Natal Amargo é Almodóvar rindo de si mesmo
Aos 76 anos e 24 filmes depois, diretor demonstra a coragem de ser seu personagem mais incômodo
Por GABRIELA FRANCO
Antes que alguém tenha essa dúvida, apesar do título, Natal Amargo não é um filme natalino. Pelo contrário, eu diria: é um filme sobre morte. Dito isso, sem dar spoilers, gostaria de deixar uma pensata: existem pessoas que, à medida que envelhecem, vão perdendo o “filtro” e ficando cada vez mais honestas. Não mais sábias. São coisas diferentes.
A sabedoria implica resolução, chegada, alguma espécie de paz conquistada. A honestidade, quando radical, implica o oposto: continuar fazendo as mesmas perguntas em voz cada vez mais alta, sem se importar muito com quem está ouvindo e se vão chegar a uma resposta. Pedro Almodóvar, aos 76 anos e 24 longas-metragens depois, parece ter se tornado essa pessoa. E Natal Amargo reflete exatamente esse momento.
A trama se desenrola em duas histórias paralelas (uma marca de Pedrito, aliás) que se passam entre Madri e as Ilhas Canárias. Elsa, publicitária vivida por Bárbara Lennie, perdeu a mãe durante o Natal, mas, como toda profissional de comunicação workaholic, segue trabalhando, porque o choque foi demais para ela se permitir parar e viver o luto. Raúl, roteirista interpretado por Leonardo Sbaraglia, está em crise criativa e decide resolver esse problema da forma mais preguiçosa possível: escrever sobre a própria vida, o que na prática significa escrever sobre a vida das pessoas ao seu redor, com ou sem o consentimento delas.
E uma história está dentro da outra, pois Elsa é uma personagem dos roteiros de Raúl.
Assim, ele vai tecendo um roteiro tal qual uma colcha de retalhos de histórias dificílimas, para o qual ele “pega emprestada” a vida de sua assistente Mônica (Ainta Sanchéz-Gijón). O espectador assiste ao roteiro sendo criado ao mesmo tempo em que vive a história que o origina. Ficção dentro da ficção, memória dentro da memória, a estrutura dobrando sobre si mesma como quem tenta ver as próprias costas no espelho.
E aqui está a observação que o filme não enuncia, mas deixa no ar como cheiro de cigarro em apartamento fechado: até onde vai o direito do artista de usar a dor alheia? Raúl é um alter ego evidente de Almodóvar e ninguém no cinema finge que não é, e a questão ética que o filme levanta sobre ele é a mesma que se poderia levantar sobre o próprio diretor espanhol. A genialidade está em não explicar e nem resolver esse dilema. O filme não absolve nem condena. Ele apenas observa, com aquela crueldade elegante, passivo-agressiva que é a marca do manchego.

O personagem chora, o público ri, Almodóvar também
Em um dado momento do filme, que ele faz parecer um acidente, um diálogo trivial, sem importância, Mônica olha para Raúl, o diretor dentro do filme e, num momento de fúria enquanto critica sua obra, diz meio como quem deixa uma verdade dolorida escapar: “E pare de falar sobre o luto da sua mãe!”.
A plateia ri. Almodóvar também deve ter rido, na cadeira de diretor, sabendo exatamente o que estava fazendo. Afinal, ele ousou colocar na boca de uma personagem a crítica que a imprensa especializada repete sobre seus filmes há décadas e transformou isso em cena. É a autoficção levada ao limite: expor a ferida, mostrar que sabe que está expondo, e ainda rir disso. Um ótimo traço da maturidade é saber rir de si mesmo.
As mulheres de Natal Amargo fazem o que as mulheres de Almodóvar sempre fizeram: carregam. A si mesmas e aos outros. Elsa, que perdeu a mãe, tenta desesperadamente salvar Natália (Milena Smit) e Patrícia (Vicky Luengo), talvez numa vã tentativa de lidar com a perda da mãe que não conseguiu assimilar.
Mônica, que está passando por uma situação muito delicada em sua vida pessoal, decide pedir as contas e deixa de ser o braço direito de Raúl, de quem cuidava como uma babá, para finalmente lidar com sua própria vida. Rossy de Palma aparece como antípoda cômica de Elsa nos primeiros atos, e ainda temos Amaia Romero que canta “Las simples cosas”, num momento que se torna um ponto de virada emocional do filme.
Visualmente, Natal Amargo é Almodóvar em modo mais contido, o que não significa menor. A fotografia de Pau Esteve Birba abandona o vermelho saturado de sempre por tons mais fechados, quase anêmicos, como se a memória estivesse desbotando em tempo real. Lilases, cinzas, preto das pedras vulcânicas de Lanzarote em contraste com o laranja do céu.
Aliás, a ilha das Canárias já havia aparecido em outro filme do diretor, Abraços Partidos, de 2009, que também carrega dentro de si um filme, também protagonizado por um cineasta que usa a vida alheia como matéria-prima.
A relação do diretor com a locação é peculiar. Almodóvar chegou lá por uma foto que tirou na praia de El Golfo nos anos 1990: um casal se abraçando na areia negra vulcânica, o contraste da água verde do mar e do solo escuro que o arrebatou a ponto de querer filmar ali. Quando um lugar aparece duas vezes na obra de um diretor assim, ele deixou de ser locação e virou uma pequena obsessão. Em Natal Amargo, as crateras de terra negra onde Elsa e Natália caminham entre as videiras são de uma beleza que desconforta, como tudo que é belo e ao mesmo tempo incompreensível. Uma curiosidade: o escritor José Saramago, de As Intermitências da Morte, escolheu viver seus últimos anos exatamente ali. Coincidência? Pura poesia.

A trilha de Alberto Iglesias, colaborador histórico do cineasta e vencedor do prêmio em Cannes, onde o filme recebeu nove minutos de ovação, dialoga com o legado de Chavela Vargas numa sobriedade que surpreende. Não é música para provocar lágrimas. É música para o momento depois das muitas lágrimas, quando você já está sentada olhando para a parede e ainda não sabe o que fazer.
Aliás, para quem não conhece, Chavela Vargas é um patrimônio que Almodóvar faz questão de preservar: ela foi uma cantora costarriquenha naturalizada mexicana, uma das vozes mais marcantes da música latino-americana do século XX. Era conhecida por interpretar rancheras com uma intensidade que não tinha nada de folclórico: ela pegava canções escritas para homens, cantava no masculino, bebia, fumava charuto e vestia poncho vermelho num México dos anos 1950 que não estava preparado para nada disso.
Teve uma relação próxima e documentada com Frida Kahlo. Viveu décadas no ostracismo, alcoolismo e exílio. Voltou aos palcos aos 70 anos como se nunca os tivesse abandonado e se tornou ícone gay antes da palavra existir nesse sentido e significar o que significa.
Almodóvar a descobriu tarde e se apaixonou por ela. Ela aparece em Kika, em Fale com Ela, em A Flor do Meu Segredo e agora, Natal Amargo. Morreu em 2012 no México.
Há quem diga que Almodóvar está confortável demais em sua própria genialidade, e que a fala de Mônica tem total fundamento: ele só fala sobre si mesmo e a mãe morta em seus filmes. Natal Amargo não tem a urgência crua de Má Educação nem a devastação contida de Dor e Glória. Mas talvez urgência não seja o que ele estava buscando desta vez, não nessa época da vida.
Há algo no filme que se parece menos com uma confissão e mais com um acerto de contas, do tipo que você faz consigo mesmo quando já não precisa provar nada para ninguém e pode se dar ao luxo de olhar para o que construiu e perguntar, em voz alta, se valeu o preço. A resposta que ele dá, através de Raúl, através de Elsa, através da metalinguagem, é ambígua como só uma resposta de Almodóvar poderia ser.
Não é sim. Não é não. Ou talvez. Quem sabe?
É a pergunta ficando no ar enquanto os créditos sobem e você sai do cinema com aquela sensação de ter assistido a algo que não terminou quando as luzes se acendem.