Mustaine joga no seguro no canto do cisne do Megadeth
Com destaque pro guitarrista finlandês Teemu Mäntysaari, o disco autointitulado que promete ser o último da carreira da banda soa… exatamente como se imagina que deveria soar. Aí você decide se esta é uma boa ou má notícia ¯\_(ツ)_/¯
Por THIAGO CARDIM
Por volta de 2007, quando os alemães do Scorpions caminhavam pro que prometia ser a sua aposentadoria (spoiler: não aconteceu), eles lançaram um álbum que prometia ser o último de sua carreira (spoiler: não foi). O resultado, no entanto, acabou sendo de fato surpreendente: no conceitual Humanity: Hour I, o grupo experimentou uma sonoridade mais soturna e sombria pra falar sobre o fim apocalíptico da humanidade em meio a uma guerra civil entre humanos e robôs. Muitos fãs estranharam e inclusive se disseram decepcionados com justamente AQUELE disco sendo o registro que marcava o fim das atividades do grupo. Algo tão ousado e fora da curva.
Não foi o meu caso – porque confesso que AMEI ver os caras ainda soando Scorpions mas com pitadas eletrônicas, alguns riffs quase thrash, delicados flertes com o nu metal. Talvez seja um dos meus favoritos dos escorpiões germânicos, aliás.
Mas no fim, três anos depois, eles MEIO que esqueceriam completamente este disco e lançariam Sting in the Tail, um registro que é Scorpions até o talo, quase como uma continuação direta de Unbreakable, de 2004, seguindo a cartilha do que os fãs das antigas mais queriam. Sabe o que aconteceu com a terceira trilogia de Star Wars, que meio que fingiu que Os Últimos Jedi (2017) simplesmente não existiu, conectando O Despertar da Força (2015) e A Ascensão Skywalker (2019)? Bem isso.
Corta pra 2026. E eis que o Megadeth lança um novo álbum, autointitulado apenas Megadeth, prometido para ser o último disco de inéditas de sua discografia – já que a banda de Dave Mustaine acaba de entrar numa turnê de despedida. Veja, não vou levar aqui em consideração o fato de que sabemos bem o quanto bandas de rock, como um todo, flertam com esta coisa de “vamos nos aposentar” para, em coisa de dois anos depois, meter o clássico “nos arrependemos e estamos voltando atrás”. Vamos cravar aqui que o Megadeth vai mesmo encerrar as atividades. O que eles nos entregam como forma de dizer adeus? É um Humanity: Hour I? Não, senhoras e senhores. É um Sting in the Tail. Mas isso eu suponho que vocês já imaginavam…
Fazendo um jogo absolutamente seguro, Mustaine costura com este Megadeth, o disco, uma despedida que soa total e completamente Megadeth. Isso é uma boa notícia? Uma má notícia? Uma NÃO-tícia? Pois é você, meu querido ouvinte, que vai decidir isso assim que apertar o play… 😉

A gente ama o nosso tesouro… PORÉM…
…não dá pra negar que Mustaine tem um dedo tão certeiro para selecionar guitarristas quanto era o do finado Ozzy Osbourne. O finlandês Teemu Mäntysaari, substituto de Kiko Loureiro, já abre os trabalhos brilhando neste disco – não por acaso, a escolha pra começar o álbum foi justamente a feroz e veloz “Tipping Point”. O guitarrista é técnico, rápido, preciso, uma verdadeira metralhadora de riffs (que, inclusive, consegui ver ao vivo em 2024 e é realmente impressionante).
Dito isso, NO ENTANTO, preciso acrescentar uma coisa: justamente no ano em que Dystopia, o álbum de estreia de Kiko no Megadeth, completa 10 anos, escutar as contribuições do guitarrista brasileiro mostra que é possível, sim, trazer um tempero diferente mesmo ao som de um dos pilares do thrash metal.
No todo, Megadeth tem um senso de urgência que sempre foi comum na carreira do grupo do patrão Dave Mustaine, meio que servindo como um resumo de boa parte da discografia dos sujeitos. E, tal qual acontece com o conjunto total dos próprios discos do Megadeth, este disco também é bastante, digamos, irregular. O que não chega a ser um problema nem pro Mustaine e tampouco pros seus fãs mais devotados.
Uma faixa como “Let There Be Shred” é puro metal, uma exaltação ao estilo inclusive, tanto na sonoridade quanto na letra (“on the day I was born, a guitar in my hand, the earth started rumbling a thunderous command”). Mas digamos que, por melhor que seja, tanto quanto é “Another Bad Day” e seu refrão irresistível – que faixa com potencial maravilhoso pra ser executada ao vivo – se você já escutou clássicos como Peace Sells… But Who’s Buying? e Rust In Peace, não vai encontrar nada de lá muito novo aqui. É um Megadeth arroz com feijão, mas vamos lá: uma bela marmita, muito bem servida, não chega a ser uma notícia lá muito ruim, né?
(Volto a dizer: cada ouvinte decide o que esperar, no fim)
Ou alguém vai reclamar quando perceber que “Hey, God?!” (que, graças aos deuses, não tem nada de pregação advinda do lado mais cristão do frontman) parece claramente uma sobra de Youthanasia (1994), por exemplo? Talvez apenas “I Don’t Care” tenha um sabor ligeiramente diferente, porque ela conversa com as raízes punk de Mustaine, o mesmo Mustaine que fez aquela versão de “Anarchy in the UK” em 1988.
A treta é que, conforme o disco passa, em especial na sua segunda metade, ele vai perdendo um pouco da força, da fúria, da sujeira: a pegada mais melódica de “Puppet Parade”, por exemplo, funciona até a página 2 e logo depois vai cansando, cansando… Já “The Last Note”, a canção que encerra o álbum, apesar da letra autocontemplativa (“So here’s my last will / My final testament, my sneer / I came, I ruled, now I disappear”), não entrega musicalmente nada além do óbvio (e aqui, isso sim é uma notícia ruim). Não é 100% porradeira mas tampouco rasgadamente emocional. Só é.
Quer dizer… pera. Essa não é de fato a canção final. Porque tem uma outra, né?
Ah, sim, tem sim. E não é do Megadeth. Ou quase.
“Acho que era o momento certo para gravá-la e fechar o ciclo”, explica Mustaine pra Metal Hammer, a respeito da decisão de fazer uma versão de “Ride The Lightning”, do Metallica, canção coescrita por ele enquanto ainda estava na banda. “É um retorno às minhas origens e, honestamente, é uma boa música, nós a tocamos muito bem. Aceleramos um pouco o ritmo, mas pessoalmente acho que quando você vai fazer uma versão de uma música, tem que fazer algo tão bom quanto a original, ou até melhor. Acho mesmo que fizemos um trabalho tão bom quanto o da versão original”.
O resultado é… sei lá… meio que igual à versão original, hahahaha? Não parece uma versão do Megadeth pra uma música do Metallica, mas sim uma reprodução do Megadeth pra uma música do Metallica. Então tá. Conforme disse um integrante do grupo de apoiadores da Collectors Room, do qual faço parte, chega a ser sintomático e até um pouco irônico que a última música do último disco do Megadeth seja justamente uma música do Metallica.
Com ou sem Megadeth, com ou sem aposentadoria, com ou sem disco final, permanece aquele pedido que boa parte dos fãs sempre gritaram aos quatro cantos: SUPERA, MUSTAINE.
Quem sabe agora sobre mais tempo pra terapia, né? ¯\_(ツ)_/¯