Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

As confissões da jornada dançante de Madonna

Com a continuação de um de seus discos mais bem-sucedidos, a rainha do pop entrega um álbum cheio de história… mas daquele tipo que é feito pra se acabar na pista

Por GABRIELA FRANCO


Em 1978, Madonna Louise Veronica Ciccone largou a faculdade de dança na Universidade de Michigan, onde estudava com uma bolsa, e foi para Nova York com apenas 37 dólares no bolso, disposta a seguir carreira profissional em dança moderna. Lá, treinou com nomes que são referência absoluta na área, como Alvin Ailey e a coreógrafa Pearl Lang.

Na companhia de dança, começou a namorar o integrante de uma banda em ascensão chamada Breakfast Club, um sujeito chamado Dan Gilroy. Em 1980, os dois foram para Paris e lá Madonna trabalhou como showgirl por alguns meses – mas foi ali que ela se apaixonou pela combinação de cantar e performar ao vivo. Voltou pra NY, ficou uns meses na banda do namorado, mas decidiu contratar uma empresária pra ver se encaixava em alguma gravadora.

Emplacou o hit “Everybody” em 1982 e fechou com a SIRE Records, um braço da Warner, e daí o resto é história. Uma das histórias mais bem-sucedidas da música pop, aliás que rendeu a ela o título de RAINHA e abriu caminho para divas como Lady Gaga, Britney Spears, Beyoncé e Rihanna e muitas outras.

Os números não mentem: são mais de 300 milhões de discos vendidos no mundo, o que a torna a artista feminina mais bem-sucedida da história segundo o Guinness World Records. Ela também detém o recorde de mais faixas número 1 na Dance Club Songs da Billboard, com nada menos do que 50 músicas no topo da parada, mais que qualquer outro artista da história.

Mas o título de Rainha não foi conquistado só por conta das paradas e sim pelo amor de seus súditos. Nos anos 1980, quando Reagan evitava até pronunciar a palavra AIDS em público e a doença ainda era chamada de “câncer gay”, Madonna já passava pela dor de ter que enterrar seus amigos. Perdeu Martin Burgoyne, com quem dividiu apartamento no Lower East Side antes da fama, e o artista plástico Keith Haring. Usou seu sucesso e dinheiro para quebrar esse silêncio, falou sobre o uso de camisinha quando a Igreja Católica proibia o tema, contratou dançarinos abertamente gays, muitos vivendo com HIV, e em 1991 subiu ao palco do amFAR pra dizer que não importava se ela era ou não soropositiva, o que importava era como a sociedade tratava quem era.

Um de seus maiores sucessos, “Vogue” nasceu direto dos ballrooms underground de Nova York promovidos pela comunidade LGBTQIPN+ negra e latina, especialmente a House of Xtravaganza, no Harlem, décadas antes de “vogar” virar linguagem de reality show. 

Mas por que eu quis fazer esse retrospecto da carreira da Madonna? Justamente por conta do lançamento de seu décimo quinto álbum, o Confessions II, continuação do maravilhoso “Confessions on a Dancefloor” de 2005.

O disco chegou já no topo da Billboard 200, tornando Madonna a primeira artista a emplacar um álbum número 1 em três décadas diferentes, empatando com os Beatles como únicos artistas com 10 álbuns e 10 singles número 1 tanto nos EUA quanto no Reino Unido. 

Ou seja: a mulher continua atirando pra matar.

A jornada de uma noite (e uma vida) inteira

O que poucos álbuns pop ainda fazem hoje Confessions II faz com louvor: as 16 faixas são mixadas como um set de DJ contínuo, onde o refrão estendido de uma música desliza direto para a introdução da próxima, sem cortes, sem pausas. Não é um álbum para entrar em playlists, é uma playlist em si, pensada pra ser ouvida do início ao fim, como uma noite inteira dentro de uma balada, do primeiro drink à luz do dia entrando pela porta do clube.

É uma jornada literal pelo maravilhoso mundo da dança: abre com “I Feel So Free”, onde a pista de dança é apresentada como sendo um santuário, o espaço onde liberdade, música e conexão coletiva se fundem. É o convite para comungar. E vamos combinar, se tem alguém que adora trazer a questão da religião e da sacralidade para seus trabalhos, esse alguém é a Madonna.

Em “Good For The Soul”, o tom fica mais espiritual, quase um mantra sobre respirar, dançar e simplesmente estar vivo, como se ela estivesse se aquecendo pro que vem a seguir.

A partir daí, a coisa esquenta. “Love Without Words” celebra o corpo como linguagem, dispensando palavras em favor do house, do trance, do techno. “Bizarre”, com Martin Garrix, traz um tom mais intenso, quase agressivo, sobre o lado imprevisível do amor, com uma linha sobre um “astro de cinema de olhos azuis profundos” que reacendeu especulações sobre seu abusivo ex-marido, o ator Sean Penn. “School” mantém a sensualidade como narrativa, com vocais sussurrados que remetem à era Erotica.

E então, a música vira aquele globo de espelhos. Em “Danceteria”, sobre as batidas que ecoam o supracitado “Everybody”, seu primeiro single, Madonna narra literalmente a noite em que tudo começou: o clube nova-iorquino que dá nome à faixa, o momento em que o DJ Mark Kamins tocou sua demo e mudou sua vida, apresentando Madonna ao mundo. É o presente encontrando o passado dentro da própria música.

Seguimos com cada vez mais peso, como uma boa festa de arromba pede… mas agora temos algo mais confessional. “Betrayal” revisita a relação conturbada com a madrasta, Joan Ciccone, depois da morte da mãe biológica de Madonna quando ela tinha só 5 anos: “Pegue o martelo e bata o prego (fazendo alusão à canção italiana ‘Datemi un Martello’, de Rita Pavone? Quem sabe?), você nunca vai ocupar o lugar da minha mãe.”

Em “My Sins Are My Savior”, com Stromae cantando em francês, transforma seus (e nossos) pecados do passado em símbolos de amadurecimento, ecoando novamente a sonoridade de Erotica (1992). “Love Sensation” volta a acelerar o pulso, comparando o amor a um vício do qual ela não quer se livrar.

Agora temos a virada mais delicada do disco. “Fragile” é uma homenagem de coração aberto ao irmão que ela perdeu para o câncer, Christopher Ciccone, revisitando uma relação turbulenta e amorosa ao mesmo tempo. Não é a primeira vez que Madonna canta sobre a morte; aliás, nessa música ela também fala sobre ter encarado a morte de perto.

Em junho de 2023, durante os ensaios da Celebration Tour, a diva foi encontrada desmaiada no banheiro de casa. O diagnóstico foi uma infecção bacteriana grave que evoluiu para sepse, com risco de falência múltipla de órgãos, e ela passou quatro dias inconsciente, entubada e em coma induzido na UTI. Anos depois, contaria que viu a própria mãe, “quase do outro lado”, e que a primeira palavra que disse ao acordar foi “não”. Resposta, segundo ela, a uma pergunta de Deus sobre se era hora de ir embora. Saiu do hospital, retomou a turnê quatro meses depois, e hoje resume o episódio em tom de piada no palco: “tenho um quadril de titânio.”

Depois dessa pedrada vem outra música super importante também:  “The Test” traz a filha Lourdes Leon dividindo com ela os vocais pela primeira vez, mãe e filha curando feridas emocionais juntas sobre uma produção pulsante da venezuelana Arca, e assim, o disco literalmente passa o microfone pra próxima geração, dentro da própria família.

O álbum fecha em “L.E.S Girl”, voltando pra garota que foi morar em Lower East Side naquele anos 1970 com 37 dólares, aluguel atrasado, encontros de madrugada, cada pedaço de história que construiu a mulher que ela se tornou antes do seu nome brilhar em neon.

Se joga na pista

Ouvido do início ao fim, Confessions II não é uma sequência que tenta repetir uma fórmula do álbum de 20 anos atrás. É a obra de uma mulher de 67 anos contando, em tempo real, a história nada linear de uma vida fascinante, que consiste em grande parte em entrar numa pista de dança para (re)lembrar de quem ela verdadeiramente é. A diferença é que hoje ela sabe exatamente quem é, e mais do que isso, sabe que não precisa pedir licença pra ninguém pra isso.

Aos 19, disseram que ela era jovem demais para sonhar tão alto.

Aos 67, dizem que é velha demais para continuar.

Madonna nunca deu a mínima pra nenhum desses comentários. Apenas seguiu, contra tudo e contra todos. Décadas depois de deixar Michigan com 37 dólares no bolso pra dançar, ela provou que ainda está na pista. E a pista continua sendo dela. 

Post tags:
Comments
  • Que texto incrível! Com essa retrospectiva, fiquei com vontade de ouvir o álbum.

    21 de julho de 2026

Sorry, the comment form is closed at this time.