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Blades of Furry e o melhor momento dos quadrinhos românticos

Nova HQ de Deya Muniz, criada ao lado de Emily Erdos, transforma batalhas de patinação no gelo em uma história de romance, rivalidade e humor que conquistou quase 50 milhões de leitores antes mesmo de chegar às livrarias.

Por THIAGO CARDIM

Há alguns anos, precisamos ser honestos, seria difícil imaginar que uma história sobre animais antropomórficos disputando campeonatos de patinação no gelo enquanto vivem um romance slow burn pudesse reunir dezenas de milhões de leitores ao redor do mundo. Hoje, esse tipo de mistura improvável virou praticamente uma especialidade dos quadrinhos publicados na internet.

É justamente desse universo que nasce Blades of Furry: Fofúria no Gelo, lançamento da Plataforma21 que traz ao Brasil a nova obra de Deya Muniz, quadrinista brasileira responsável pelo sucesso internacional A Princesa e o Queijo Quente.

Criada em parceria com sua esposa, a norte-americana Emily Erdos, a HQ reúne romance LGBTQIAPN+, esportes, humor, artes marciais e um universo furry em uma narrativa que encontrou seu público primeiro nas telas dos celulares para, depois, conquistar espaço nas livrarias.

Um fenômeno que começou como webcomic

Antes de ganhar edição impressa, Blades of Furry nasceu como uma webcomic publicada no Webtoon, principal plataforma mundial dedicada aos quadrinhos digitais.

Não foi apenas mais uma publicação entre milhares. Em poucos anos, a série acumulou quase 50 milhões de leituras, tornando-se um dos grandes sucessos recentes da plataforma. Parte desse alcance vem justamente da forma como o Webtoon mudou o consumo de quadrinhos ao redor do planeta.

Pensadas para leitura vertical em smartphones, as webcomics aproximaram uma nova geração de leitores, especialmente jovens interessados em romances, fantasia, terror e narrativas LGBTQIAPN+. Não por acaso, títulos como Heartstopper, Lore Olympus e agora Blades of Furry fizeram o caminho inverso ao que acontecia tradicionalmente: nasceram no ambiente digital antes de chegarem às livrarias em edições físicas cuidadosamente produzidas.
A edição brasileira acompanha essa tendência e ainda acrescenta conteúdos inéditos, incluindo comentários das autoras sobre o processo de criação dos personagens e do universo da série.

Patinação, pancadaria e romance

À primeira vista, a premissa parece saída de um experimento curioso. Imagine um esporte que mistura a elegância da patinação artística com golpes de artes marciais. Esse é o ponto de partida da competição que move Blades of Furry.

O protagonista é Emile, um jovem recém-chegado à liga profissional que, logo em sua estreia, precisa enfrentar justamente seu maior ídolo: Radu, campeão absoluto da modalidade. Radu carrega uma fama intimidadora. Além de dominar completamente as batalhas sobre o gelo, sua aparência soturna, sua postura reservada e seu comportamento misterioso alimentam um boato que corre entre os competidores: talvez ele seja realmente um vampiro.

Quando Emile consegue derrotá-lo de maneira inesperada, a rivalidade toma um rumo completamente diferente. Em vez de buscar vingança, Radu decide treiná-lo. É nesse momento que a HQ deixa claro que sua verdadeira disputa não acontece apenas dentro das arenas.

Treinos, conversas, aproximações tímidas e uma tensão romântica construída aos poucos fazem da relação entre os dois o verdadeiro coração da narrativa. O chamado slow burn – no caso, quando um romance se desenvolve gradualmente, sem pressa – aparece aqui como um dos principais motores da história.

Muito além da estética furry

Embora a ambientação furry seja um de seus elementos mais chamativos, Blades of Furry está longe de depender apenas dela. No universo criado por Emily Erdos e Deya Muniz, personagens antropomórficos convivem naturalmente em um mundo onde o foco está muito mais nas relações humanas (ou melhor, animais-humanizados) do que na própria estética.

Ela funciona quase como uma linguagem visual capaz de ampliar emoções, humor e expressividade. O resultado dialoga tanto com fãs da cultura furry quanto com leitores de romances gráficos contemporâneos, mangás esportivos, webcomics e narrativas LGBTQIAPN+.

No fim das contas, trata-se menos de uma HQ sobre animais e mais de uma história sobre rivalidade, amadurecimento, afeto e identidade.

Duas artistas, uma mesma sensibilidade

A parceria entre Emily Erdos e Deya Muniz também ajuda a explicar a personalidade da obra. Emily nasceu no Meio-Oeste dos Estados Unidos e construiu sua formação artística estudando no Massachusetts College of Art and Design e no Savannah College of Art and Design, onde concluiu seu mestrado em Belas-Artes. Seu trabalho costuma combinar narrativa emocional, personagens expressivos e um desenho fortemente influenciado pela animação contemporânea.

Já Deya Muniz é carioca e cresceu consumindo mangás shōjo, animações e histórias protagonizadas por personagens carismáticos. Em 2017 mudou-se para os Estados Unidos justamente para cursar arte sequencial, caminho que acabou levando não apenas ao desenvolvimento de sua carreira internacional, mas também ao encontro com Emily.

Hoje, as duas trabalham juntas em praticamente todas as etapas criativas de suas histórias.

No Brasil, Deya já era conhecida graças ao enorme sucesso de A Princesa e o Queijo Quente, romance gráfico que conquistou leitores em diversos países e consolidou seu nome entre os principais autores brasileiros da nova geração de quadrinhos internacionais.

A Plataforma21 e uma nova geração de leitores

A chegada de Blades of Furry também reforça um movimento importante dentro do catálogo da Plataforma21. Criado pela VR Editora, o selo nasceu com foco em literatura jovem, fantasia, cultura pop e romances contemporâneos. Desde o enorme sucesso de Maze Runner, a editora passou a investir cada vez mais em obras que dialogam diretamente com leitores formados na internet.

Publicar uma HQ como Blades of Furry parece consequência natural dessa trajetória. Ao apostar em uma webcomic que mistura esportes, romance, diversidade e humor, a Plataforma21 não apenas acompanha uma tendência internacional, como também ajuda a consolidar no mercado brasileiro um formato que há muito deixou de ser apenas um fenômeno digital.

Porque, no fim das contas, Blades of Furry talvez diga menos sobre batalhas de patinação e muito mais sobre o presente dos quadrinhos. Um presente em que boas histórias já não precisam nascer nas páginas de uma revista para conquistar milhões de leitores.

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