30 anos de Roots e Holy Land: duas obras seminais do metal BR
Álbuns históricos do Angra e do Sepultura incorporaram ritmos, percussões e referências culturais do Brasil – e ambos catapultaram as duas bandas
Por THIAGO CARDIM
Em 1996, as duas mais importantes bandas brasileiras de heavy metal lançavam álbuns que mudariam para sempre a percepção do gênero por aqui: Sepultura, com Roots, e Angra, com Holy Land.
Trinta anos depois, os discos não apenas permanecem como pilares nas discografias das bandas, mas também como definições de um metal que dialoga com o Brasil — incorporando ritmos, percussões e referências culturais que poucos grupos do mundo fariam soar tão naturais. Embora lançados com poucas semanas de diferença, ambos mostravam um ponto em comum: a ousadia de olhar para o próprio país e transformar suas sonoridades em metal, de diferentes maneiras.
Além disso, Roots e Holy Land ajudaram a consolidar o nome do metal brasileiro internacionalmente. Sepultura e Angra são, até hoje, as bandas nacionais mais reconhecidas no exterior, e esses dois álbuns se tornaram referências, seja para quem busca groove e agressividade, seja para quem procura melodia, complexidade e brasilidade sinfônica.
Roots: a batida do Brasil em thrash e groove
Andreas Kisser, guitarrista e atual líder da banda, lembra numa entrevista para o podcast Amplifica (curiosamente comandado por Rafael Bittencourt, guitarrista do Angra) que a jornada até o álbum, gravado entre 1995 e 1996, foi marcada por experimentações e viagens.
“O Sepultura começou a viajar e foi como um astronauta vendo o planeta Terra da Lua. Você tem uma outra perspectiva do lugar de onde você vem, você vê as coisas de outra maneira. Você vê o quão respeitado ou admirado o Brasil é fora do Brasil, em vários aspectos”, explica ele. “E a gente começou a perceber que o Brasil é um país único, muito diferente de qualquer outra coisa que tem por aí, principalmente culturalmente —de música, de ritmos, enfim. Aos poucos a gente começou a incorporar isso”.
Ele lembra que tudo começou ali no Arise, em 1991, quando fizeram a introdução para “Altered States” música que abre o Lado B. “No Chaos A.D. você já vê a diferença: uma música mais groovada, com muita percussão; uma música como ‘Kaiowas’, falando de uma tribo brasileira, ‘Manifest’ falando do Carandiru, as coisas do Brasil”.
Roots foi uma continuação natural – e o frontman Max Cavalera quis ir além. Inspirado no ótimo filme Brincando nos Campos do Senhor (de 1991, dirigido por Hector Babenco), em que missionários americanos tentam converter índios ao cristianismo, ele teve uma ideia bastante ousada.
“A parte do filme em que Tom Berenger se lança de paraquedas [para cair na aldeia] me deu a ideia para Roots. Pensei: ‘Vamos lá gravar um disco com a tribo. Seremos a primeira banda a fazer isso’”, diz Max, em sua biografia, My Bloody Roots. Conseguiu convencer a gravadora Roadrunner Records a apoiar um projeto de imersão nas sonoridades indígenas – e com a grana garantida, bateu um papo com a jornalista Angela Pappiani, do Núcleo de Cultura Indígena, para tentar intermediar a incursão.
O primeiro plano era trabalhar com os caiapós, mas depois de ouvir uma canção dos xavantes em um festival em Nova York, a banda optou por esta segunda tribo. O fato dos caiapós serem considerados pouco “receptivos” só contribuiu… Angela mostrou o som do Sepultura para os índios, que aceitaram receber o quarteto, o produtor Ross Robinson e Gloria, esposa de Max e empresário do grupo. Durante três dias na região de Camarana, no Mato Grosso, eles não apenas ouviram e fizeram música, como também tiveram os corpos pintados, comeram refeições típicas, dançaram, jogaram futebol, tomaram banho de rio…
Com influências de elementos indígenas e batidas que dialogam até mesmo com o samba, o álbum rompeu com o thrash tradicional. Roots é, sem dúvida, o divisor de águas não apenas para o Sepultura, mas também para uma generosa fatia de bandas que se seguiram depois, fazendo o que se convencionou chamar por alguns de “groove metal”. Mergulhando na afinação baixa das guitarras de grupos como Deftones e Korn, o resultado influenciaria não apenas o Soulfly, projeto de Max pós-Sepultura, mas também um número considerável de bandas do chamado nu metal, que passaram a usar e abusar de elementos percussivos tribais em seus trabalhos.
O disco dividiu os fãs? É obvio que dividiu – e até hoje está longe de ser uma unanimidade. Mas além de ter a canção que se tornou hino da banda (Roots Bloody Roots), de execução obrigatória em todos os seus shows, a bolacha aproximou o heavy metal de um público fora do nicho, com canções como “Ratamahatta” – que traz a inusitada participação do músico baiano Carlinhos Brown –, e isso sem perder o seu peso característico.
Há quem o chame de “batucada metal”, tratando o termo como depreciativo. Mas é impossível negar a importância e ousadia desta obra, que marcou época justamente pela coragem de experimentar o cruzamento de metal com música indígena e afro-brasileira.
Holy Land: brasilidade e sinfonia no power metal
Enquanto isso, o Angra gravava Holy Land, um álbum que buscava transportar a história e a cultura do Brasil para o power metal. Lançado praticamente na mesma época que Roots, o disco combina melodias orquestradas, harmonias complexas e percussões regionais com a temática da colonização, da miscigenação e da religiosidade brasileira.
Mas enquanto a obra capitaneada por Max Cavalera falava mais com os sons indígenas, a batucada do Angra em Holy Land é mais nitidamente inspirada em sons africanos e em ritmos nordestinos como o forró e o baião.
Rafael Bittencourt, guitarrista da banda e um dos principais compositores da obra, comenta inclusive: “Os dois álbuns foram lançados quase ao mesmo tempo. Então seria impossível se inspirar em algo em duas semanas e depois entregar um álbum que levaria um ano inteiro para ser feito. Se as pessoas pensam isso, eu não me importo, porque admiro muito o Sepultura”.
Holy Land foi o ápice do Angra na fase liderada por Andre Matos – e, além de um dos álbuns mais importantes e representativos do metal nacional, tornou-se responsável pela assinatura étnica que se seguiria como marca registrada da banda. Além disso, também foi o disco que catapultou a carreira internacional do grupo, em especial na Europa e no Japão. A ideia foi ampliar um conceito que o Angra começou a tatear no disco de estreia, com “Never Understand”, que tem uma passagem de “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga.
Ao longo de 4 meses, os cinco músicos se trancaram em um sítio da família do baterista Ricardo Confessori, no interior de São Paulo, para se dedicarem exclusivamente à composição do novo disco. Entre as muitas novidades, eles até foram buscar algumas velharias para entender como poderiam ser utilizadas dali pra frente – “Nothing To Say”, a faixa que abre o disco, foi inteiramente desenvolvida a partir de um groove de bateria que Confessori tinha criado um ano antes, por exemplo.
O resultado foi um álbum conceitual sobre a época das grandes navegações e o descobrimento do Brasil, originando a miscigenação de raças que marca a nossa história. Apesar de não ter todas as músicas contando uma mesma trama, as letras tentam seguir este elo em comum de alguma forma.
Cheio de músicas que o Angra – e, de uma forma ou de outra, o próprio Andre Matos com sua banda solo – continuaria cantando décadas depois, Holy Land poderia tranquilamente ser resumido em uma única canção: “Carolina IV”. Um épico de mais de 10 minutos com diferentes passagens e mudanças de sonoridade (metal, música clássica, latina, um tanto da batida africana típica do Olodum), ele abre com uma saudação à Iemanjá (“Salve salve Iemanjá / Salve Janaína / E tudo o que se fez n’água / Jogam flores para o mar / Deus salve a Rainha”) para depois contar a história de um navio, batizado com o mesmo nome da música, que parte em busca do Novo Mundo. Aqueles mais atentos sacaram que a faixa tem até uma citação de flauta a “Bebê”, música do genial multi-instrumentista Hermeto Pascoal.
Com Holy Land, o Angra estabeleceu um padrão para o power metal brasileiro, mostrando que técnica, melodia e brasilidade podiam coexistir. O disco foi fundamental para consolidar a identidade da banda e reforçar o diálogo do metal com a cultura local, sem jamais perder o apelo internacional.
Um encontro de perspectivas: Sepultura e Angra olhando para o Brasil
Alguns anos atrás, conversando com o Kazagastão, canal do jornalista Gastão Moreira, o guitarrista Kiko Loureiro, que fez parte do Angra, já tinha reforçado a importância do Sepultura para o próprio Angra: “Tinha uma referência do Sepultura, como uma banda maior que estava acontecendo, com som próprio, tocando lá fora, já em 1991, 1992. [Pensamos] ‘Dá para fazer isso. Apesar do som ser completamente diferente, tem um caminho aí, por que não acreditar nisso?’.”
Mas nesta conversa no podcast Amplifica, Andreas Kisser refletiu especificamente sobre a relação entre os dois lançamentos: “O Roots, quando saiu, muita gente torceu o nariz. Porque tinha batucada, tinha Carlinhos Brown… A própria gravadora não entendeu muito bem o que estávamos fazendo, mas é um disco falado até hoje. Dave Grohl e tantos outros mencionam este álbum de maneira muito especial”.
Rafael Bittencourt respondeu: “O Angra também estava soltando o Holy Land mais ou menos na mesma época. Já me perguntaram muito se existia uma influência de uma banda na outra. A gente não fazia ideia do que vocês iam lançar. O que eu acho é que, ao sair do Brasil, a gente olha o país de maneira diferente, e isso acaba se refletindo na música. Tem muita coisa que é o nosso diferencial, que fica tentando esconder. Tentando imitar o de fora, você está na verdade podando ou mutilando seu ponto forte”.
Kisser complementou: “Desde o Arise até o Roots, de 1991 a 1996, foi um processo de nos apropriar da nossa identidade cultural, de experimentar percussão, flautas e ritmos sul-americanos. O Roots explodiu, e foi a primeira vez que levamos nossa brasilidade tão explícita ao mundo do metal, de forma que ainda reverbera hoje”.
Completando três décadas, Roots e Holy Land permanecem não só como marcos do metal brasileiro, mas como demonstrações de que o país pode ser explorado e transformado em arte de maneiras distintas — abrasileiradas, únicas, e universais ao mesmo tempo.
Ambos os álbuns são exemplos de como olhar para dentro pode fazer a música ecoar para fora, influenciando gerações e mostrando que o metal brasileiro tem identidade própria, poder de inovação e, acima de tudo, alma.