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Noturnos prova que o melhor terror dos quadrinhos não precisa de monstros

Premiada obra da espanhola Laura Pérez finalmente chega ao Brasil pela Risco Editora, reunindo histórias em que fantasmas, sonhos e memórias se misturam numa das vozes mais originais dos quadrinhos europeus contemporâneos.

Por GABRIELA FRANCO

Existe um tipo de “terror” que não depende de sustos: ele nasce quando uma casa parece respirar sozinha. Quando uma rua deserta parece esconder alguma coisa. Quando um sonho insiste em voltar noite após noite. Ou quando você acorda sem saber exatamente onde termina a memória e começa a imaginação.

É justamente nesse território nebuloso que Laura Pérez construiu Noturnos, um dos quadrinhos europeus mais celebrados dos últimos anos e que finalmente chega ao Brasil pela Risco Editora, em campanha de financiamento coletivo já concluída com sucesso no Catarse.

Publicado originalmente pela espanhola Astiberri Ediciones em 2024, Noturnos reúne seis histórias independentes conectadas por uma mesma sensação: a de que existe um mundo invisível convivendo silenciosamente com o nosso. Um universo feito de presenças, lembranças, coincidências, sonhos e pequenos acontecimentos que desafiam explicações racionais sem nunca recorrer ao horror explícito.

É uma HQ sobre fantasmas… mas talvez não sobre os fantasmas que você está imaginando.

Histórias que acontecem quando o resto do mundo vai dormir

Ao contrário da maioria das narrativas de terror, Noturnos não apresenta um protagonista único nem constrói uma grande trama contínua: cada um dos capítulos acompanha personagens diferentes. Mas, como diz a frase que amarra a edição, “A noite não nos pertence. Ela guarda seus próprios mistérios”.

Uma colisão traumática em uma estrada mal iluminada; uma história de ninar que dilui as fronteiras do imaginário; um passeio pela floresta que conduz a símbolos estranhos. Ou talvez a solidão e a inteligência artificial encontrando lugar na cama de uma mulher que hesita em preencher o vazio com a irrealidade; uma cabana que revela que nem tudo é o que parece; uma criança que parece se recordar de algo a mais sempre em meio à escuridão…

Essencialmente, pessoas comuns vivendo acontecimentos discretos, mas profundamente inquietantes, captando fragmentos de suas vidas enquanto elas atravessam a noite. Porque Laura Pérez nunca oferece respostas completas. Para ela, o sobrenatural permanece sempre ambíguo.

É aquela sensação de “aquilo aconteceu mesmo?”.  Foi um sonho? É uma lembrança? No fim, importa pouco. Porque o centro da narrativa nunca é explicar o mistério, mas sim fazer o leitor sentir que ele existe.

Nesse aspecto, Noturnos dialoga muito mais com David Lynch, Haruki Murakami ou Julio Cortázar do que com Stephen King ou Junji Ito.

O medo aqui não nasce do choque – ele parte da estranheza.

Uma das HQs mais premiadas da Europa recente

Não demorou para que Noturnos se transformasse em um dos grandes destaques dos quadrinhos espanhóis. O gibi venceu em 2024 o ACDCómic, premiação da Associação de Críticos e Divulgadores de Histórias em Quadrinhos, além de ter faturado também o Prêmio Antifaz do Salón del Cómic de Valencia, em 2025, e o Prêmio Lorna de melhor quadrinho nacional.

Já fora da Europa, a obra foi selecionada como uma das melhores do ano pelo jornal The Washington Post e pela Biblioteca Pública de Nova York, além de figurar como finalista em premiações na ComicCon de Nápoles e no Comic Barcelona. Isso sem falar na indicação ao prestigiado Prêmio Eisner na categoria de Melhor Edição Americana de Material Internacional, por seu lançamento pela Fantagraphics.

Tudo isso acabou consolidando Laura Pérez como uma das principais autoras da nova geração dos quadrinhos espanhóis.

Boa parte desse reconhecimento tem relação direta com sua capacidade de trabalhar atmosferas. Se muitos quadrinistas contam histórias através da ação, Pérez prefere construir estados emocionais. Seus silêncios dizem tanto quanto seus diálogos. Suas páginas parecem convidar o leitor a caminhar lentamente. É um tipo de leitura raro em tempos de consumo acelerado.

Quem é Laura Pérez?

Nascida em Valência, Laura Pérez pertence a uma geração de autores espanhóis que transitam com enorme naturalidade entre quadrinhos, ilustração, animação e design gráfico.

Antes de Noturnos, chamou atenção internacional com obras como Tótem (que chegou a ser anunciada aqui no Brasil pela nVersos, mas segue sem previsão de lançamento), Ocultos e Náufragos. Em todas elas, seu desenho tornou-se imediatamente reconhecível.

Estamos falando de linhas limpas, com poucos excessos, paleta de cores cuidadosamente controlada, cenários silenciosos e figuras humanas quase estáticas. Tudo parece existir num estado permanente de suspensão. É um traço, aliás, que produz exatamente o efeito contrário da maioria dos quadrinhos de horror.

Na obra dela, quanto mais calmo parece o ambiente, parece que maior fica a tensão.

Mas talvez milhões de pessoas já conheçam Laura Pérez sem sequer perceber. Porque, além de ilustrações em publicações jornalísticas como The New York Times, Vanity Fair, National Geographic e The Washington Post, foi ela quem criou a premiada sequência de abertura da série Only Murders in the Building, da Hulu/Disney+, transformando cada episódio em uma pequena animação repleta de detalhes, referências visuais e humor sofisticado.

O trabalho lhe rendeu reconhecimento internacional também fora do universo dos quadrinhos e demonstrou como sua linguagem visual funciona igualmente bem em outras mídias.

A Astiberri e a nova geração dos quadrinhos espanhóis

Originalmente, Noturnos foi publicado pela Astiberri Ediciones. Fundada em Bilbao em 2001, a editora tornou-se uma das maiores referências dos quadrinhos autorais em língua espanhola. Seu catálogo reúne alguns dos principais nomes da produção europeia contemporânea, como Paco Roca, Antonio Altarriba, Teresa Valero, Ana Penyas, Albert Monteys e a própria Laura Pérez.

Ao longo das últimas duas décadas, a Astiberri ajudou a consolidar uma cena espanhola que passou a disputar espaço com os tradicionais mercados francês e italiano quando o assunto são graphic novels voltadas ao público adulto. Publicar por lá significa, hoje, integrar um catálogo que privilegia obras autorais, experimentação narrativa e qualidade editorial.

Não por acaso, boa parte desses livros acaba atravessando fronteiras e conquistando leitores em diferentes idiomas.

A Risco e o trabalho de trazer esses quadrinhos para o Brasil

No Brasil, quem assume essa missão é a Risco Editora. Desde sua fundação, em 2016, a editora sob comando dos sócios Gabriel Calfa e Marcus Leopoldino vem construindo um catálogo que foge das escolhas mais óbvias do mercado nacional.

Enquanto parte do setor concentra esforços em super-heróis ou mangás, a Risco investe em autores independentes, quadrinhos latino-americanos, europeus e obras de forte identidade artística.

Foi assim com publicações de nomes diversos como Didier Comès, Charlie Moon, Carlos Trillo, Paul Kirchner, Lucie Bryon, Alfonso Font e Horacio Altuna.

Mais do que publicar HQs, a Risco vem ajudando a ampliar o repertório disponível para leitores brasileiros interessados em narrativas gráficas que desafiam formatos convencionais.

Um terror que continua ecoando depois da última página

Existe uma característica curiosa em Noturnos. Você termina a leitura sem sentir medo, mas alguns dias depois ainda continua pensando naquelas páginas.

Seja naquela janela aberta, naquele corredor, naquele personagem que talvez estivesse sonhando.

Ou talvez não.

Laura Pérez parece entender que o verdadeiro horror raramente faz barulho. Ele apenas permanece, esperando a noite cair outra vez.



NOTURNOS está em pré-venda aqui, no site da Risco.


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