Cavaleiro dos Sete Reinos e o triunfo do coração
Vimos os três primeiros episódios da nova série derivada de Game of Thrones e ficamos felizes DEMAIS por ver que existe vida fora do mundo das tramas palacianas
Por THIAGO CARDIM
Se tem uma coisa que eu sempre repeti, aos quatro cantos, como sendo um dos maiores acertos a respeito da série Andor, foi a sua capacidade de contar uma boa história de Star Wars e no universo de Star Wars sem precisar necessariamente recorrer ao expediente padrão dos jedis e da infindável história da família Skywalker. Afinal de contas, quando uma franquia cresce suficientemente pra ganhar diferentes ramificações, o desafio segue sendo: como não permanecer se repetindo ad infinitum?
É o caso, por exemplo, de Game of Thrones, a obra de George R. R. Martin – que inclusive se tornou até sinônimo de “trama cheia de politicagens na qual os personagens tentam um puxar o tapete do outro em busca do poder supremo”. Eu cheguei, inclusive, a ouvir um amigo descrevendo Vale Tudo (sim, a novela!), como sendo “uma trama meio Game of Thrones que se passa no Rio de Janeiro”.
Quando chegou a sua variante, o prólogo que atende pelo nome de A Casa do Dragão, o modelo de “luta pelo Trono de Ferro” continuava o mesmo, apesar das tintas um pouco mais novelescas (aliás, é o dramalhão que me atrai aqui, bem mais do que na série original). Mas como continuar a desenvolver outros spin-offs em Westeros sem tentar fazer outro Game of Thrones da vida, de novo e de novo? Afinal, o reino é enorme e vai muito, mas muito além dos sussurros conspiratórios e traições pelas costas em busca do poder supremo…
O que acontece, por exemplo, com quem está ali, na parte de baixo da pirâmide, limpando o estábulo dos cavalos, lubrificando as espadas, preparando as refeições e aparentemente alheio às tretas sem fim entre os Stark, Lannister, Targaryen, Baratheon, Tyrell e por aí vai? É isso que acontece, no fim do dia, em O Cavaleiro dos Sete Reinos, série que vem ganhando um novo episódio a cada semana na HBO, sequencialmente indo parar no streaming do HBO Max.
E é justamente por isso, no fim, que eu tô gostando TANTO dessa série. Mais do que, inclusive, qualquer outra relacionada com Game of Thrones.
Calma que eu explico…
Apesar de ser alguém que, pelo menos na teoria, seria o público-alvo certeiro de uma nova ambientação de livros/séries de fantasia medieval (por motivos de “jogador de RPG”), confesso que cheguei bem atrasado no hype de Game of Thrones. E simplesmente não fui picado pelo bichinho de Westeros. Conforme já falei algumas vezes nos nossos podcasts, aliás, li o primeiro livro das Crônicas de Gelo e Fogo e achei CHATÍSSIMO, uma prosa arrastada e insuportável. Ganhei o segundo, acreditei que fosse embarcar de vez… mas simplesmente não rolou. Larguei a leitura logo no comecinho.
Aí que veio a série. Aquela que todos os meus grandes amigos, do rolê da cultura nerd, do trabalho, lá de Santos, acompanhavam obsessivamente e transformavam em assunto recorrente da mesa de boteco. Aquela cujo primeiro episódio eu assisti e para a qual NUNCA MAIS voltei (aliás, minto: eu me forcei a assistir ao último e derradeiro episódio, aquele que todo mundo diz ter odiado e que eu achei apenas… OK). O que me pegou? O fato simples de que eu ODIAVA todos os personagens. Todos, sem exceção. Não, nem o amado e adorado Tyrion Lannister (Peter Dinklage) conversava comigo.
Porque, de verdade, eu tenho um bocado de bode destes reis, rainhas, príncipes, conselheiros e demais aspirantes a monarcas. No fundo, eu sempre espero que todos se engasguem com suas moedas de ouro ou sejam apresentados a uma simpática senhorita chamada Gui de sobrenome Lhotina. Empatia zero.

E eis que chega O Cavaleiro dos Sete Reinos, com uma figura do naipe de Sor Duncan, o Alto (Peter Claffey), um herói absolutamente improvável, um pobretão que aprendeu o que sabe sobre cavalaria com um cavaleiro andante igualmente sem um dobrão no bolso, um grandalhão com um tipo de inocência absolutamente incomum em Westeros… e que não está ligado a simplesmente nenhum grande clã da mitologia de Martin. O resultado? Me apaixonei de imediato.
Obrigado por Dunk & Egg!
Não bastasse a presença de Dunk, em seu caminho para um torneio no qual pretende se encontrar enquanto cavaleiro depois da morte do mestre, acaba aparecendo um garotinho chamado Egg (Dexter Sol Ansell). Um menino careca, uma misturinha insuportável de teimosia, arrogância e doçura, muitíssimo inteligente pra alguém de sua idade, que resolve seguir Dunk e atuar como seu escudeiro nas justas… por mais que, a princípio, o gigante não esteja lá muito interessado na parceria.
É claro que, aos poucos, a dupla se aproxima e, mais do que desenvolver uma relação paternal, eles se tornam quase irmãos. Porque Dunk é um crianção tamanho família, ainda sem entender muito bem como funciona o mundo ao seu redor… e ainda bem por isso. Porque é a química entre ambos, o carinho que surge em meio à lama, às camas improvisadas sob o luar e às opções bem escassas de comida, que faz a diferença na série. E que se danem os Lannister, Targaryen e demais ricaços. E sim, digo isso já tendo visto AQUELE episódio com AQUELA virada na trama.
O Cavaleiro dos Sete Reinos é a vitória do comum. Do ordinário. Apela para uma simplicidade narrativa que faz falta num universo cheio de intrincados complôs, maquinações e conchavos. É a história de um cara comum, que costura e remenda os próprios trapos que chama de roupas, que precisa negociar os poucos centavos que lhe restam para conseguir comprar uma armadura, que não tem lá muita sutileza com as palavras e a etiqueta, mas tem um coração tão grande quanto sua própria forma física.
E, claro, do pequeno garotinho que encontra, meio que sem querer, alguém que é muito mais seu irmãozão do que qualquer sujeito com o qual divida o próprio sangue.
Preciso ter lido alguma coisa de Game of Thrones pra entender? Não. Preciso ter visto as séries de Game of Thrones ou A Casa do Dragão para entender? Tampouco. Só vem. Você só precisa estar é com o coração aberto e pronto para ser feliz com eles e com a gente.
A jornada de Dunk & Egg – aqui nesta temporada inicial, inspirada no primeiro dos três primeiros contos protagonizados por eles, “O Cavaleiro Andante” – hasteia a bandeira de um coração numa Westeros que era essencialmente representada pelo estandarte de um fígado.
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EM TEMPO: preciso admitir que só mesmo a Mikannn, com três Ns, seria responsável por me fazer ter vontade de voltar a ler um livro do Martin ambientado em Westeros – muito por culpa DESTE vídeo.
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O Cavaleiro dos Sete Reinos está disponível no HBO Max.
Mas a versão em livro está disponível bem aqui.
E aqui você completa a sua coleção de Game of Thrones.