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O novo Miranha e a fina arte de ser emocionado

Claro que Homem-Aranha: Um Novo Dia é o melhor momento do Cabeça de Teia vivido por Tom Holland e da presença do personagem no MCU. Mas isso se dá principalmente pela sua faceta Amigão da Vizinhança – enfim e graças aos deuses.

Por THIAGO CARDIM

Dia destes, postei algo no BlueSky/Threads que define bem a minha relação com as adaptações cinematográficas do Homem-Aranha: pela minha relação longeva com o personagem (que, inclusive, destaquei nesta crônica aqui), confesso que não consigo ter real distanciamento pra odiar de verdade qualquer um dos filmes do Teioso (nem o terceiro do Sam Raimi, que é de fato horrível). Até aqueles do quais não gosto acabam tendo algo que eu curto profundamente. E chorei em todos, sem exceção.

Obviamente que não seria diferente no recém-lançado Homem-Aranha: Um Novo Dia. Isso eu meio que já sabia. E foi rigorosamente pelo motivo que eu tinha imaginado. Tobey Maguire era um ótimo Peter Parker – ainda que um pouco choroso e depressivo demais. Andrew Garfield encarnava um Aranhoso certeiro, do tipo que escondia todas as frustrações debaixo de um furacão de piadas infames. Já Tom Holland, pra mim, é um bom equilíbrio entre ambos… mas faltava algo. Até agora.

Explico, com minhas próprias palavras: “[Tom é] sim um Homem-Aranha pra uma nova geração. É um Homem-Aranha pro meu filhote mais novo, que AMA a versão do Tom Holland, que aparentemente só entendeu o tanto que o pai gosta do Homem-Aranha quando viu aquele moleque ali meio perdido entre os medalhões na cena do aeroporto de Guerra Civil. E eu lido muitíssimo bem com isso. Mas, e sempre tem o mas, este é um Homem-Aranha do MCU. Aliás, não. É um Homem-Aranha PARA o MCU”.

Não me incomodava, claro, ele ser pupilo do Tony Stark – mas me incomodava, isso sim, que ele existisse primordialmente como ferramenta do MCU. Até que, vejam, a Tia May morreu no filme anterior. E se cumpriu a jornada de Peter, aquele que nós bem conhecemos. Não era Ben, mas sim May? Tudo bem (com o perdão do trocadilho). Mas ali nascia, pra valer, o Aranha “com grandes poderes, vem grandes responsabilidades”. E eis que ele toma uma das decisões mais difíceis de sua história.

Nada mais tipicamente Homem-Aranha.

Nas dobras do uniforme, um banho de realidade

Esquecido pelo mundo inteiro, em especial por MJ (Zendaya) e Ned (Jacob Batalon), Pete passou a dedicar 100% do seu tempo a ser o Homem-Aranha, esquecendo o homem por baixo da máscara. E com um uniforme de tecido, que está anos-luz distante da armadura ultra tecnológica que ele ganhou do Homem de Ferro, o jovem sem grana então encarna uma faceta que faltava ver no universo cinematográfico da Marvel (ainda que seja um filme da Sony, mas você me entendeu).

Um uniforme que deixa ainda mais claro que ele é só um cara.

No caso, o Aranha como amigão da vizinhança. Como o herói simples, do dia a dia, do cotidiano, que não está envolvido apenas com a porra do Thanos e seu estalar de dedos cósmico… mas sim com os ladrões de banco, com os bandidinhos arrombados, com as gangues, com vilões com um quê de ridículo que usam rabos de escorpião. Claro que, sim, em Homem-Aranha: Um Novo Dia temos uma outra trama envolvendo uma mocinha superpoderosa (não preciso falar muito sobre isso, até porque nada ali é algo que se possa chamar de grande surpresa).

Mas aqui é que começa, de fato, a se criar a sua simbiose com Nova York, com a sua população. Não como um integrante dos Vingadores, mas como aquele cara que, nos filmes do Maguire, segura o trem e é protegido pelos transeuntes. Ou como aquele cara que, nos filmes do Garfield, protege o garotinho fantasiado como ele de uma versão mecânica do Rino. E numa história com começo, meio e fim. E que você pode tranquilamente assistir sem precisar recorrer ao esquema de pirâmide dos filmes de hominho.

(Sim, sim, este é um filme conectado ao plano maior do MCU, mas sem usar isso como muleta. Nada, rigorosamente nada, é difícil de entender com um resumo de duas frases feito pelo próprio filme. E parafraseando Chico Barney… se você não conseguir conectar os pontos de um mero filme de hominho, melhor desistir mesmo)

É um novo dia… para ele e para nós

Este Homem-Aranha que a gente vê aqui entendeu, enfim, os sacrifícios que são necessários para ser um herói – e não apenas uma figura pública. Exatamente como a sua contraparte dos gibis, aliás. Só que, aos poucos, ele vai percebendo que ser Peter Parker e, mais do que isso, VIVER como Peter Parker, também é importante pra ele. Pra humanizar ainda mais o Homem-Aranha, esse super-herói que se tornou, de fato, o mais humano dos heróis. E o grande amigão da vizinhança, este que está disposto a ajudar todo mundo, também entende que é preciso pedir ajuda de vez em quando. Que é importante se cuidar e, para isso, fundamental entender que a gente não vive a vida sozinho.

Isso é parte do verbo “amadurecer” – e as transformações corporais que ele sofre acabam tendo grande relação com isso (e não com poderes totêmicos ou vampiros energéticos extradimensionais, GRAÇAS AOS CÉUS).

No fim, este é o grande mote do filme, que tem uma história central absolutamente simples, mas claramente cheia de penduricalhos como todo bom gibi de hominho. Mas, leia-se bem, estou falando aqui de um gibi de hominho BOM. Leve, divertido, descontraído. Uma delicinha. Como deve ser (pois é, nem toda história de super-herói precisa ser Watchmen, por favor, vamos superar isso DE VEZ).

Claro que a aparição do Hulk em toda a sua glória raivosa é bem interessante tanto pros leitores quarentões quanto pra molecadinha que quer comprar brinquedos e jogar videogame de lutinha com eles – e lembremos, claro, que inclusive estes perfis podem se misturar, hahaha. Mas ele poderia, obviamente, ser substituído por qualquer fortão genérico e tá tudo bem. Afinal, a aparição de Bruce Banner como mentor científico do Parker (que é, lembremos, um baita dum CDF) é o que de fato importa pra história.

Assim como é fundamental pra trama o relacionamento que se cria entre o Aranha e a detetive Jean DeWolff, vivida pela maravilhosa Liza Colón-Zayas, a Tina de The Bear, numa fofíssima pegada quase maternal (favor evitar lembrar DAQUELA história por enquanto). Ou a conexão do Aranha com o Justiceiro de Jon Bernthal, ainda bastante psicótico, mas, definitivamente, menos alucinado como nas séries do Demolidor ou no recente especial pro Disney+. Aqui, o que poderia ser só uma participação especial do tipo fan service gratuito se torna um relacionamento inesperado entre duas pessoas muito diferentes entre si, mas que, de alguma forma, conseguem se complementar e ensinar bastante uma à outra (a ponto de chegarmos numa cena bastante fofa e emocional entre eles na conclusão da história).

E pra completar, vemos o Aranha se integrar a um novo canto do MCU, novíssimo eu diria (pra bom entendedor…) mas de maneira bem diferente do que aconteceu com Guerra Civil/Guerra Infinita/Ultimato. De uma forma mais sutil e, ora bolas, total e completamente Homem-Aranha. Mas tá bom, prometo que não vou dar spoilers sobre qual é a tal personagem da Sadie Sink, embora não duvide muito que, daqui uma semana, o próprio combo Marvel/Sony já esteja comentando a parada abertamente.

Só vou dizer que… olha, faz um sentido do cacete. Mesmo. Ainda mais pelos vindouros planos da Casa das Ideias e do Zé do Boné.

Mas preciso te dizer, ainda que nas entrelinhas, tentando não entregar nada, que o filme acerta na mosca DE VERDADE quando começa a amarrar a trama mágica da película anterior, entre Peter, MJ e Ned. E faz esta amarração, graças a todos os deuses, de uma maneira delicada e sem um pingo de magia envolvido nela. Esqueça os contos de fadas. A coisa soa de uma forma absolutamente vida real. E com um tom que, no fim, pode até descer um pouco amargo. Mas, como dizia o Poeta Chorão… é assim que é.

Este é talvez o mais EMOCIONAL dos filmes do Aranha neste universo integrado da Marvel. E um filme realmente feito pros emocionados.

Porque, veja só…

… vou confessar que ando achando tão insuportável quanto a galera que não aceita críticas aos filmes da Marvel também uma OUTRA galera que agora vive de “a Marvel morreu, tudo que a Marvel lançou desde Ultimato é uma merda, já deu de filme de herói…” e por aí vai. Tudo igualmente chato.

“Ah, porque vocês, fãs da Marvel, são muito emocionados”, disse por aí um crítico de cinema pentelho.

Homem-Aranha: Um Novo Dia é um filme da Marvel (na verdade da Sony produzido pela Marvel, mas, bom, vocês me entenderam). É um filme de super-herói. Mas, acima de tudo, é um bom filme. Ponto. O melhor do Aranha vivido por Tom Holland. O melhor retrato do Aranha no MCU. Um filme pop, um filme pipoca, um filme diversão, mas ainda assim, um bom filme, um filme gostoso, um filme saboroso.

E é um filme que, sim, traz aquela sensação delícia de sair da sala de cinema emocionado. Empolgado. Querendo falar sobre o filme, querendo falar sobre o Homem-Aranha, querendo falar sobre os gibis do Homem-Aranha, querendo ler gibis do Homem-Aranha… De um jeito que fazia tempo que não rolava por aqui.

Uma sensação, confesso, similar ao tanto que foi revigorante ver, no evento promovido pela Sony e pelo Omelete na Avenida Paulista, no domingo anterior à estreia, no qual centenas de pessoas estavam fantasiadas de Homem-Aranha… incluindo MUITAS crianças. Mas, assim, muitas crianças MESMO. Eu tava lá, com a minha camiseta do Escalador de Paredes, e comentei isso com a Gabi. Crianças de 3, 4, 5, 10 anos de idade. Crianças empolgadas em ver o Homem-Aranha, em falar com o Homem-Aranha, em falar do Homem-Aranha, em brincar de Homem-Aranha.

Exatamente como eu fiquei assim que saí do cinema.

Um bom filme do Homem-Aranha mexe com o fã em mim, aquele que ama o personagem desde sempre, ativa lembranças e memórias gostosas da minha infância, da minha adolescência, da vida adulta… e também da infância dos meus próprios filhos. São, de fato, muitas camadas. E se eu não for ficar emocionado com isso, olha… com o que mais vai ser?

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