Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

O nazismo virou pop?

Agressão na UFRJ reacende, entre outras coisas, o debate sobre como o uso de símbolos nazistas foi naturalizado dentro da cultura pop


Por GABRIELA FRANCO


Um estudante de História foi cercado, xingado e agredido por colegas na noite de terça-feira (25), no prédio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e do Instituto de História (IFCS-IH) da UFRJ, no Centro do Rio, após aparecer no campus usando um broche tecnicamente com uma mensagem antinazista (uma suástica cruzada pelo símbolo de proibido), mas também uma camiseta da banda britânica Death in June com o símbolo da Totenkopf (“cabeça da morte”, a caveira da qual a Schutzstaffel, a SS, se apropriou durante o regime nazista). 

O sujeito acabou sendo expulso do prédio pelos próprios colegas. A universidade abriu apuração e classificou o episódio como grave, repudiando “qualquer manifestação de apologia ao nazismo, fascismo, racismo, antissemitismo e demais formas de intolerância” — e também a violência. Não há registro, até agora, de boletim de ocorrência ou identificação dos agressores.

Em um ótimo vídeo publicado no Instagram, rebatendo uma fala absolutamente problemática do jornalista Pedro Doria, o criador de conteúdo Arapê Malik mostra um outro lado do ocorrido, reforçando falas e comportamentos racistas que o estudante teria proferido, e relembrando como a condenação à resposta violenta poderia ter sido muito diferente caso a cor de pele dele fosse diferente.

Mas aqui, queremos levantar ainda um OUTRO ponto. Porque o caso reacende TAMBÉM a polêmica em torno de como símbolos nazistas, como o que estampa a camiseta da banda Death in June, foram naturalizados e fazem parte da cultura pop e de consumo dos jovens e até dos não tão jovens assim.

Se se veste como um nazista, age como nazista e se parece com um nazista, então ele é…?

Símbolos nazistas migraram, ao longo de sete décadas, do território do trauma histórico e, na definição da filósofa Hannah Arendt, do “mal radical”: um projeto que tornou “os seres humanos supérfluos enquanto seres humanos”, um dos fenômenos mais hediondos já produzidos pela humanidade… para o do figurino, e boa parte da cultura pop tratou essa apropriação como mero estilo, e não como um posicionamento político.

A crítica cultural tem até nome para isso: “nazi chic”, a apropriação de uniformes, símbolos e parafernália do Terceiro Reich como estética, esvaziada (se é que isso é possível) de seu conteúdo ideológico. Não começou com o rock: motociclistas dos Hells Angels usavam cruzes de ferro e suásticas já nos anos 1950; o próprio fundador do clube, Sonny Barger, dizia que a “obsessão por parafernália nazista” não era política, e sim fetiche de troféu de guerra. Surfistas californianos dos anos 1960 se autodenominavam “surf nazis” e pintavam suásticas em pranchas apenas para “chocar”, para serem rebeldes.

Eis a palavra mágica: rebeldia. A partir daí, o rock abraçou essa lógica com entusiasmo. Ron Asheton, dos The Stooges, chegou a tocar com uma braçadeira com a suástica nos anos 1970. No auge do punk, Sid Vicious, do Sex Pistols, usou camisetas com a suástica como provocação anti-establishment; a ideia, segundo pesquisadores do período, era “chocar e ofender”, não professar fé nazista. Quem não lembra, por exemplo, de uma foto dos jovens James Hetfield e Lars Ulrich, do Metallica, fazendo a saudação do sieg heil com o braço estendido? Ou mesmo das camisetas com suásticas que o Sepultura usou ali nos seus primórdios, de banda independente em Belo Horizonte? “A gente tava tentando apenas chocar as pessoas, sem entender a gravidade ou o peso real do símbolo”, tentou justificar o baterista Iggor Cavalera, anos mais tarde. Ou, como defenderam alguns, rebeldia estética típica do metal extremo.

Mas não acaba aí: Lemmy Kilmister, do Motörhead, colecionou por décadas objetos do Terceiro Reich e resumiu a defesa que se tornaria padrão em toda a cena industrial e neofolk: colecionava “por estética, por interesse histórico”, sendo ele mesmo ateu e anarquista. É exatamente o argumento que Douglas Pearce, da banda Death in June, aquela da camiseta do garoto da UFRJ, repete desde os anos 1990: a ideia de que “as pessoas confundem o símbolo com o significado”.

Essa naturalização também aconteceu fora da música: no cinema de exploração (“nazisploitation”) dos anos 1960-70 com títulos como “Ilsa, She Wolf of the SS” (1974), sobre uma comandante de campo que conduz experimentos brutais nas prisioneiras, seguida por “Ilsa, Harem Keeper of the Oil Sheiks” (1976), “Ilsa, the Tigress of Siberia” (1977) e “Ilsa, the Wicked Warden” (1977) – essas últimas produções, já nem mais ambientadas no nazismo, só reaproveitando o nome pela fama de uma “franquia”.

Na Itália, o subgênero também bombou nos anos 1970: “SS Experiment Camp” (1976) e “SS Girls” (1976), de Sergio Garrone e Bruno Mattei; além de “La Bestia in Calore” (1977), banido no Reino Unido por cenas de tortura.

Mas a estética e aparição de símbolos nazistas são frequentes em todas as áreas da cultura pop, desde moda (o estilista John Galliano, que já declarou sua admiração por Hitler, será o homenageado do próximo Met Gala, e a Zara já teve que recolher roupas que lembravam uniformes que vítimas do Holocausto usavam nos campos de concentração) até artes plásticas, quadrinhos e redes de fast-food. 

São presenças frequentes em produtos de cosplay e mangás no Japão e há ainda casos como o do restaurante “Hitler Fried Chicken”, na Tailândia, e da loja “Hitler’s Cross”, em Mumbai, batizados “sem qualquer intenção política”, por jovens com pouca ou nenhuma informação histórica sobre o  Holocausto, e só renomeados depois de repercussão e rejeição internacional.

Isso sem precisar mencionar tão a fundo Phil Anselmo, do Pantera, em seu momento “foi mal, gritei white power porque tava doidão”; ou Alex Terrible, da banda russa Slaughter to Prevail, que tatuou o chamado sol negro (Schwarze Sonne) e saía de rolê com milícias de extrema-direita, mas “foi mal, eu era jovem e não entendia isso, só cometi erros estúpidos”; ou ainda Danzig, ex-Misfits, que andou vendendo camisetas e pôsteres com o mesmo símbolo do sol negro.

Pois então…

O ponto cego dessa longa tradição é sempre o mesmo, segundo pesquisadores do tema: tratar o design totalitário como “bonito” ou “poderoso”, dissociando a forma do conteúdo que ela representa. Mas vamos lá, trata-se de uma escolha e ela banaliza o significado desses símbolos até para quem não tem formação política alguma. É o mecanismo que permite que uma banda como a Death in June opere por 40 anos numa zona cinzenta confortável entre “estética” e “convicção” e é esse mesmo mecanismo que abre espaço real para que os tais extremistas “genuínos” transitem por essas cenas sem serem incomodados.

A psicologia explica esse deslocamento por mais de um caminho. Há a lógica do troféu de guerra, documentada em soldados de exércitos ao redor do mundo: o objeto do inimigo vira prova de domínio, não endosso do que ele significava. Há o fetiche, no sentido freudiano da coisa: o símbolo passa a apontar para uma outra direção (potência, transgressão, mistério) em vez do genocídio que o originou.

E há o que o psicólogo Albert Bandura chamou de “desengajamento moral”: rotular o símbolo de “estética” ou “efeito de choque” retira o peso ético do ato antes que ele precise ser julgado, enquanto a distância geracional do trauma real faz o efeito visceral do símbolo se dissipar com o tempo. Juntos, esses mecanismos explicam como alguém segura um símbolo hediondo na mão e sente só a carga de poder e transgressão dele sem carregar junto o peso do que ele significou para quem foi exterminado por sua causa.

A banda por trás da camiseta

A Death in June, banda da camiseta em questão, é uma das fundadoras do gênero conhecido como neofolk (também chamado “apocalyptic folk” ou “dark folk”), que mistura violão acústico, samples militares e estética marcial-pagã. Não é uma banda gótica no sentido clássico do termo, mas tem público que se sobrepõe ao da cena goth/dark wave, circulando nos mesmos festivais, como o Wave-Gotik-Treffen, na Alemanha.

O grupo nasceu em 1981 da dissolução da banda punk antifascista Crisis (PASMEM!), da qual saíram os fundadores Douglas Pearce e Tony Wakeford, ao lado de Patrick Leagas. Wakeford foi expulso já em 1984 por “trazer inclinações de direita” ao projeto; na época, ele era filiado ao National Front, partido neonazista britânico, e fundou depois a Sol Invictus, projeto até hoje rotulado de neofascista. Com a saída de Wakeford e Leagas, Douglas Pearce assumiu o comando da Death in June, posto que ocupa até hoje.

As ligações da banda com o universo nazista vão MUITO além da estética: Pearce colaborou por décadas com Boyd Rice, fascista assumido, e com Michael Moynihan, que publicou textos do neonazista James Mason. A banda apoiou forças fascistas croatas durante a Guerra da Iugoslávia e teve como fotógrafa oficial de capas de álbum Claudia Patatas, condenada por integrar a organização terrorista neonazista National Action.

No material da banda, o uso de totenkopfs, do padrão de camuflagem da Waffen-SS e do Sol Negro de Wewelsburg é recorrente em capas e apresentações.

O álbum “Brown Book” (1987) trouxe trechos do “Horst-Wessel-Lied”, hino do Partido Nazista, e “Rose Clouds of Holocaust” (1995) foi banido para menores na Alemanha por conteúdo associado à negação do Holocausto.

O próprio nome do grupo remete à Noite das Facas Longas, expurgo de 1934 em que Hitler mandou executar sumariamente a liderança da própria milícia paramilitar (a SA) que o ajudara a chegar ao poder, consolidando seu controle absoluto sobre o regime nazista.

O mal não desapareceu, só foi BANALIZADO

Enquanto banda, moda e cultura pop tratam a suástica como “estilo”, o conhecimento real sobre o que ela significou está desaparecendo na mesma velocidade. Um levantamento em oito países, feito pela Claims Conference com jovens de 18 a 29 anos, mostrou que 46% dos franceses, 15% dos romenos, 14% dos austríacos e 12% dos alemães dessa faixa etária dizem nunca ter ouvido falar do Holocausto; entre 33% e 42% dos jovens desses mesmos países duvidam do número de 6 milhões de mortos, e mais da metade já viu e concorda com conteúdo negacionista circulando nas redes sociais.

No Brasil, pesquisa com quase 8 mil pessoas em 11 regiões metropolitanas encontrou 21,6% dos entrevistados que nunca ouviram falar do Holocausto e apenas 38,5% capazes de dizer corretamente o que foi Auschwitz.

É nesse vácuo de memória que a mesma lógica de sempre: supremacia racial, hierarquia entre “nós” e “eles”, desumanização do outro, culto à força, à estética e à pureza se reorganiza sem precisar de suástica nenhuma. Deram a isso novos nomes: “red pill”, “machosfera”, “fascismo tecnorregressivo”: comunidades que nascem como autoajuda para homens que se sentem ameaçados pelas mulheres, memes de fóruns ou conteúdos desumanos e perigosos impulsionados pelo algoritmo como sendo “piadas”, que terminam funcionando como funil de radicalização, monetizando insegurança e ressentimento até desembocar em discurso abertamente supremacista.

Um outro estudo da Universidade de Leipzig apontou que um quarto da sociedade alemã hoje sustenta uma visão de mundo antifeminista consistente, porta de entrada estatisticamente comprovada para conteúdos de extrema-direita mais explícitos.

Mas a ignorância sobre seu significado não neutraliza o peso do símbolo; ela só decide quem o compreende. De um lado, um jovem capaz de vestir uma suástica sem saber nomear um único campo de extermínio. Do outro, comunidades de red pill e fascismo tecnorregressivo que sabem exatamente o que estão reciclando e tratam essa ignorância não como obstáculo, mas como matéria-prima e estratégia.

A camiseta que custou uma surra na UFRJ não foi um incidente isolado: foi um ponto dentro de uma estatística que já existia antes do episódio acontecer e que não vai deixar de existir depois dele. Mais de oitenta anos depois, o símbolo sobreviveu porque circulou sem exigir o posicionamento de ninguém. Porque recebeu apenas o silêncio.

Afinal, como dizia Karl Marx… “A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa”.



PS: nessa casa, somos total e completamente a favor de seguir a filosofia do Homem-Aranha de Minneapolis. Afinal, cada vez mais o paradoxo da tolerância de Karl Popper faz mais sentido…

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