Quando os heróis já renasceram, o que a gente faz?
A missão do nosso heroico colaborador convidado ainda não terminou… e parece ter chegado justamente em sua batalha mais árdua…
Por VINICIUS CARLOS VIEIRA
Se você chegou só agora por aqui, pode dar uma checada na Parte 1 desse especial Heróis Renascem ou acompanhar esse resumo em um fôlego só.
A Marvel sacaneava seus artistas desde 1962… até que alguns deles resolveram mandá-la para “algum lugar” e foram fazer suas cópias dos personagens da Marvel em uma editora só deles. Eles venderam muito enquanto a Marvel vendia pouca coisa e o seu presidente (da Marvel, no caso, né) resolveu dar um reboot na coisa toda, chamou esses caras todos de volta para quatro séries de 12 edições onde eles teriam controle total para estragar esses personagens todos com roteiros ruins e desenhos piores ainda… tirando o Quarteto Fantástico do Jim Lee, que era bacana.
São eles que abrem essa segunda fase, por mais que ela pareça feita para emplacar o Homem de Ferro na sua “Revolução Industrial”.
A Revolução Industrial… sem revolução nenhuma
Essa tal revolução ainda não começa logo de cara. Primeiro, você acompanhará o Coisa fumando no espaço e a descoberta de que o sinal do Quarteto no céu é de fogo, mas não é feito pelo Tocha Humana. E aparentemente isso não significa nada para o resto da história. Na verdade, nem o Quarteto importa muito, já que o argumento de Jim Lee e o roteiro de Brandon Choi decidem separá-los para poder apresentar mais referências a situações clássicas.
Mesmo assim, a revista da primeira família da Marvel continua sendo uma tábua de salvação, mesmo com o próximo número (o quinto) resolvendo enfiar goela abaixo dos leitores uma batalha atabalhoada que culmina com um superskrull que até encaixa bem dentro de toda trama e da ideia da preparação da chegada do Galactus, mas tudo dentro de um recheio mediano, apático e entediante. Mas ainda assim, melhor do que a tal Revolução Industrial.
Todas edições seis das quatro séries estão sob o guarda-chuva desse crossover/minissérie que é tão descartável que sua primeira e última parte ocupam menos de meia dúzia de páginas das “suas” edições.
Na primeira parte, o Quarteto Fantástico demonstra mais uma vez que é a melhor revista de todas, mas ainda assim parece apenas ser um remake do original com muita ação e pouca coisa realmente acontecendo. Dito isso, o primeiro episódio da tal Revolução Industrial é uma vergonha. `Primeiro de tudo, porque ela é só o finalzinho da revista, afinal Lee precisa acabar de contar a história do Superskrull, do Surfista Prateado, do Pantera Negra e do Doutor Destino – isso mesmo, tudo junto, o que é mais ou menos o resumo de tudo que acontece no Heróis Renascem: um emaranhado de informações e personagens com tempo de menos para desenvolver qualquer coisa.

Destino volta na Revolução Industrial para descobrir que o Hulk é um monte de radiação gama junta e que ele é mais um dos jovens cientistas que, anos atrás eram um grupo, os “Cavaleiros Atômicos da Távola Redonda”: Tony Stark, Banner, o próprio Von Doom e Rebel P´Reilly, único personagem original de todo Heróis Renascem… mas não se preocupe com ele, já que ele não presta para muita coisa.
Revolução Industrial – Parte 2 começa com a Mulher Invisível de biquíni e o Coisa ensaboado escondendo “as partes” com uma toalha gritando “Tá na hora do pau!” em uma situação em que ele não deveria ter esse tipo de ideia. O resto do tempo é só uma enrolação enorme com Loki controlando o Nick Fury e o Hulk/Banner sendo a peça-chave para impedir um desastre atômico, mas sem explicar para ninguém a razão do nome do arco ser “Revolução Industrial”.
A terceira parte é mais um daqueles momentos onde muita gente conversa, os personagens ficam pipocando pelos quadrinhos e, mesmo com os desenhos bacanas do Jim Lee, do Whilce Portacio e do Ryan Benjamin, tudo parece ser uma reunião que poderia ser um e-mail. Sem esquecer as duas páginas que são a Parte 4 e estão dentro da revista seis do Capitão América, aquela que apresenta a infame capa desenhada por Rob Liefeld onde o personagem tem um peito hilariamente distorcido… e o Cable. Então esqueça a Revolução Industrial e o título sem sentido e mergulhe nessa experiência picareta do “astro da Image” dando um jeito de voltar a desenhar sua criação dos X-Men. Mas não importa a desculpa, presencie um dos MODOKs mais desproporcionais da história da Marvel.
Wolverine?
Esse arco de “duas revistas e pouco” (Revolução Industrial) tem pouco de revolução e nada de industrial, mas é a (outra) cara de Heróis Renascem: um monte de bobagem misturada com os egos de seus criadores e artistas envolvidos criando uma história que precisava chegar a apenas um lugar. No caso da Revolução Industrial, separar os Vingadores e o Capitão América da SHIELD. Já no foco da Heróis Renascem: trazer todo mundo de volta ao universo “normal” da Marvel.
Quarteto Fantástico número sete vem com o Wolverine na capa para lembrar o pessoal de que a série está chegando ao final e o outro universo continua lá esperando. Existe uma fofoca sem qualquer confirmação que Liefeld queria colocar o mutante canadense por baixo do uniforme do Gavião Arqueiro, mas não conseguiu, e como o atirador de flechas não tem importância alguma para a série, é melhor esquecer essa ideia também.
Pior ainda, esse Quarteto Fantástico só enrola, mostra para Reed e Sue que eles não estão sozinhos nos universos e lembra o leitor que ninguém ali tem onde chegar. Ou melhor, têm, mas ninguém mais se importa.
Do mesmo jeito que enquanto Whilce Portacio volta para mais duas edições de Homem de Ferro (7 e 8) com pescoços enormes e um monte de músculos fora do lugar, o arco ainda compreende a nona revista com Tony Stark enfrentando o “primeiro Homem de Ferro”, seu amigo Rebel. O resultado é um desfile de frases ruins, ação genérica e um flashback que explica um monte de coisas que ninguém se importa, já que tão perto do fim da revista, é improvável que alguém ainda esteja interessado no único personagem original do Heróis Renascem.
Por falar em “coisas acontecendo”, Vingadores 7 e Vingadores 8 dão um show. Jeph Loeb e Walt Simonson escrevem os roteiros de duas edições tão preocupadas em contar um pouquinho da história de cada personagem da equipe que parece que nada importa de verdade. Gavião Arqueiro volta a ter um espaço só para deixar claro que ele não importa.
Dois grupos de vilões estão atacando o grupo de heróis. Loki está lá no meio e, aparentemente, é aquele Loki do universo “normal”. Hank Pym está dentro do Visão, mas realmente nada disso importa.
Um Suspiro Antes do Fim
E eis que aconteceu. Pela primeira vez em meses de publicação, Heróis Renascem tem sua primeira edição que não precisa ser ignorada ou jogada no lixo. Talvez essa empolgação venha apenas de um período do sofrimento com todos outros números, mas Capitão América número 7 é um gibi bom.
O desenho principal da edição fica a cargo de Joe Phillips, mas é cheio de participações especiais comandadas pela Homage Studios, subdivisão da Wildstorm de Jim Lee, já que, a essa hora, Rob Liefeld já estava fora da série. A página dupla desenhada por Travis Charest só deixa claro o quanto o resto das artes da série eram uma vergonha.
O roteiro de James Robinson é um grande flashback divertido contando a história do Capitão América nesse universo e expandindo a ideia de que o Capitão estava sendo manipulado pelo governo. Direto, objetivo e sem a necessidade de ficar se ligando a nenhuma outra série, esse número 7 é o prenúncio de mais alguns poucos bons momentos.

Robinson era o que podemos chamar de um “jovem com experiência”: já tinha escrito a série “Golden Age” pela DC, assim como havia começado sua fenomenal passagem pelo Starman (também da DC). Também tinha assinado alguns números de WildCATS para a Image, além de alguns poucos outros créditos na Marvel. Em resumo, era alguém que sabia escrever e não tinha alguém por trás enchendo sua paciência e ditando as regras de uma trama que só ele achava boa (Liefeld até aquele momento, basicamente).
Com ainda mais experiência que Robinson, Walt Simonson agora também tinha três edições de Os Vingadores para chamar de sua. Entre dezenas de trabalhos na própria Marvel, Simonson àquela época já tinha se tornando um dos melhores escritores do Thor e do Quarteto Fantástico, com arcos que entraram para a história das duas revistas. Aqui, em Os Vingadores 9, 10 e 11, a revista, pela primeira vez, tem uma história que fica em pé sozinha. É lógico que ainda tem que conviver com toda bagunça do que veio antes, mas ainda assim é um suspiro dentro do Heróis Renascem.
As edições são organizadas, cheia de ação, diálogos que fazem sentido e um Loki tentando mais uma vez atrapalhar a equipe de super-heróis. Para aproveitar e matar as saudades, Simonson ainda saca o próprio Thor do “universo normal” para enfrentar o Thor daquele universo e deixar claro o quanto um deles é uma farsa narrativa com seu Mjolnir com jeitão de marreta.
Aproveitando para falar de coisas boas antes de voltar ao fundo do poço, James Robinson termina sua participação no Heróis Renascem com o que, talvez seja, o único arco que presta das 48 edições de todos personagens. Capitão América 8, 9, 10 e 11 tem a presença do brasileiro Joe Bennett duas décadas antes de declarar seu voto para o presidente mais idiota e tóxico que o Brasil já teve. Curiosamente, Bennett e sua péssima capacidade de escolher presidente está no arco onde Robinson entende que a presença desse Capitão América nessa realidade é tremendamente política.
Depois de se afastar da SHIELD, Steve Rogers decide andar pelos Estados Unidos e acaba dando de cara com um movimento de supremacia branca que está se espalhando pelo país (e pelo qual Bennett devia estar torcendo).
E por mais que as duas últimas edições percam força, a resolução envolvendo Nick Fury é divertida e a personalidade desse Capitão América funciona muito bem. Bennett faz um ótimo trabalho e casa perfeitamente bem com o roteiro ágil e as cenas de ação divertidas e simples. Não que esses quatros gibis sejam realmente bons, mas são absolutamente aquele momento onde é possível ver que seria possível que algo dentro de tudo isso desse certo.
Mas lembre-se que o resto não dá certo e o único ponto bom disso tudo é que está acabando.
Finalmente o Fim Final

Tirando Capitão América, essas últimas edições dos outros personagens antes das derradeiras revistas finais que se interligam são um cemitério de ideias ruins. Não escrevi errado: nem o que é ruim funciona aqui. Terrax está azucrinando o Homem de Ferro, assim como uma versão capenga da HIDRA que corre pelas páginas para ter mais espaço em um lugar que ninguém mais está interessado. Só não corre mais que o Hulk… e sua Tropa Hulk.
Ou melhor, esqueça ela. Esqueça o Hulk. Esqueça os Heróis Renascem. Não, essa última parte ainda não, porque ainda tem um caminho pela frente para a gente percorrer, um caminho que começou com Quarteto Fantástico e se mantém firme nisso.
A revista foi até o fim, tentando comprimir trinta anos de cronologia em 11 edições através de um ritmo legal e um visual bacana, sempre capitaneado pelo Jim Lee, que aparentemente tinha o sonho de desenhar os personagens de Lee e Kirby. Mas desde o começo, é como se eles estivessem carregando o peso cronológico dos Heróis Renascem.
Não que tenha muito peso, mas nenhum dos outros três títulos estavam preocupados em esbarrar com Galactus, Surfista Prateado e outros lugares desse mundo. Os Inumanos, em certo momento, surgem como seguidores do Galactus e poderiam até ser importantes para o final da “saga” inteira, se houvesse qualquer tipo de bom senso narrativo.
Mas a estrela do final de Heróis Renascem também vem do Quarteto Fantástico: o Doutor Destino. Sim, bem antes do MCU colocar toda responsabilidade do futuro de sua estrutura nos cinemas nas costas do imperador da Latvéria, Jim Lee, Mark Waid, Jeph Loeb e mais quem estivesse por trás dessa última ideia ridícula, já tinham feito.
Destino percebe que Galactus destruirá a Terra, já que percebe, junto com o leitor, que aquele apanhado mal ajambrado de heróis subdesenvolvidos não conseguiria se organizar de um modo suficientemente eficiente para derrotar o vilão gigante e roxo. A solução é simples: ele dá um jeito de viajar no tempo sempre que vê que a humanidade foi derrotada, chegando sempre em um outro ponto anterior, agora com mais informações para fortalecer o grupo e mudar suas estratégias.
Quatro revistas. Quatro equipes preocupadas com elas próprias. Quatro finais. Um sofrimento ainda maior do que apenas um final.
A solução é tão capenga que o próprio Destino deve ter vontade de matar todos aqueles personagens. A cada nova descoberta, o que muda são os envios dos grupos de personagens para cenas de ação genéricas para lugares diferentes e a oportunidade triste de, mais uma vez, o leitor ter que aguentar aquelas cenas horríveis e com a cara do pior que os anos 1990 produziram nos quadrinhos.
Em algum momento do começo dessa bagunça toda, lá com o Capitão América, uma garota se meteu no meio da trama, o leitor sabe que ela se tornará a Bucky desse universo, mas isso parece que acontece escondido em algum momento entre edições. Ela também desenvolve um relacionamento com o Capitão em um lugar que ninguém vê, e até aqui, tudo bem, já que ela só tinha aparecido umas três vezes em 11 edições e o espectador já tinha esquecido dela. Mas não se surpreende ao descobrir que ela ganha uma importância enorme nessa última edição de Capitão América e do Heróis Renascem.
Depois de três edições repletas de cenas de ações mirabolantes, heróis sendo derrotados, planos que dão errado e o Doutor Destino tentando convencer seus amigos de faculdade que ele pode salvar todos (spoiler, não pode!), Heróis Renascem culminam no jardim da Bucky. É como se todos esses roteiristas estivessem em busca do final mais anticlimático possível para tudo aquilo que eles se perderam fazendo durante 48 edições.
Mas esse não é o final, é apenas um “e eles viveram felizes para sempre”…
É quase um “até breve”.
O Retorno e as 13as edições
Por mais que na sequência a Marvel ponha um ponto final logo nessa bagunça toda enviando o Hulk e o Homem-Aranha do universo regular na minissérie Heróis Retornam, a solução real está nas mãos de Franklin Richards e uma celestial que fica atazanando a vida da criança enquanto ela está vivendo nos pântanos junto com o Homem-Coisa. E Peter David no roteiro consegue fazer tudo isso ter sentido e até ser divertidinho, já que tem o Homem-Aranha.
O resultado disso é finalmente o fim. Na verdade QUASE.
Publicada nos Estados Unidos, mas inédita no Brasil, as quatro edições 13 de Heróis Renascem também são conhecidas como “World War 3” e junta os personagens da Marvel com o elenco inteiro de heróis da Wildstorm.
Como qualquer um poderia prever, aquele monte de viagens no tempo do Doutor Destino quebraram o tecido do espaço-tempo. Não sei exatamente o que essa expressão quer dizer, mas ela sempre é dita nos quadrinhos e precede a criação de realidades alternativas. Nesse caso, uma onde as equipes de personagens das duas editoras estão juntas e misturadas diante de uma união vilanesca entre os Demonitas (do WildCATS) e os Skrulls (da Marvel).
A história é apenas um desfile de personagens que deixaram o Amálgama orgulhoso, mas com um monte de bons desenhistas acompanhando o texto de James Robinson.
Consequentemente, a bagunça fica pelo menos divertida de acompanhar.
Para os brasileiros, se em 1997 isso já seria complicado de publicar, agora, com a Wildstorm pertencendo à DC Comics, isso fica quase impossível. O triste disso, é que é uma maluquice tão grande que quase vale a pena pela curiosidade.

Falando em “valer a pena”, o pior de tudo é que a Marvel conseguiu aquilo que queria. A ideia era remodelar sua linha e isso eles conseguiram. Os heróis voltam para o Universo 616 (tradicional) sem lembrar de nada, mas com um incrível futuro à frente.
Capitão América voltou às mãos de Mark Waid, ganhou uma fase incrível e que abriu as portas para mais de uma década de grandes autores passando pelo título. Os Vingadores foram parar nas mãos de Kurt Busiek e George Pérez e essa fase se tornou uma das mais clássicas do grupo (e com desenhos maravilhosos!). O Quarteto Fantástico começou a ser escrito por Chris Claremont e desenhado por Salvador Larroca em uma fase absolutamente divertida e que abriu espaço para um arco posterior ainda mais clássico, escrito por Mark Waid.
Já o Homem de Ferro, bom, ele não estava bem antes, como nunca realmente esteve, então é de se esperar que ele não melhorasse muito depois. O que nunca foi um problema para o Hulk, já que a sua fase sob a batuta de Peter David só continuou sendo incrível.
Então não seria melhor simplesmente ter ido diretamente para essas fases ao invés de perder um ano de histórias ruins? Talvez não.
Sem esse desastre, talvez a Marvel não tivesse descoberto um novo rumo. Sem os heróis no universo tradicional (616) não teriam surgido os Thunderbolts, uma das “coisas novas” mais legais que a Marvel criou nos anos 1990 e que perdura até hoje em boas histórias.
Mas isso quer dizer que Heróis Renascem valeu a pena? É lógico que não, principalmente para quem decidiu ler todas as edições para fazer um texto enorme sobre elas. Tão grande que se você chegou até aqui, vai estar compartilhando comigo daquele sentimento de chegar ao final daquela 12° edição do Capitão América com o Vigia te contando que aquela foi “apenas uma das muitas histórias de Heróis Renascem”, enquanto você torce para que não precise ler mais nenhuma delas e nem uma continuação desse texto.