Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

As muitas camadas d’A Odisseia de Nolan

Se você, como eu, tem um tantinho de bode do cineasta de Interestelar, provavelmente este filme (que deve ser visto no cinema, aliás) vai calar a sua boca…

Por THIAGO CARDIM

Capítulo 1 – O ELEFANTE BRANCO

Antes de sequer começar a falar sobre o filme A Odisseia, adaptação do diretor Christopher Nolan para a clássica epopeia do escritor/poeta grego Homero, talvez seja importante, fundamental até, tirar um grande elefante branco da sala. Ou melhor, mais do que um. Daqueles que correm livres, leves e soltos em meio ao chorume das redes sociais.

Porque, assim, se você é do tipo que está pedindo “precisão histórica” da produção (incluindo da armadura de Agamênon); se você é da turma que diz que Lupita Nyong’o não pode ser Helena de Troia porque ela era originalmente uma grega branca e não, veja, uma personagem fictícia filha de Zeus e nascida de um ovo de cisne (!); se você é da galera que reclamou da presença de um homem trans como Eliott Page no elenco; se você é daqueles sujeitinhos que diz que este filme é mais uma “propaganda da indústria woke hollywoodiana”.

Se você é qualquer um destes… POIS FODA-SE. Pegue o seu racismo e a sua transfobia e queira por favor retirar-se deste texto.

Pois é bom que se diga, antes de mais nada, que o texto de Homero é uma trama absolutamente inventada e não um registro fiel de algo que aconteceu – ou então você me diga onde diabos estavam na Grécia Antiga os ciclopes, gigantes, sereias e bruxas que transformam homens em porcos (se bem que tem gente que acredita em um livro com uma jumenta que fala, homens que ganham superpoderes graças aos seus cabelos e seres criados a partir do barro e da costela de seus pares, então talvez eu não me surpreenda muito…).

E é bom que se lembre TAMBÉM que A Odisseia não fala especificamente sobre a Guerra de Troia. Na verdade, a sua narrativa se passa DEPOIS que a batalha acontece, conforme narrado no livro anterior, A Ilíada. Portanto, nada de Aquiles e seu calcanhar aqui.

Fechamos este capítulo? Pois que bom.



Capítulo 2 – O SÉQUITO DE NOLAN

Assim, vou ser sincero aqui com vocês e confessar que eu NUNCA fui Nolanzete. Jamais. Prometo mesmo que nem vou entrar no mérito de que o Snyderverso sequer existiria caso não fosse o Batman pretensamente ultrarrealista de Nolan. O papo aqui é outro. Nunca fui devoto da obra do cineasta – enquanto gosto muito de “Amnésia” (2000), “O Grande Truque” (2006) e “Batman: O Cavaleiro das Trevas” (2012), acho “A Origem” (2010), “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012) e “Tenet” (2020) bem qualquer coisa.

Isso sem falar, claro, do sempre divisivo “Interestelar” (2014), que acho apenas um bom filme…mas nada, vejam, UAU, que tenha mudado a minha vida (como sei que é pra muita gente). Em resumo, acho Nolan muito bom quando acerta, só que isso não significa que ele é irrepreensível e acerta sempre, tal qual defende seu culto.

No entanto… também preciso admitir que peguei um tantinho de ranço de Nolan nos últimos anos. Um tanto pela postura da torcida, deveras irritante com quem tende a discordar, outro punhado pela postura com um quê de arrogante do próprio diretor em algumas entrevistas, quase como alguém que de fato acredita que é o gênio que seus seguidores defendem que ele é.

Portanto, digo sem vergonha alguma que fui assistir A Odisseia meio que preparado para não gostar. Verdade, ué. E digo igualmente sem qualquer vergonha que cuspi pra cima e caiu bem ali, no meio da minha testa. Porque ainda que eu tenha algumas pequenas ressalvas, senhoras e senhores, A Odisseia é um FILMAÇO.



Capítulo 3 – O ABRAÇO DA MAGIA

Diferente do que aconteceu com “Troia”, filme NHÉ de 2004 dirigido por Wolfgang Petersen e estrelado por Brad Pitt, A Odisseia não deixa de lado os elementos mitológicos em busca de um pretenso retrato histórico fidedigno. Pelo contrário, aliás. Além de entregar uma fotografia maravilhosa (e que, obviamente, é muitíssimo mais bem aproveitada numa telona de cinema e, caso seja possível, numa telona de cinema no maior tamanho a ser encontrado) e um conjunto de atuações magníficas de um elenco estelar (Matt Damon e Anne Hathaway estão particularmente poderosos, além de um John Leguizamo que mais uma vez se mostra criminosamente subestimado), Nolan abraça a magia sem medo de ser feliz.

Só que o uso que ele faz deste tipo de elemento é bastante inteligente, porque eles não existem para ser estrelas na utilização de belíssimos efeitos especiais, no melhor esquemão blockbuster – mas sim para aplicar ainda mais humanidade ao enredo que, apesar de seus tons místicos, é basicamente sobre como a guerra e todas as decisões que toma no front de batalha podem transformar até um homem visto como “bondoso” em um monstro.  

Trancar os soldados na caverna com o gigantesco ciclope, de visual deformado e caminhar quase desengonçado, serve para mostrar o descompasso entre eles e como, no fim, aquele que se enxerga tão diferente, o “inimigo”, pode ter as mesmas fragilidades que você (e de medo, rapidamente você passa a sentir pena dele). Reunir os gregos em torno da mesa de jantar de Circe (a bruxona magistralmente interpretada por Samantha Morton, naquela que é de longe a minha sequência favorita do filme, tão aflitiva e intensa quanto genial) serve para mostrar que o efeito do feitiço só revela quem os homens são e quais decisões são capazes de tomar em batalha, ainda que usem a desculpa de “estava apenas cumprindo ordens” – e a banalidade do mal descrita por Hannah Arendt mandou um beijo.

Tudo isso estava, de uma forma ou de outra, em Homero. E Nolan, obviamente, soube como representar este esqueleto narrativo em sua obra. Sim, sim, Nolan opta por mudanças no enredo, isso é claríssimo pra quem já teve a chance de ler a obra original. Ele faz mudanças de linguagem, ele corta pedaços, ele estica outros, ele traz personagens que ali não existiam originalmente, ele opta, como de costume, por contar a história de forma não linear (pulando de momentos do passado pro presente)… Tanto faz. Porque o espírito d’A Odisseia está ali, integralmente. E é isso que importa.

Afinal, em nome de todo o panteão liderado por Zeus, voltemos a repetir: livro é livro, filme é filme. E o que eu quero não é uma adaptação ipsi litteris, mas sim um bom filme INSPIRADO noutra obra (seja livro, gibi, videogame, jogo de tabuleiro ou brinquedo de parque de diversão).

Talvez eu tenha achado que, nos primeiros 20 a 25 minutos de trama, Nolan poderia ter sido um tanto mais dinâmico? Ter dado um pouco mais de força, de sentimento a alguns momentos, para que o espectador mergulhasse mais assertivamente na história? Talvez. Mas aos poucos, conforme vamos nos envolvendo, tudo ganha corpo de tal maneira que esta sensação fica rapidamente pra trás.



Capítulo 4 – AS TAIS CAMADAS DESTA ODISSEIA

Chega a ser divertido perceber que, de alguma forma, A Odisseia conversa com alguns temas que são bastante caros ao diretor, analisando a sua obra pregressa.

Falei de “Insterestelar”, né? Pois aqui, o que vemos na trajetória de Odisseu é justamente a ação implacável do tempo sobre um pai e sua relação com o filho (Telêmaco, vivido por Tom Holland), sobre como as cicatrizes de suas escolhas muitas vezes equivocadas o transformaram em alguém diferente – e como este alguém pode sequer imaginar o impacto que ainda teria no lar que outrora deixou para trás em busca de uma “honrada missão”.

Nolan também foi o diretor do épico de guerra “Dunkirk” (2017) – e é impossível, no mundo em alta tensão bélica que vivemos hoje, deixar de trazer este tipo de paralelo à tona ao fim dos créditos d’A Odisseia. Quando as portas de Troia se abrem nas lembranças de Odisseu, o que entra é um ódio intenso represado. Quais os reais motivos daquela batalha que já durava uma década, nem eles sequer se lembravam mais. Fúria e sangue foram espalhados naquelas ruas, inclusive o de inocentes que não trajavam armaduras de batalha e só estavam assustados com o fogo e os gritos.

E, ainda assim, tiveram suas gargantas cortadas.

Se você não consegue enxergar as analogias, em especial na descoberta de quem é o tal “povo do mar”, olha… melhor começar a prestar mais atenção ao seu redor.

A Odisseia também é, de algum modo, um filme sobre fé. Não estamos falando do deus católico, claro, mas sim de nomes como Zeus, Atena, Apolo, Poseidon. Há quem enxergue na inevitabilidade das ordens divinas um Nolan quase carola, ajoelhado diante das figuras sagradas. E juro que até entendo a crítica.

Mas eu consigo ver uma posição diferente crescendo justamente do outro lado, quando Odisseu se coloca contra os deuses, enfrenta suas decisões e, mesmo seguindo em frente e descobrindo que, ao errar, vai ter que encarar consequências brutais, ele permanece sendo HUMANO. Acreditando e sofrendo. E vendo um rosto HUMANO numa manifestação sagrada (talvez uma das decisões artísticas mais sutis e delicadas de Nolan aqui, preciso dizer).

Porque, no fim, sejamos nós reis, guerreiros, bruxas ou meros criados, continuamos sendo humanos. Com qualidades e muitos defeitos. E sempre enfrentando a nossa própria Odisseia pessoal.

Valeu, Nolan, por provar que, desta vez, era eu quem estava enganado.

(mas só desta vez, hein?)