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Mort Cinder: o homem que carrega a história nas costas

Clássico absoluto dos quadrinhos ganha edição definitiva no Brasil — e a gente explica por que você PRECISA ler.

Por THIAGO CARDIM

Poucas obras dos quadrinhos mundiais carregam um consenso tão sólido quanto Mort Cinder. Publicada originalmente na Argentina, no início dos anos 1960, a HQ criada por Héctor Germán Oesterheld e Alberto Breccia atravessou décadas, idiomas e contextos políticos para se firmar como um clássico absoluto da nona arte. Não é exagero: Mort Cinder está para os quadrinhos assim como Kafka está para a literatura moderna ou Eisenstein para o cinema: uma obra que muda o jeito de olhar para o meio.

Em 2026, esse monumento ganha no Brasil uma edição que faz jus à sua importância. A Figura Editora (que, em 2018, lançou o gibi pela primeira vez aqui no Brasil) prepara o lançamento de Mort Cinder – Edição Definitiva, resultado de um financiamento coletivo bem-sucedido no Catarse e que ainda se encontra em regime de pré-venda no site da editora. Um lançamento especialíssimo, pensado não apenas como produto editorial, mas como gesto histórico.

A edição definitiva da Figura Editora

A nova edição de Mort Cinder marca os 10 anos da Figura Editora com uma ambição clara: produzir a melhor edição da obra já publicada no país. E os números falam por si. O volume terá formato gigante (27 x 38 cm), semelhante ao usado pela editora em Little Nemo, permitindo uma experiência visual muito próxima da arte original de Breccia.

São 240 páginas, em preto e branco, impressas em papel Offset 120 g, com capa em papel prateado e tradução de Ernani Ssó. A edição traz ainda um dos textos críticos mais importantes já escritos sobre a HQ: “Introdução a uma leitura de Mort Cinder”, de Antoni Segarra, publicado originalmente na revista espanhola Bang! em 1973 — ensaio considerado o mais relevante sobre a obra.

A tiragem será limitada, inicialmente fora de marketplaces como a Amazon e de grandes feiras de desconto, reforçando o caráter quase artesanal e curatorial do projeto. Mais do que um relançamento, trata-se de uma edição pensada para durar — física, simbólica e historicamente. Eu te explico, caso não saiba do que estou falando.

Héctor Oesterheld e Alberto Breccia: dois gigantes

Falar de Mort Cinder é falar do encontro entre dois dos maiores nomes da história dos quadrinhos.

Héctor Germán Oesterheld (1919–1977?) foi um dos mais importantes roteiristas da Argentina e da América Latina. Criador de personagens icônicos como O Eternauta, Oesterheld tinha como marca uma escrita profundamente humanista, interessada menos em heróis invencíveis e mais em pessoas comuns atravessadas pela história. Sua trajetória foi brutalmente interrompida pela ditadura militar argentina: Oesterheld foi sequestrado e desaparecido em 1977, assim como suas quatro filhas, tornando-se símbolo trágico da violência de Estado na América Latina.

O uruguaio Alberto Breccia (1919–1993), por sua vez, foi um revolucionário da linguagem visual dos quadrinhos. Seu traço nunca se acomodou: um preto e branco poderoso, luz e sombra, expressionista, experimental, muitas vezes desconfortável, Breccia (que inspirou nomes como Frank Miller e Eduardo Risso) expandiu os limites do que se entendia como arte sequencial. Em Mort Cinder, ele encontra o equilíbrio perfeito entre figuração clássica e ousadia gráfica, criando páginas que seguem perturbadoras até hoje.

A parceria entre Oesterheld e Breccia existe para além de Mort Cinder: além de fazerem a versão 1969 d’O Eternauta, trabalharam juntos em obras como Sherlock Time (sobre um detetive que viaja no tempo e no espaço) e Che (a biografia em formato HQ do revolucionário que, acredito, dispense mais apresentações), todos lançados no Brasil pela Comix Zone.

Mas muitos especialistas são unânimes ao dizer que é em Mort Cinder que a dupla atinge seu ponto máximo. Publicada originalmente na revista Misterix, entre os anos de 1962 e 1964, a série surge de uma inquietação comum aos dois autores: como falar da história sem transformá-la em espetáculo vazio? A resposta veio na forma de um personagem imortal, condenado a atravessar séculos, guerras, impérios e ruínas. Influências não faltam: da literatura gótica ao existencialismo europeu, passando por reflexões filosóficas sobre tempo, memória e violência. Mas Mort Cinder não é uma HQ histórica tradicional. Ela é, acima de tudo, uma obra sobre o peso da experiência humana.

A sua trama, com inspiração clara em Jorge Luis Borges, começa em Londres, com Ezra Winston, um antiquário solitário cercado por objetos carregados de passado. Um relógio antigo que volta a funcionar e um estranho amuleto o conduzem a um mistério maior: o encontro com Mort Cinder, o “homem das mil mortes”. Mort é um ser imortal que já viveu — e morreu — inúmeras vezes. Isso não é explicado em momento algum e, na verdade, faz pouquíssima falta. O que se sabe é que Mort esteve presente na construção da Torre de Babel, nos navios do tráfico de escravizados, nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, na batalha das Termópilas. Cada capítulo é um fragmento da história, contado não pelo olhar dos vencedores, mas por alguém que carrega as cicatrizes do tempo no próprio corpo.

“O passado está tão morto quanto pensamos?”, se pergunta Ezra. Só estará enquanto permitimos que esteja, respondo eu.

Impacto e legado

Desde seu lançamento, Mort Cinder passou a ser estudada, relida e reverenciada como uma das grandes obras dos quadrinhos do século XX. Sua influência pode ser sentida tanto em autores latino-americanos quanto europeus, e sua abordagem crítica da história ecoa com força especial em contextos marcados por autoritarismo e apagamento da memória.

Ler Mort Cinder hoje não é um exercício de nostalgia, é um ato de memória ativa. Em um mundo que insiste em tratar a história como algo superável, descartável ou “relativizável”, a obra de Oesterheld e Breccia surge como um lembrete incômodo de que o passado não passa: ele se acumula. Está nas guerras que se repetem, nos corpos que continuam sendo sacrificados em nome de impérios, nas estruturas de poder que mudam de nome, mas não de lógica. Mort é o homem que morre mil vezes porque a humanidade insiste em cometer os mesmos erros, geração após geração.

Não é coincidência que o autor dessa obra tenha sido sequestrado e assassinado (sim, vamos lá, este é o verbo correto) por uma ditadura militar. Nem que Mort Cinder seja atravessado por temas como violência de Estado, apagamento histórico, exploração e desumanização. Oesterheld entendia, como poucos, que contar histórias também é disputar sentidos e que a ficção pode ser um espaço radical de resistência. Breccia, por sua vez, transforma essa denúncia em forma, rasgando a página, sujando o traço, recusando o conforto visual. Nada aqui é fácil. Nada aqui é neutro.

Num Brasil que ainda luta para elaborar seus próprios fantasmas autoritários, reler Mort Cinder é também um gesto político: o de recusar o esquecimento, o de confrontar a ideia de que “já passou”, o de entender que a barbárie não é exceção histórica — é projeto. Essa edição definitiva da Figura Editora não é apenas um evento editorial: é uma convocação. Para lembrar, para pensar, para encarar a história de frente. Porque enquanto houver Mort Cinder se levantando da tumba para contar o que viu, talvez ainda haja alguma chance de a gente aprender alguma coisa.

Em resumo… por que você deveria ler Mort Cinder?

Porque Mort Cinder não envelheceu.
Porque fala sobre guerra, poder, exploração e memória de um jeito que continua dolorosamente atual.
Porque é uma aula de linguagem dos quadrinhos, tanto em roteiro quanto em arte.

E porque, em tempos de amnésia histórica e banalização da barbárie, poucas leituras são tão necessárias quanto acompanhar um homem que já viu tudo — e ainda assim insiste em contar.

A edição definitiva da Figura Editora não é apenas uma oportunidade de conhecer Mort Cinder. É um convite para encarar a História (assim mesmo, com H maiúsculo) de frente.











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