da manchete, o título, a chamada principal, aí meu camarada, não dá pra aceitar.

O exemplo da semana foi a entrevista que o cantor/ator Seu Jorge concedei pro Noisey, site de música do portal Vice. Tá bom, o título da dita cuja não foi dos mais convidativos para a reflexão: “O rock não é um gênero para o negro”. Em tempos de “volta, intervenção militar”, essa frase é praticamente um convite ao conflito, aos textões no Facebook, ao “xingar muito no Twitter”. Errou feio, Vice. Errou rude.

Mas custava, minha gente, ler a entrevista e descobrir EM QUE CONTEXTO o Seu Jorge disse isso? Porque tudo nesta vida é questão de ponto de vista. E o que anda faltando às pessoas é disposição para tentar se colocar em qualquer ponto de vista que não seja o do próprio umbigo.

O papo começa girando sobre os trabalhos de Seu Jorge no cinema. O repórter então engata perguntando sobre como é trabalhar com o diretor Wes Anderson, relembrando a performance de Jorge como Pelé dos Santos em A Vida Marinha de Steve Zissou. Aí, já que no filme o sujeito encarnou o lado cantor e interpretou canções de David Bowie, a conversa vai indo pelo lado do rock. “Não sabia nada”, confessa ele, sobre sua relação com a obra de Bowie. E aí vem “Sou do subúrbio. O rock não chegou. O rock não é um gênero pro negro, apesar de Jimi Hendrix”.

Você entendeu o que ele quis dizer? Antes que diga “sim”, eu te digo “não”. Porque eu fiz propositalmente um resumo SEM mostrar que as perguntas anteriores, a respeito de cinema, falavam sobre o subúrbio, sobre a favela, sobre seu laboratório para viver o icônico Mané Galinha em Cidade de Deus, sobre como ele conheceu aquela história ainda criança. Percebeu como pensamento se encadeia? O que Seu Jorge quis dizer aqui foi que o rock não o atingiu enquanto ele formava o seu gosto musical, ainda na favela. O “rock não chegou” na favela entre os anos 1970 e 1980. Foi isso que ele disse. E não “ah, os negros não fazem rock”.

Sim, sim, eu passei o último final de semana vendo posts revoltados de amigos, e amigos de amigos, dizendo que Seu Jorge estava equivocado, que o rock surgiu do blues – e os principais nomes do blues eram negros como B.B.King, Jonh Lee Hooker, Muddy Waters, todos mandando abraços. Dizendo que roqueiros das antigas como Fats Domino, Chuck Berry e Little Richard são negros. Lembrando Hendrix, lembrando Phil Lynott (Thin Lizzy). Isso tudo eu sei bem. Obrigado, mas não preciso de aula de música. E, insisto, não foi isso que ele quis dizer naquele momento.

Esta parte está entendida? Que bom. Porque não vou encerrar o assunto por aqui. Porque foi ótimo que o papo com Seu Jorge tenha levantado esta discussão – ainda que vocês tenham discutido a discussão errada.

Eu bem que poderia entrar aqui no mérito de que, sim, ele está certíssimo, o rock está longe de ser o gênero musical que mais tem penetração nas periferias das grandes cidades. Se outrora o punk pode ter sido a voz das ruas em metrópoles como São Paulo, hoje o rap e o funk falam uma linguagem que conversa muito mais com a realidade desta galera – que o Seu Jorge chama de “negros” porque, vamos ser honestos, os negros infelizmente ainda são a etnia mais presente entre as classes mais pobres deste país (e de muitos outros). Existem, sim, locais como Recife, onde uma cena rock fortíssima se desenvolveu nas áreas mais desfavorecidas, mas devidamente misturada e reinterpretada com um ritmo local, o poderoso maracatu. Mas em outra matéria, prometo, a gente entra neste assunto… que, aliás, daria um verdadeiro tratado social.

A bola que quero levantar aqui é justamente a que vocês levantaram, a interpretação que vocês mesmos deram pra frase do Seu Jorge. “Como assim, é claro que teve UM MONTE de negros fazendo rock”, e aí vocês saíram desfilando alguns nomes. Mas apenas alguns. Porque vocês são obrigados a admitir que a lista está longe de ser extensa. Você tem que ficar pensando em exemplos, tentando puxar pela memória. Mas aí eu vou deixar a coisa um pouco mais complicada… E hoje? Pense numa galera que faz rock nos dias de hoje. Negros. Posso até ser bonzinho e deixar você considerar veteranos ainda em atividade como o Living Colour e o Bad Brains, vá. Mas diga mais. A Nação Zumbi tem negros, Planet Hemp, O Rappa, Cidade Negra, os Devotos (antigos Devotos do Ódio). Clemente, dos Inocentes. O Derrick Green, vocalista do Sepultura. William DuVall, atual frontman do Alice in Chains. Katon W. De Pena, cantor do Hirax. Marcelo Barbosa, guitarrista do Angra. Lajon Whiterspoon, do Sevendust. Kele Okereke, do Bloc Party. Lenny Kravitz. Tom Morello, do Rage Against The Machine. Body Count.

Você pode achar que são muitos. Mas não se engane, porque são exemplos raros, raríssimos. Sabe por quê? Puxe pela memória o nome de bandas de rock das quais você gosta. Sem pensar. Virão dezenas, centenas, dependendo do quão fanático você for pelo estilo, até milhares. Eu consigo encher barras e mais barras de rolagem pra vocês ficarem lendo a noite inteira. E quantas delas têm negros na formação? Pode ser um só, nem precisa ser todo mundo negro na banda. Pois é. Entendeu a questão ou quer que eu desenhe?

Matemática simples: quando a marca de guitarras Gibson criou, em seu site, uma polêmica lista das 50 maiores bandas do rock nos EUA, sabe quantos grupos com integrantes negros foram selecionados? Eu te digo: dois. Exatamente duas bandas dentre cinquenta. Aí o site Metal Sucks faz a sua lista de 25 maiores bandas de heavy metal de todos os tempos e, ka-boom!, apenas UMA banda com negros na formação (considerando, é claro, o Sepultura em seu atual line-up, com o Derrick). A Rolling Stone vai e compila uma lista de 100 melhores guitarristas de todos os tempos e, vejam só, apenas 17 são negros. Mas aqui tem uma pegadinha: destes músicos negros, mais da metade são clássicos representantes do blues e não do rock – e em sua maior parte ou mortos ou passando dos 70 anos de idade. Querem que eu continue? Procurem suas listas favoritas com foco especificamente em rock e vão perceber que existe um padrão.

Parece que Seu Jorge tem razão até com a interpretação que vocês deram para “o rock não é um gênero para o negro”. Não porque os negros não queiram fazer rock. Não porque os negros nunca tenham feito rock. Não porque os negros estejam proibidos de fazer rock. Mas porque o rock não se tornou parte de sua realidade. E aqui não estou fazendo um julgamento de valor, dizendo que o rock é preconceituoso (embora, em alguns casos, alguns roqueiros e seus fãs sejam – E BASTANTE). Mas o fato é que o rock nasceu da música negra. Cativava os jovens brancos mas também conversava com a alma do jovem negro. Mas os anos passaram. E embora muitos roqueiros brancos se influenciassem diretamente da música negra, buscando incorporar elementos do soul, do jazz e do blues em suas sonoridades, o jovem negro passou a buscar algo diferente. Aquele tal de rock ‘n roll já não era mais com ele.

E foi aí que, alguns anos a frente, o hip hop encontrou o seu espaço. Tanto lá quanto cá. Criando uma conexão direta com a realidade do moleque meio sem esperanças da periferia, que ouviu alguém cantar de maneira direta, reta, brutal e agressiva sem precisar de uma guitarra berrando alto.

Como se resolve este abismo? Como fazer para encurtar estas distâncias? Saindo da zona de conforto. Em termos sonoros. No que diz respeito às letras. E no quesito “em que palcos eu aceito subir para tocar”. Sabe quando o Anthrax largou de frescura e sentou com o Public Enemy pra fazer música? Lembra quando o Aerosmith foi lá e abraçou os malucos do Run-DMC e, juntos, fizeram a versão definitiva de uma canção de Steven Tyler e sua gangue? Impossível dizer que mudaria, a curto prazo, uma situação que se tornou cultural. Mas já seria uma fagulha, um primeiro passo. Faz um festival de rock no meio da favela, meu chapa.

Arrisco até dizer, sem qualquer rigor científico, que é mais fácil lembrar de bandas de rock com mulheres na formação do que uma banda e/ou artista negro do rock. Agora, se o desafio for citar bandas de rock com mulheres negras na formação… Ouch. Putz, meu, aí fodeu.

E vocês aí, enchendo o saco sobre o que Seu Jorge disse – quando faria mais sentido discutir coisas mais importantes, mais relevantes, mais visíveis, mais na sua cara, ao invés de mostrar como você manja de rock ao listar meia dúzia de nomes óbvios.

Ah, a internet…



Novamente em tempo, o Cardim de 2025 retorna aqui pra dizer que, uma década depois, sobre bandas de rock com mulheres negras na formação, fico feliz de PELO MENOS conseguir citar de bate pronto o Punho de Mahin – que já esteve, aliás, no nosso talk show musical.

É uma pena constatar que, no entanto, o restante do cenário mudou um pouco… Mudou, sim. Mas pena que foi bem pouco. E ainda precisa mudar MUITO MAIS. Porque, afinal, aqueles comentários que mencionei no começo do texto não são de 2015. São de 2025 mesmo.

Ficou claro porque, no fim, é fundamental que o Black Pantera permaneça dizendo, em “Provérbios”, que “pra bom entendedor, meia palavra basta”?

“Os de verdade eu sei quem são
Os de verdade entende a raça”