Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

Nostalgia e Alegria: uma bela lição com Muppets e Chapolin

Novos projetos com personagens clássicos mostram que dá pra cultura pop olhar pro passado sem ficar presa a ele

Por THIAGO CARDIM

Melhor até do que a definição de nostalgia que consta no dicionário, nosso popular pai dos burros (“Sentimento ligeiro de tristeza sentido por alguém, pela lembrança de eventos ou experiências vividas no passado”), eu preferi recorrer à explicação dos graduandos do chamado Espaço do Conhecimento da UFMG, a saber:

“Nostalgia é um termo que se refere a um sentimento de carinho ou saudosismo por algo que aconteceu no passado. Seja uma lembrança específica, uma época da vida ou até mesmo uma cultura ou período histórico. A nostalgia frequentemente envolve uma sensação de apreço pelas lembranças e pode ser acompanhada por sentimentos de conforto e contentamento”.

Colocada deste jeito, veja, a nostalgia nem parece algo ruim, né? E, bom, nem deveria ser mesmo.

Maaaaas quem está mergulhado no universo digital da cultura pop nos últimos anos, sabe bem que nostalgia acabou se tornando sinônimo de frases como “no meu tempo era melhor” ou então aquela clássica “esta nova versão é tão ruim que estragou a minha infância”.

Com toda a certeza do mundo, você já deve ter ouvido algo do tipo assim que alguém inventa de trazer um personagem de volta de seus tempos de glória do passado – recomendo, por exemplo, a leitura deste meu texto no JUDÃO, lá de 2018, sobre uma série cômica dos Thundercats.

Aí, com medo da reação deste tipo de fã, eis que os estúdios se dobram e resolvem fazer a nostalgia pela nostalgia – e em plenos anos 2000, se metem a fazer séries, filmes e afins que são apenas e tão somente réplicas do que aconteceu outrora. O resultado? Nostalgia acabou virando, pelo menos pra MIM, sinônimo de algo totalmente pejorativo. Pedante. Tudo que é naturalmente nostálgico acaba me soando meramente uma cópia boba e sem graça. Porque, pelo menos pra este que vos escreve, nostalgia deveria falar com o passado mas sempre se conectando com o presente e, quiçá, com o futuro.

Quer saber o mais legal? Parece que alguém por aí concorda comigo. No caso, a turma que produziu o especial de retorno do Muppet Show e também (e principalmente) aqueles responsáveis pela nova série animada do Chapolin Colorado.

Calma que eu explico (como de costume). 😉

It’s time to light the lights

Cabe aqui um parêntese importante: conforme já falei neste vídeo aqui, sou fã de carteirinha dos Muppets. Amo de paixão desde sempre, é algo que teve um impacto imenso na minha infância e que seguiu aquecendo o meu coração ao longo de toda a vida adulta. Depois de uma série de projetos irregulares (ainda que tenham meu respeito pela mínima tentativa de ousadia), quando Seth Rogen resolveu bancar um especial para trazer o clássico “The Muppet Show” de volta, mais de 40 anos depois, é óbvio que eu pirei e dei um par de cambalhotas na sala de casa.

“Portanto, era meio evidente que você ia gostar, né”, imagino que o nobre leitor esteja pensando. Ledo engano. Porque apesar de estar BEM empolgado, confesso que estava preocupado JUSTAMENTE com o fato de que essa fosse apenas e tão somente uma destas iniciativas de nostalgia pela nostalgia. E isso seria fofo, porém me broxaria deveras. E que bom que eu estava redondamente enganado.

Sim, este especial do “The Muppet Show” recém-lançado tem o espírito do original. Tem a sua leveza, a sua suavidade, o seu jeito ligeiramente sacana de usar um monte de bonecos de espuma para fazer piadas focadas em adultos sem perder a ternura e o aspecto emocional (a cena final, com os Muppets cantando AQUELA música, me fez chorar litros). Mas em nenhum momento se foca APENAS nisso ou usa o Muppet Show de quatro décadas atrás como muleta.

A começar pela convidada especial, ninguém menos do que Sabrina Carpenter, um dos mais importantes nomes da atual música pop, que inclusive fez um número musical absolutamente atual (e físico) com “Manchild”, surrando um bando de fantoches machistóides. Vai dizer que isso não é absolutamente atual? Assim como a sátira suína de “Bridgerton” estrelada de maneira surreal por Pepé e Piggy. E o que dizer do rato Rizzo e seus comparsas fazendo uma versão videoclipe e absolutamente modernosa de “Blinding Lights”, de The Weeknd.

Os Muppets, definitivamente, mergulharam de cabeça no mundo digital.

É óbvio que Rogen manteve a estrutura clássica. Não, ele jamais colocaria os filhotes de Jim Henson fumando maconha ou fazendo piadas de peido, coisa que é usual em suas próprias produções. Mas tampouco ia parar os Muppets no tempo e não os fazer se conectar com a cultura pop de hoje, gostem Statler e Waldorf ou não.

Não contavam com a minha astúcia!

Já no caso da série animada “Chapolin e os Colorados”, produzida pela Huevocartoon em associação com o Grupo Chespirito e em coprodução com a Telefilms e a THR3 Studios, a discrepância nostálgica é ainda maior.

Porque, veja, apesar da animação contemporânea (que lindamente usa e abusa dos recursos de retículas das HQs), o Vermelhinho criado por Roberto Gómez Bolaños continua sendo o mesmo de sempre: o herói do povo, desengonçado, atrapalhado, com os bordões aos quais estamos mais do que acostumados. Ele vira o eixo que nos faz conversar com o passado, recordar as piadocas da época da 5ª série. Só que TODO o resto flerta com o novo. Pois é, esqueça o recurso óbvio de fazer uma série animada que é basicamente um bando de adaptações dos episódios clássicos da sua versão live-action.

Aqui, o Chapolin é um herói casado – e, portanto, conhecemos sua esposa Susy, seus dois filhos (Lina e Bobby) e inclusive a sua mãe, uma velhota insuportavelmente pentelha que é de longe uma das melhores coisas da série. Além de uma família cheia de personalidade e bastante moderna, em um mundo de celulares e drones, o herói ganha uma espécie de origem meio alienígena para os seus poderes, uma habilidade de teleporte envolvendo as anteninhas de vinil a cada clássico chamado “ó, e agora quem poderá me defender?” e até uma relação pra lá de divertida envolvendo a polícia local. Isso sem falar no momento Obelix de sua filha e o elemento ativo das pílulas de nanicolina.

E sabe o que é mais legal ainda? Os roteiristas foram buscar elementos da mitologia clássica e os modernizaram, criando versões dinâmicas e cheias de vida de vilões como o Pirata Alma Negra e os gângsteres Racha Cuca e Quase Nada… além de ninguém mais, ninguém menos do que o Bebê Jupteriano, envolvido em uma trama com ares de kaiju querendo destruir Tóquio. Sensacional! <3

Os personagens ainda existem, ainda estão por aí para serem repensados, reinventados, reinterpretados. São brinquedos na caixa de areia de um bando de roteiristas e diretores querendo mostrar trabalho. Deixa a molecada brincar e dar um temperinho diferente. Porque se for pra fazer a mesma coisa de sempre, vamos lá, os episódios e filmes originais estão por aí, agora a um play de distância.

Afinal, ao contrário do que dizem uns e outros, impossível estragar a sua infância (a não ser que ela já estivesse devidamente estragada). Mas é perfeitamente possível construir NOVAS (e igualmente divertidas) memórias pra sua vida adulta.




O especial “The Muppet Show” está disponível no Disney+.

Os 10 episódios da primeira temporada de “Chapolin e os Colorados” estão disponíveis na HBO Max.