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Como desaparecer completamente*

Por que o mundo continua desejando mulheres cada vez menores?

Por GABRIELA FRANCO

A magreza excessiva, marcada pela evidência dos ossos e por um estranhamento que beira a desumanização, voltou ao centro do debate público. O tema circulou em publicações, vídeos e discussões online, muitas vezes tratado como se representasse apenas mais um movimento cíclico da moda. O curioso é que, há bem pouco tempo, o discurso dominante era o que celebrava “corpos reais” “body positive” e diversidade. De repente, a magreza radical volta ao centro do debate sobre corpos e cultura pop, impulsionada em grande parte pela popularização das canetas emagrecedoras.

Mas as canetas não inventaram essa ânsia pela magreza; esse desejo já circulava socialmente muito antes dessa tecnologia existir.

Discussões sobre corpos femininos nunca surgem do nada. Elas apontam sobre o que uma sociedade valoriza, teme ou tenta controlar. O corpo feminino costuma ser um dos primeiros lugares onde essas disputas aparecem, porque é nele que expectativas sobre desejo, maternidade, juventude, espiritualidade e valor social ganham forma concreta. O corpo feminino é um campo de batalha e, por isso, é extremamente político.

Para entender esse desejo pela magreza, é preciso lembrar que o corpo feminino sempre foi mais observado e mais regulado do que o masculino. Ao longo da história, o que se espera de uma mulher costuma aparecer primeiro no corpo dela: como deve se vestir, quanto deve pesar, como deve envelhecer.

O filósofo francês Michel Foucault, em seus livros “A História da Sexualidade” e “Vigiar e Punir”, nos ajuda a entender esse mecanismo ao mostrar que o poder moderno não funciona apenas nos proibindo explicitamente, mas ensinando as pessoas a se controlarem. Ninguém precisa obrigar uma mulher a emagrecer; ela simplesmente “aprende” desde pequena que isso é o certo a se fazer. Ela aprende que magreza significa disciplina e sucesso. Ela aprende que será aceita e amada se for magra. Uma mulher fora dos padrões de magreza é vista geralmente como desleixada, indisciplinada ou preguiçosa.

Ou seja, em nossa sociedade ocidental, a magreza tem quase nada ou muito pouco a ver com “saúde” ou apenas uma forma física; ela comunica autocontrole, eficiência, e capacidade da mulher de governar a si mesma.

Controle, ansiedade e autocrítica


A psicologia contemporânea entende a volta da magreza extrema como um fenômeno que articula controle, ansiedade e autocrítica internalizada, intensificados pela pressão das redes sociais. Em um ambiente digital marcado por comparação permanente, filtros, métricas e exposição contínua, o corpo torna-se inevitavelmente uma vitrine. É comum ouvir dizer que, se alguém não tem presença nas redes sociais, essa pessoa “não existe” ou “se não postou, não aconteceu”. Isso é absurdamente simbólico. Reescreve a realidade como conhecemos.

A lógica das redes transforma aparência em capital simbólico, ampliando a autovigilância de um modo quase insuportável. E esse controle costuma vir acompanhado de julgamento interno. Muitas mulheres passam a associar a magreza à disciplina, valor e até virtude, enquanto qualquer ganho de peso é visto como fracasso. Nesse ponto, há, sim, um componente de punição: restringir, compensar e se vigiar tornam-se ferramentas para lidar com culpa e ansiedade. Além disso, reduzir o corpo pode funcionar simbolicamente como tentativa de diminuir a própria visibilidade e as expectativas ligadas à feminilidade adulta.

Por exemplo: a expectativa de disponibilidade sexual, a associação entre corpo feminino e maternidade, a ideia de que curvas sinalizam fertilidade e maturidade. Em muitas culturas, um corpo mais cheio é lido como corpo sexualizado e adulto; reduzi-lo pode funcionar, em nível simbólico, como tentativa de “neutralizar” esse olhar.

Há também expectativas sociais de desempenho: ser desejável, mas não “excessiva”; ser profissional competente, mas manter aparência jovem; conciliar autonomia com docilidade. A magreza extrema, ao diminuir traços corporais associados à feminilidade madura, como seios e quadris, pode inconscientemente operar como forma de atenuar essas demandas. Não é uma decisão racional do tipo “vou emagrecer para fugir disso”, mas um processo psíquico em que o corpo vira linguagem: reduzir medidas pode significar tentar reduzir pressão, exposição e cobrança. É nosso comportamento nas redes tentando conciliar aquele monólogo praticamente impossível do filme Barbie.

No capitalismo tardio neoliberal que ultravaloriza o desempenho e a utilidade acima de qualquer coisa, onde cada indivíduo e cada corpo são seu “próprio projeto”, o emagrecimento radical se encaixa perfeitamente nesse pensamento, já que ele exige disciplina, cálculo, monitoramento, metas e resultados.

No entanto…


Porém, limitar a análise da volta da magreza extrema à crítica do neoliberalismo empobrece um debate que é composto de camadas muito mais antigas. É preciso aprofundar a dimensão simbólica do feminino.

Segundo Simone de Beauvoir, a mulher foi historicamente definida a partir de um olhar que a posiciona como “Outro”, alguém cuja existência é constantemente avaliada. 

Esse olhar inquisidor joga sobre o corpo da mulher expectativas muito definidas e concretas sobre juventude, sexualidade e disponibilidade. A gordura feminina, por exemplo, não é percebida apenas como tecido corporal. Ela está biologicamente associada à capacidade reprodutiva, culturalmente vinculada à maturidade sexual; ela marca a passagem do tempo no corpo. A magreza extrema tende a atenuar esses sinais. Quadris se estreitam, curvas se suavizam, a silhueta se afasta de imagens ligadas à maternidade ou a uma mulher madura e INDISPONÍVEL para uma relação sexual, por exemplo. Quando o corpo emagrece drasticamente, esses sinais obviamente diminuem. A silhueta perde marcas associadas à vida reprodutiva. Em culturas que valorizam intensamente a juventude feminina, reduzindo-a a uma aparência quase juvenil, essa atenuação ganha outro sentido simbólico.

Algumas teóricas feministas aprofundam ainda mais essa análise. Susan Bordo, em “Peso insuportável: feminismo, cultura ocidental e o corpo”, mostra como a cultura contemporânea produz um ideal feminino cada vez mais magro, liso e sem marcas de maturidade, um corpo com menos sinais de fertilidade adulta e como esse ideal aproxima o corpo feminino de uma aparência pré-púbere.

A partir daí, algumas autoras argumentam que essa idealização corrobora a construção de uma zona simbólica delicada: quando uma cultura erotiza sistematicamente a juventude feminina e apaga seus sinais corporais da maturidade, ela flerta com uma estética que agrada cada vez mais ao imaginário pedófilo: entendido aqui como estrutura simbólica que sexualiza a aparência infantil.

Kate Millett, em “Política Sexual”, já apontava que o patriarcado tende a erotizar a desigualdade e a imaturidade femininas porque elas reforçam relações de poder. Quanto mais jovem e menos percebida como adulta a mulher parece, maior a assimetria simbólica. Ou seja, relações de poder se sustentam melhor quando uma das partes é percebida como menos autônoma, menos experiente ou menos capaz de decisões. Por isso, homens inseguros preferem mulheres cada vez mais jovens e imaturas.

Precisamos lembrar, no entanto, que padrões humanos nunca operam de forma homogênea. No Brasil, a grande Lélia Gonzalez analisou como raça e gênero se articulam na produção de ideais de feminilidade, mostrando que o corpo considerado magro, elegante e contido dialoga diretamente com a branquitude e com posições sociais específicas. Mulheres negras, por outro lado, foram historicamente empurradas para a hiper sexualização ou para leituras corporais marcadas pelo excesso.

A magreza extrema, portanto, se insere nesse campo racializado; ela não pesa igualmente sobre todos os corpos, obedece a recortes de raça e classe. Espera-se que a mulher negra seja voluptuosa porque seu corpo foi historicamente reduzido ao prazer, como se essa fosse sua função principal. Ao mesmo tempo, exige-se que seja forte, robusta, quase incansável, já que o racismo estrutural associa esses corpos ao trabalho físico pesado. E, em outros registros, ela pode ser enquadrada como “matrona”: corpo farto que cuida, sustenta, ampara, inclusive os filhos da mulher branca, cuja magreza e “reputação” seriam preservadas e intactas.

Ainda sobre cuidar de filhos, não poderíamos deixar de citar Silvia Federici, no que tange a perceber que o controle do corpo feminino foi central na consolidação das estruturas econômicas modernas.

A taxa de natalidade está em queda em grande parte do mundo e já permanece abaixo do nível de reposição em muitos países, acendendo alertas sobre envelhecimento populacional, redução da força de trabalho e pressão sobre sistemas de previdência, influenciando de forma direta a economia mundial.

Ou seja, regular a reprodução feminina significa regular a própria força de trabalho e a máquina da economia. O corpo da mulher sempre foi tratado como recurso social. Nesse contexto, reduzir esse corpo pode assumir significados ambíguos. De um lado, pode expressar adesão a um ideal de autocontrole, disciplina e desempenho individual, coerente com sociedades que valorizam produtividade. De outro, pode simbolizar uma recusa  ainda que inconsciente (ou não, uma revolução MUITO consciente) de expectativas ligadas à maternidade e à disponibilidade sexual.

Essa batalha ambivalente já aparecia nos corpos das mulheres medievais. O padrão de beleza da época valorizava corpos fartos, sinal de fertilidade e riqueza. Ainda assim, algumas mulheres adotavam jejuns severos, pois, por outro lado, “conter os desejos da carne” e punir o próprio corpo eram sinais de santidade e maturidade espirituais.  Algumas tornaram-se figuras religiosas de grande influência. A ambivalência está no fato de que, ao enfraquecer o próprio corpo, interrompiam a menstruação, suspendiam obrigações conjugais, adiavam casamentos, mas ganhavam autoridade espiritual.

Uma das poucas (ou únicas) formas da mulher ganhar alguma notoriedade em uma época que reduziu sua existência à reprodução. Ou você era santa ou uma fábrica de herdeiros (homens, por favor). A debilidade física produzia efeitos sociais concretos. O corpo tornou-se instrumento de negociação.

Mas isso está refletido no nosso cotidiano

Esse debate todo, amparado em referências teóricas, não está distante da nossa vida cotidiana; ele impacta diariamente. Segundo a pesquisadora austríaca Julia Ebner, que estuda a atuação de movimentos extremistas na cultura digital, em ambientes online ligados à extrema direita, a magreza vem sendo apresentada como sinal de disciplina moral, pureza e superioridade. Não se trata apenas de estética, mas de uma lógica que hierarquiza corpos por valor. Mulheres são frequentemente colocadas na linha de frente dessa comunicação para tornar discursos autoritários mais aceitáveis e até mais sutis, afinal, “é só mais uma discussão sobre moda”.

Esse movimento já foi classificado pelo pesquisador canadense nas áreas de estudos do corpo e da sexualidade, Brian Pronger, como “fascismo corporal”.

Pesquisas mostram ainda que há sobreposição entre comunidades pró-dieta, fóruns de transtornos alimentares e espaços de radicalização. Nesse cenário concreto, a exaltação da magreza deixa de ser apenas uma moda e passa a dialogar com discursos que conectam corpo, moralidade e pertencimento político.

O retorno da magreza extrema, portanto, articula múltiplas camadas: buscar por controle interno e externo, idealização da juventude, hierarquias raciais e sociais, políticas de dominação, lógica econômica e estratégias individuais de sobrevivência. As canetas emagrecedoras não inauguram esse movimento; elas apenas o intensificaram tornando mais acessível aquilo que já era simbolicamente valorizado.

Não se trata de afirmar que toda mulher que emagrece esteja reproduzindo estruturas patriarcais, nem de romantizar o sofrimento associado aos transtornos alimentares como resistência política. Trata-se de reconhecer que, ao longo da história, diminuir o corpo feminino raramente foi um gesto neutro.

Se a magreza extrema volta a ser celebrada, isso indica que estamos reorganizando novamente nossas ideias como sociedade. O corpo das mulheres continua sendo o lugar onde essas ideias se tornam visíveis, e é justamente por isso que cada centímetro perdido carrega mais significado do que aparenta.

* How to Disappear Completely
Canção do Radiohead do álbum Kid A (2000)

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