Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

O que Invencível e The Boys têm em comum?

E emulando os clássicos click baits que a internet agora…  A RESPOSTA VAI SURPREENDER VOCÊ! 😂

Por THIAGO CARDIM

Sem muitas delongas, eu vou te ajudar na busca pela resposta da provocativa pergunta que serve como título deste texto. Já sei, você vai apostar de imediato que é o fato de ambas serem badaladas produções do Prime Video, cujas temporadas mais recentes estão em exibição no serviço de streaming?

Pô sim, elas são mesmo… mas não é disso que tô falando.

Você pode dizer, então, que estamos falando de duas séries que usam e abusam da intensa violência gráfica como forma de contar suas respectivas histórias?

Sim também… mas tampouco é disso que tô falando.

Talvez seja o caso de ambas trazerem o ator Seth Rogen nos créditos como produtor executivo?

Olha só, isso é uma proximidade interessante… mas, nem, não é disso que tô falando.

Então, você poderia supor que, talvez, estejamos falando que são duas séries inspiradas em quadrinhos de super-heróis e que, em algum ponto, meio que satirizam as HQs clássicas da Marvel e da DC?

Pode ser um caminho… mas não é EXATAMENTE disso que tô falando.

Na real, senhoras e senhores, o que aproxima The Boys e Invencível é algo que muita gente durante décadas defendeu que seria impossível acontecer no universo da cultura pop: ambas as séries são superiores às obras originais.

Sim, minha gente, estou dizendo aqui com todas as letras que tanto The Boys (inspirada na HQ de Garth Ennis e Darick Robertson) quanto Invencível (baseada no gibi de Robert Kirkman e Cory Walker, que mais tarde seria marcado pelo traço de Ryan Ottley) geraram adaptações que funcionam bem melhor do que os quadrinhos nos quais os personagens foram criados.

Vou deixar aqui um espaço de respiro para a eventual polêmica gratuita antes de explicar meu ponto (não que precisasse, mas isso é um texto e não um vídeo de determinados canais no YouTube).

Eu corro o risco, enfrento o medo de falhar…
mas me convenço que sou INVENCÍVEL


Embora alguns coleguinhas críticos de cinema costumem defender, com unhas e dentes, que um filme jamais conseguirá a proeza de ser melhor do que o livro que adapta para as telonas, por exemplo, é importante lembrar o que ninguém menos do que o diretor Alfred Hitchcock costumava repetir em grande parte de suas entrevistas, quando ia comentar  a respeito de seu trabalho transformando livros em Sétima Arte: “livros medianos podem se tornar belíssimos filmes, enquanto obras-primas da literatura se tornam filmes medíocres”.

(com isso, talvez ele estivesse querendo dizer que o livro “Psicose”, de Robert Bloch, não era lá uma obra literária muito memorável…)

De qualquer maneira, Rubens Rewald, professor de roteiro em audiovisual da Universidade de São Paulo (USP), numa entrevista para o site Nova Escola, levanta um ponto bem interessante: provavelmente esse julgamento tem a ver com a relação anterior que o indivíduo estabeleceu com o livro. Para ele, “a tendência é de que as pessoas gostem mais da primeira obra com a qual tiveram contato – seja um livro ou um filme. Seria uma dificuldade que nós leitores e espectadores temos de nos desvencilhar da ideia da história que formamos originalmente em nossa cabeça”.

Isso é fato. Mas aqui, eu prefiro muito mais recorrer à frase de outro cineasta, igualmente genioso e genial, e que também foi bastante adepto de adaptações literárias para as telonas: “livro é livro, filme é filme”. O cineasta, no caso, era ninguém menos do que Stanley Kubrick.

“A insistência na fidelidade da adaptação cinematográfica à obra literária originária pode resultar em julgamentos superficiais que frequentemente valorizam a obra literária em detrimento da adaptação, sem uma reflexão mais profunda”. A frase, certeira, é de Randal Johnson, pesquisador e professor da University of California (UCLA), em entrevista pra revista CULT.

Agora, vamos trocar a palavra “livros” por “gibis” – e lembremos de todas as tretas dos últimos anos envolvendo, por exemplo, as mudanças que a Marvel Studios fez nos clássicos heróis e vilões da Marvel Comics em suas transposições pro MCU?

Poisé, pois é, poisé. Sabemos como os fãs de HQs, principalmente as de hominhos, podem ter as suscetibilidades feridas ao ver um uniforme originalmente azul se tornar, sei lá, verde, não é?

Neste ponto, apesar dos pesares, apesar de gente reclamando incessantemente das bochechas em versão animada do grande regente viltrumita Thragg na temporada mais recente de Invencível (sim, sim, eu JURO), digamos que a série animada é, até certo ponto, bastante fiel à obra original. Mas é justamente neste “até certo ponto” que eu defendo que ela funcione de maneira superior ao gibi do Kirkman – deixando, como defende o estudioso Johnson mencionado acima, os “julgamentos superficiais” para trás.

Invencível é bem fiel ao gibi, claro, mas soube fazer pequenas mudanças que foram dando muito mais ritmo à trama, pensando na versão audiovisual – e que, pra mim, dão ainda mais certo do que nas páginas do Kirkman. Só nessa temporada, dá pra citar os flashbacks do Nolan, a volta ao passado para entender ainda mais Viltrum e os impactos diretos do Vírus Flagelo… tudo isso funciona ainda melhor não apenas para dar mais força ao personagem de Thragg, mas também mais dramaticidade e algumas camadas extra à decisão que Mark toma no episódio final desta nova leva de episódios (calma, sem spoilers aqui).

O estupro sofrido por Mark nas mãos da viltrumita Anissa, momento marcante das HQs? Limado. Porque, de fato, não faria sentido para o tipo de história sendo contado e atrasaria a trama. A gravidez da Eve? Digamos que a surpreendente revelação da personagem (tentando mais uma vez evitar spoilers) é feita num contexto ligeiramente diferente, igualmente mais enxuto, que não tira a força de tudo que está acontecendo com o nosso Invencível em seu retorno pra Terra.

E a decisão de transformar Jaqueta Tech numa garota, sendo Zoe ao invés de Zach Thompson? Ela é ainda mais jovem do que o personagem nos gibis (regulando muito mais com Oliver) e mesmo do que o Mark – o que faz com que ela se torne algo diferente e mais funcional, bem menos Homem de Ferro, como na HQ, e mais Miss Marvel, o que traz um tipo de leveza diferente ao grupo que se une para combater os viltrumitas no espaço.

Os Marks de universos paralelos da série sendo muito mais diferentes entre si do que apenas as versões maléficas dos gibis. As pequenas mudanças na origem da Eve (incluindo sua melhor amiga). Um Oliver crescendo mais emocional do que a versão mais “fria” das HQs. A confissão sobre a solidão do Conquista. A maior profundidade (além da troca da cor de pele) da jovem Amber. A criação de uma família pro Titã. O maravilhoso episódio no inferno com Damien Darkblood (com direito a Bruce Campbell e Slayer na trilha sonora). O aprofundamento existencial da descoberta da realidade androide de Donald. A existência da múmia Ka-Hor. E por aí vai.

Resultado de tudo isso? Melhor, melhor, melhor. E talvez até o próprio Kirkman, que tem a chance de trabalhar diretamente com a série, concorde com isso, porque ele está tendo a chance de aparar arestas da própria obra em tempo real e torná-la mais efetiva.

THE BOYS are back
And they’re looking for trouble


Conforme se aproxima de sua conclusão, a série de The Boys, no entanto, vai se tornando algo cada vez mais diferente dos gibis, em alguns pontos até “radicalmente” diferente – e preciso dizer, minha gente, que AINDA BEM.

Lembremos, por exemplo, do filme do Constantine – que não é nem de longe uma boa adaptação do John Constantine dos gibis, mas, diabos (ele mesmo!), é um baita filme divertido. Assim como aconteceu com a série do Legion, que se tornou uma das melhores coisas a aterrissar na TV nos últimos anos só que fez questão de jogar pro alto qualquer conexão mais profunda com o personagem original dos gibis dos X-Men.

The Boys não chega a ser tão extremo quanto estes dois exemplos, mas é quase como se a série tivesse criado a sua própria linha do tempo e se tornado uma realidade paralela dos gibis. A começar justamente por entender que nem todas as loucuras escritas por Garth Ennis caberiam na série – e isso sem ser, necessariamente, por conta de uma “autocensura”, um medo de não conseguir encaixar certas situações numa série de TV pelo medo da reação do público. Mas sim porque, de longe, o gibi em MUITAS ocasiões opta por chocar apenas pelo choque, gratuitamente falando.

Aqui, os roteiristas foram inteligentes ao optar por, sim, usar muito da violência da HQ original, das situações bizarras, do sangue e das tripas explícitos, da profanidade… mas de maneira que ajudassem a caminhar com a trama principal. É pra espalhar fluidos pela tela, é pra provocar incômodo no espectador? Pois bem. Que seja dentro do contexto da narrativa que se está contando e não do tipo “vou fazer isso bem radical apenas PORQUE EU POSSO”.

(e tá aí uma coisa que, por vezes, me cansa BEM na obra do Ennis como um todo, mas tudo bem, seguimos o baile, falamos disso noutro dia)

Aos poucos, The Boys versão série foi ganhando seu próprio caminho. William “Bruto” Butcher é um arrombado? Sim, em ambas as versões. Mas a versão de Karl Urban é, mais do que só um sujeito sem consequências em busca de sua vingança contra o Capitão Pátria (Homelander), alguém que em alguns momentos volta a descobrir que tem um coração batendo no peito. Que até se afeiçoa ao Hughie (que, de escocês, vira americano) – que, aliás, não se aproxima do modelo macho alfa de Butcher, pelo contrário, se afastando cada vez mais deste tipo de comportamento.

Como um todo, claro, a série tomou a acertadíssima decisão de, mais do que fazer apenas e tão somente uma sátira de quadrinhos de super-heróis da Marvel e da DC, ir pra um olhar maior e mais amplo, sacaneando o universo corporativo e igualmente toda a indústria de entretenimento, em especial a cinematográfica. Portanto, sim, era de se esperar que a série atualizasse uma série de questões e mergulhasse de cabeça no atual cenário político e na cultura digital, na disseminação de notícias via redes sociais, em gerenciamentos de crises reputacionais e afins, criando um montão de novas subtramas que simplesmente inexistem nas HQs.

Na série, por exemplo, o controle que a Vought mantém sobre os vigilantes uniformizados é muitíssimo maior do que o que enxergamos nos quadrinhos, tratando-os quase como ativos contratados/influencers/embaixadores utilizados em estratégias de marketing e afins. O tom é muito diferente.

The Boys, a série, critica abertamente a extrema-direita desde o seu dia 1, tornando o seu discurso satírico cada vez menos sutil e cada vez mais direto e reto temporada após temporada (se alguém está vendo a temporada final, aliás, e ainda não entendeu o tanto que o contexto político e religioso dos EUA sob jugo do Pátria conversa DIRETAMENTE com o atual governo Trump, talvez fosse o caso de iniciar um tratamento para melhorar a cognição). Tá ali, esfregado na sua cara, só não vê quem não quer.

Claro que, como aconteceu com o Butcher e com o Hughie, a gente vê mudanças substanciais em alguns personagens – a Tempesta, que nos gibis era um homem, se torna uma mulher e cujo foco está na atuação extrema em mídias sociais. Já o Soldier Boy, ao invés de um moleque puxa-saco capaz de tudo para estar ao lado do Capitão, virou um Capitão América com esteroides e que, além de integrante da formação original de heróis da Vought, é também o pai biológico do grande vilão da série (e que gera um subtexto familiar saborosamente esquisito na relação entre os dois).

Mas a questão principal, de fato, é o próprio Capitão Pátria, né. Que, de fato, é o maior acerto da série, com a interpretação primorosa de Antony Starr. Esqueçam aquele bobalhão que, no fim, é um Superman genérico que tem bem menos culpa no cartório já que grande parte de suas atitudes grotescas foram realizadas pelo Black Noir, que secretamente era um clone do Capitão Pátria nos gibis. Nada disso. O aspecto ridículo, obviamente, está mantido, mas o Capitão Pátria da série de TV é muito mais ameaçador. O tempo todo, ele está ali, aparentemente tentando se conter, como uma bomba prestes a explodir – e que, vez por outra, explode mesmo e destrói tudo ao seu redor, sem fazer prisioneiros.

Isso faz com que qualquer um que cruza o seu caminho, que trabalha com ele de um lado ou o desafia do outro, tenha medo desta faceta feroz, que rapidamente pode te fazer esquecer toda a carência, os mommy issues, a obsessão bisonha com leite materno… Tudo isso fica pra trás assim que os olhos vermelhos começam a brilhar e ele deixa a violência fluir, e ele deixa seu lado monstro rugir.

E é aqui que o Starr brilha lindamente, alternando ambos os papéis, trabalhando no olhar e nas tremidas da boca, algumas vezes até na mesma cena, como naquela já icônica cena do espelho.

Agora imagina esse sujeito absolutamente instável sendo plenamente convencido por uma pretensa visão divina de que é… DEUS?

Lembra daquela imagem messiânica lá que um tal presidente estadunidense postou? Pois então. Imagina se ele tivesse superpoderes? Melhor nem pensar nisso, né?



Aceita de uma vez: livro é legal demais. Gibi também é legal demais. Mas, às vezes, quando eles são levados para o cinema ou para a TV, talvez exista a chance de que o resultado final seja ainda melhor do que o original. E aí o filme vai ser legal demais e a série também será legal demais. E aí você tem DUAS opções diferentes de se divertir com excelência em dois formatos distintos. Não é legal DEMAIS? 😉

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