Em Giants & Monsters, Helloween busca ecos do passado de Kiske e Deris
Novo disco da seminal banda alemã consolida de vez esta formação septeto…mas digamos que chega dividindo opiniões entre os fãs
Por THIAGO CARDIM
Se tem uma coisa que eu gosto DEMAIS desta nova formação Pumpkins United do Helloween, definitivamente é o bromance entre os vocalistas Michael Kiske e Andi Deris.
Por muitos anos tratados como inimigos e colocados em posições antagônicas pelos próprios fãs que teimavam em compará-los, chega a ser deliciosamente surpreendente (inclusive pra eles) o quanto ambos se deram bem e se tornaram de fato amigos assim que seus empresários tiveram a brilhante ideia desta reunião. E é justamente esta conexão que me atrai no disco novo, “Giants & Monsters”, preciso dizer.
Eu explico a lógica – que você pode ou não entender, rs.
O álbum anterior, aquele autointitulado de 2021, serviu como uma espécie de carta de intenções da banda, não apenas mostrando que mantinha sua relevância, mas que agora estava equipada com as suas principais armas para seguir em frente, rumo ao futuro. Eu, honestamente, não acho um disco ruim, longe disso. Mas me parecia muito o Helloween mostrando que ainda podia soar AQUELE Helloween. “Se liga nesse vocal; agora presta atenção nesta guitarra; olha só esse baixo, que animal; a bateria tá monstro, fala sério!”.
Era meio como “não, este não é o Keeper of the Seven Keys, mas a gente ainda tem condição de fazer algo deste naipe!”.
O que eu queria, no entanto, era entender o que o Helloween, com esta formação, misturando Kiske, Deris e o paizão Kai Hansen, poderia criar de efetivamente novo. Mais do que o Helloween template, o Helloween padrão, o que diabos eles poderiam entregar em termos de um NOVO Helloween? Bom, aparentemente, um dos resultados possíveis foi o recém-lançado “Giants & Monsters”. Cuja sonoridade macro surgiu a partir de uma fanfic composta por mim mesmo:
KISKE: Meu caro amigo, pensei em fazer umas composições meio na pegada de um outro projeto do qual participei…
DERIS: Pô, cara. Qual?
KISKE: Uma banda chamada Place Vendome.
DERIS: Demais, meu. Vou correr pra escutar. Aliás, por falar nisso… você já ouviu uma banda antiga na qual eu tocava. Uma chamada Pink Cream 69?
KISKE: Ah, vou ouvir também.
DERIS: Tenho certeza que você vai curtir. Tava até pensando… e se a gente…?
O resultado desta troca de plays teria gerado o coração de “Giants & Monsters”.
Na minha cabeça, é claro.

Um Helloween um pouco menos power metal? SACRILÉGIO!!!!!!!!
Quando o amigo Igor Miranda anunciou que tinha ouvido uma cópia prévia de “Giants & Monsters”, ele lançou uma opinião inicial que fez percorrer um arrepio na espinha dos fãs do nosso amado e idolatrado metal espadinha: o disco não soava, de fato, power metal como os fanáticos pelo gênero e pela banda poderiam querer, flertando inclusive com uma sonoridade melódica na pegada AOR daquele que se tornou o DNA da gravadora Frontiers Records.
Já dá pra imaginar o quanto esta singela opinião fez muitos grupos de WhatsApp metaleiros explodirem. “Mas como assim, os pais do power metal deixaram de fazer power metal, que absurdo, vou arrancar a minha cueca pela cabeçaaaaaaaaaaa”.
Assim, calma lá, nem tanto ao céu, nem tanto à Terra.
“Giants & Monsters” ainda é um disco de metal. “Giants & Monsters” ainda é um disco do Helloween. “Giants & Monsters” ainda é, portanto, um disco de power metal… mas o grande ponto, e nisso eu concordo 100% com o Igor, é que não é APENAS isso. Quem dá o play aqui esperando um novo “Keepers” ou, quem sabe, um “o que aconteceria se Michael Kiske gravasse The Time of the Oath”, vai acabar frustrado. Porque, sim, talvez este seja um dos álbuns mais acessíveis do Helloween. Um disco que, inclusive, serve de porta da entrada pra banda, pro metal, enfim. O que, inclusive, deve ter sido totalmente proposital.
Quando eu digo “acessível”, claro, não estou querendo dizer que todas as músicas soem como a farofíssima hard rock “This Is Tokyo”, o primeiro single do qual eu gosto bem mas sei que fez muitos ouvintes torcerem o nariz. Mas vejam o caso de “Giants on The Run”, que abre o disco – com direito até a uma desajeitada e hilária tentativa de gutural de Kai Hansen, é preciso que se diga. O que a canção, um power metal bem do melódico, tem de mais forte é o seu refrão impossível de não sair repetindo depois da segunda audição.
É o power metal usando de seu poder mais intrínseco: a habilidade de abraçar o ouvinte com uma dose generosa de cabeluda fofura sonora, pra eu, você e todo mundo cantar junto.
Sim, “Giants & Monsters” tem os seus momentos de peso e alta velocidade. A elogiada “Universe (Gravity For Hearts)”, por exemplo, foi uma ótima escolha como single número 2 – porque é um baita contraponto com “This Is Tokyo”. É uma canção pesada, densa, intensa, um power metalzão de responsa que claramente mostra de onde vieram as influências de bandas como Angra, Rhapsody, Blind Guardian e por aí vai. O mesmo pode ser dito da épica e volumosa “Majestic”, que encerra o disco no modo “soco na cara”. O pai tá on, rapaziada.
Dá pra dizer PRATICAMENTE o mesmo da dobradinha “Savior of the World” e “We Can Be Gods”, ambas com um baita potencial de bater cabeça mas ao mesmo tempo conversando muito mais com uma faceta pop, quaaaaaaaaaaaaase como se os caras do Journey resolvessem pesar um pouco mais a mão nas guitarras e sentar um tanto mais o braço na bateria.
Meio… digamos… Pink Cream 69. <3
Mas, cá entre nós, não é nelas que “Giants & Monsters” brilha de fato. Mas sim, por exemplo, na cadenciada “Hand of God”, que não precisa necessariamente depender de uma exagerada injeção de pirulitagem guitarrística para soar cheia de feeling e atitude roqueira. Simplesmente está ali.
Ou na lindíssima power ballad “Into The Sun”, com Kiske trazendo Deris para fazer par com ele numa canção que caberia tranquilamente… vejam só, em qualquer disco do Place Vendome. Ou ainda na deliciosa “Under The Moonlight”, aquela típica seleção de tiozão que tocaria numa Alpha FM da vida e ajudaria a embalar, com um sorriso no rosto, a sua volta pra casa enquanto toca no rádio do carro.
E, contrariando todas as expectativas, preciso falar da minha canção favorita do disco: “A Little Is A Little Too Much”. Que é a canção mais alegre e cheia de gracejos do disco. A faixa mais Happy Happy Helloween que a banda lançou em muitos anos, disparado, com direito até a um tecladinho safado, encarnando um espírito de “música que tocaria num filme de moleques aventureiros dos anos 1980”. O Helloween que, no fim do dia, inspirou o Edguy. Sacou o meu ponto? 😉
Eu queria, na real, um disco inteiro do Helloween nesta pegada. Mas digamos que este texto já vai arrumar inimigos demais antes que eu defenda esta ideia com mais afinco. :)))))
Outra coisa me faz gostar mais, aliás, de “Giants & Monsters” do que de seu predecessor. Aqui, nós temos muito mais duetos do Kiske com o Deris. Alternâncias e brincadeiras com as diferentes texturas entre as vozes de ambos, e não apenas “ah, este é o momento do Kiske, esta outra música é a hora do Deris brilhar”. As vozes de ambos (e, por consequência, sua interpretação única) são diferentes o suficiente para que integrá-las de alguma forma soe como uma saída criativa bastante interessante.
E Kai Hansen?
O homem vai gravar e cantar só quando estiver afins. Tá no papel de guitarrista e “backing vocal de luxo” e tá curtindo a vida. Eu, enquanto ouvinte, tô bem com isso e acho que ele também.

Ah, sim, este novo disco me lembra outras DUAS coisas também…
…e eu sei que estas referências estão longe de ser uma unanimidade entre os fãs da banda – mas justamente POR ISSO eu acredito que elas fazem sentido e são meio que responsáveis pelo fato de que muita gente esteja tendo dificuldades com “Giants & Monsters”.
As referências são “Pink Bubbles Go Ape” (1991) e “Chameleon” (1993) – insira aqui a sua vinheta de tensão.
E sim, eu sei que, neste exato momento, parte dos leitores que são mais devotados ao Helloween clássico estão mergulhados num misto de gritos e choros. Faz parte. 😀
Não que “Giants & Monsters” soe exatamente como os dois eternamente questionados registros finais da fase Kiske e que também marcaram a chegada do guitarrista Roland Grapow. Mas digamos que é bastante interessante ver que, décadas depois, a banda ainda deixa de ter medo de soar diversa, mesmo com a certeza plena de desagradar parte de sua fanbase, flertando com algo mais pop, mais comercial, mais maleável, ainda mais grudento.
E com uma produção bastante cristalina, eu diria. Daquele tipo que faz brilhar cada pedacinho desta bem azeitada orquestra metaleira.
No fim do dia, quem conhece o Helloween pra valer sabe que, salvo raras exceções (como, por exemplo, aquele comecinho da fase Deris), é muito difícil que, em sua extensa discografia, eles soem muito similares e repetitivos de um álbum pro outro, o que nunca é uma notícia ruim pra quem gosta de ser surpreendido. Eu, por exemplo, gosto bastante deste caminho de “Giants & Monsters”, mas duvido que a banda se acomode e resolva continuar nele num potencial novo disco.
Esperemos para ver qual é o próximo Helloween que nos aguarda.
Enquanto isso, fica com essa galhofa aí pra dar uma melhorada no seu dia.