Bruno Maia conta a história do rei esquecido Ambrósio
Vocalista da banda Tuatha de Danann lança documentário sobre uma liderança quilombola cuja importância histórica atravessou gerações
Por THIAGO CARDIM
Quando a gente fala a respeito da história dos quilombos no Brasil, é inevitável que se pense em Palmares, região de Alagoas, sob a liderança de Zumbi, que é figurinha carimbada nos nossos livros de História na educação escolar básica.
Mas tivemos uma série de outros quilombos surgidos ao longo do país, na segunda metade dos anos 1500, como parte da resistência negra à colonização escravagista vigente na colônia portuguesa – e também como estruturas complexas de sociabilidade, cultura e autonomia.
Um destes exemplos é o Quilombo do Ambrósio, que foi capital da confederação Quilombo do Campo Grande, composta por 27 quilombos localizados em pontos do território das atuais regiões Centro, Centro-Sul, Centro-Oeste, Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro. Tal qual Zumbi, este quilombo teve também o seu líder emblemático, com uma importância histórica que atravessou gerações, mas permaneceu à margem dos registros oficiais.

Estamos falando do Rei Ambrósio, negro brasileiro nascido de ventre livre, que agora se torna protagonista de um documentário que promete trazer luz a esta narrativa silenciada. Trata-se de Ambrósio, rei do Campo Grande: o rei esquecido de uma história roubada que ainda ecoa.
“Há uma lacuna entre a Guerra dos Emboabas e a Inconfidência Mineira, quase um século apagado. Foi nesse período que lideranças quilombolas tiveram papel central na formação do nosso povo”, disse, em entrevista ao site Brasil de Fato, o diretor e produtor da obra, Bruno Maia.
Já em entrevista ao G1, ele revela que tem o desejo de produzir um documentário sobre Ambrósio faz 15 anos. “Eu descobri o Ambrósio em 2011 enquanto produzia outro documentário – sobre o Sete Orelhas – e fui apresentado à obra do Tarcísio José Martins, que é a pessoa que trouxe o Ambrósio de volta à mesa, às discussões, inspirou diversos trabalhos acadêmicos e tudo”, conta.
Ah, sim: caso você não esteja ligando o nome à pessoa, Bruno Maia é ninguém menos do que o vocalista da seminal banda Tuatha de Danann e do projeto Braia. Segundo ele, o contato com estudos sobre o personagem revelou não apenas a potência de sua liderança, mas também o apagamento histórico a que foi submetido. “O filme é um convite à reflexão e uma ferramenta de memória”, diz ele.
Jogando luz sobre a história de Ambrósio, símbolo de luta, liderança e permanência
O documentário parte do reconhecimento de que a história não se constrói apenas por meio de documentos oficiais, mas também pelas memórias preservadas na oralidade, nos saberes tradicionais e nas marcas deixadas no território. Ao investigar essas camadas, o filme evidencia os processos de apagamento que, ao longo do tempo, contribuíram para silenciar personagens e acontecimentos fundamentais na formação do Brasil.
O filme, viabilizado pela Lei Paulo Gustavo do Estado de Minas Gerais, é resultado de uma pesquisa minuciosa, que inclui mapas históricos, documentos de fontes primárias e obras clássicas, passando por cidades mineiras como Cristais, Ibiá, Lavras, São João del-Rei, Prados e Formiga, territórios que testemunharam a organização e a resistência lideradas por Ambrósio – que, por volta dos anos 1740, se envolveu em confrontos com a Coroa Portuguesa e acabou ferido, fugindo para a região do Município de Ibiá, onde formou o Quilombo do Rei. Ele veio a falecer na região de Patrocínio, Minas Gerais.
“A pesquisa eu já faço há mais de uma década, a pesquisa histórica. Porém, alguns desdobramentos gerados a partir do fator histórico deste tema, alguns paralelos contemporâneos, me surpreenderam, como por exemplo o fato de que MG, que é o 4º estado com maior população quilombola do país, […] ter 99% da população quilombola vivendo em terras não tituladas”, explica Bruno ao G1. “É um dos ecos do apagamento do Ambrósio esta invisibilidade jurídica e social que assombra os quilombolas”.

“Mais do que reconstruir uma narrativa, a obra propõe uma reflexão crítica sobre quem conta a história e quais vozes são legitimadas ou excluídas”, diz o material oficial do filme. “Ao articular pesquisa histórica, depoimentos e uma linguagem cinematográfica sensível, o documentário conecta passado e presente, mostrando como essas histórias continuam reverberando na contemporaneidade”. E completa, ainda ao G1: “As reverberações dessa história são visíveis nos índices sociais, no racismo estrutural e até em casos de trabalho análogo à escravidão. Isso mostra como o passado ainda está muito presente”.
Além disso, claro, o filme entrelaça a sua narrativa com a música, já que a trilha é composta pelo próprio Bruno, em parceria com o historiador e violeiro Ivan Vilela. A música-tema, “No Breu do Sertão, no Escondido”, foi lançada via Braia – e pode ser ouvida AQUI.
Ao convidar os amigos da imprensa para assistir ao filme, Bruno disse que trata-se de um filme histórico, mas que traz, para além da questão histórica, paralelos contemporâneos como luta no campo, colonialismo e questões raciais.
“De um sussurro fez-se um grito que evoca o fantasma de um velho rei que chefiou hordas rebeldes nos sertões das Minas Gerais setecentistas, o Rei Ambrósio”, afirma.
Além de seguir o perfil do filme no Instagram e acessar o site oficial (que tem uma série de extras, documentos históricos de suporte, artigos de especialistas como o pesquisador e historiador Tarcísio José Martins), você pode assistir ao filme NA ÍNTEGRA lá no YouTube… ou dando o play no vídeo aqui abaixo.