C6 no Rock e uma bela imersão no BRock
Uma estrutura maravilhosa com shows de grupos icônicos celebrando álbuns emblemáticos de suas carreiras. Viva a música e viva os encontros musicais!
Por RAFAEL FLEMING*
Acredito que faz alguns meses que fiquei sabendo da existência do festival “C6 no Rock”, feito pelo banco para incrementar seu calendário cultural (junto do C6 Fest, que em 2026 trouxe Magdalena Bay, um irmão do Wynton Marsalis e o Robert Plant). A ideia era fazer um festival mais temático e sua primeira edição focou no BRock (alcunha como ficou conhecido o Rock Nacional dos anos 1980). Mas a ideia não foi apenas chamar bandas que ainda estão na ativa para tocar: os grupos tiveram seus shows baseados em álbuns emblemáticos de suas carreiras.
O primeiro dia nos trouxe Plebe Rude (O Concreto Já Rachou, 1986), Paulo Ricardo (RPM, Rádio Pirata Ao Vivo, 1986), Titãs (Cabeça Dinossauro, 1986), Os Paralamas do Sucesso (Selvagem?, 1986) e um tributo à Rita Lee, organizado pelo seu filho Beto Lee, e trazendo intérpretes como Fernanda Abreu, Alice Caymmi, Sandra de Sá, Baby do Brasil, Marina Sena e Catho.
Infelizmente, meu trabalho principal (professor de música) me impediu de ver o show da Plebe Rude, mas não posso dizer que senti muito. O disco de estreia da banda, produzido por Herbert Vianna, é um bom disco com apenas 20 e poucos minutos e que trouxe clássicos do punk nacional como “Até Quando Esperar”, “Proteção” e “Minha Renda”, mas não me atraiu o suficiente para ficar triste pela perda. Mas podia ter visto o Seabra e o Clemente, né? Fica pra próxima.

Começamos então os trabalhos com Paulo Ricardo e seus amigos que interpretaram (não na ordem, para agonia do meu TOC) o álbum “Rádio Pirata Ao Vivo”, sucesso absoluto de vendas e que tanto consagrou quanto amaldiçoou a banda do moço, RPM.
O galã Paulo é o único remanescente da banda, mas entregou um show à altura do seu legado. Até pensei que o guitarrista fosse o membro original Fernando Deluqui, mas não, era outro cara… que tocava tão bem quanto ele. Os timbres estavam todos maravilhosos, o baixo estava no talo, como deve ser, e o tecladista também arrasou nos solos e sintetizadores. Me surpreendi muito com ter sido o MELHOR show do festival. Logo vocês entenderão o porquê.
Titãs era uma banda conhecida pela quantidade exagerada de integrantes para uma banda de rock. No seu auge, chegou a ter 9 integrantes e sua fase clássica contava com apenas um a menos (8). Desses, apenas 3 se mantiveram até o dia de hoje. Branco Mello, Sérgio Britto e Tony Belotto.
Para interpretar seu álbum mais clássico, “Cabeça Dinossauro”, a presença de seus ex-colegas foi bem sentida. Branco, que tivera um câncer de garganta no passado, se esforçou e deu o seu melhor em músicas como “Tô Cansado”, sua presença já servindo para evocar a raiva e críticas adolescentes presentes no álbum.
As linhas de baixo executadas por Nando Reis no original, no entanto, perderam totalmente a potência, que foi mais sentida no groove de “Estado Violência”. Sérgio ainda manda bem nos vocais e teclados e Tony Belotto parece estar no seu auge guitarrístico, mas não convence substituindo os vocais principais dos antigos membros.
A mudança de tom em “Família” e uma aparente desorganização na execução renderam alguns momentos de vergonha alheia. Mas “O Quê” continua encerrando bem o álbum. Saldo final: deveriam ter esticado a reunião dos membros originais para esse festival. Só voltarei a ver Titãs quando se reunirem novamente. Muito triste.
Paralamas já foi bem melhor, começando o show com o peso de sua trajetória vitoriosa e, ao contrário da banda anterior, por nunca terem perdido um integrante. O power trio carioca se prova ainda eficiente em seu ofício e os membros de apoio são apenas a cereja de um bolo bem bom.
Apesar disso, não tocaram “Selvagem?” na ordem original T-T.
Ainda assim, o peso do riff da faixa-título abriu bem. Em seguida, “Teerã” (um lado B que eu nunca tinha visto ao vivo) encantou pelo ineditismo esperado, mas Herbert aparentemente teve problemas com a guitarra e/ou pedais durante o solo, o que foi bem frustrante, principalmente para uma banda que é conhecida pelo profissionalismo e carisma.
O show continuou com a versão de Tim Maia de “Você”, que infelizmente não foi o cover original, mas sim o arranjo presente no excelentíssimo ao vivo “Vamo Batê Lata”, que emenda com “Gostava Tanto de Você” e tem um belo arranjo de metais. “Melô do Marinheiro” e “Marujo Dub” foram executadas em sequência, mas sem o destaque para a guitarra e o instrumental como no álbum nessa última.
Depois de fechar “Selvagem?”, ainda deu tempo de desfilar sucessos monumentais do BRock: “Lanterna dos Afogados”, “Meu Erro” e “Óculos” não podem faltar no setlist e servem para exaltar a força da banda, principalmente a da maior cozinha do rock brasileiro, Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria). Monstros. Infelizmente, o problema técnico os colocou abaixo do Paulo Ricardo.

A noite se encerrou com o já citado tributo à Rainha do Rock Nacional, nossa saudosa Rita Lee. A banda estava bem afiada e recebeu muito bem as diversas intérpretes. Fernanda Abreu abriu (hehe) com “Saúde”, sonzeira que me transportou diretamente para o melhor show gravado da diva na minha opinião, o “MTV Ao Vivo”. O jogo já estava ganho.
A grande Sandra (de) Sá trouxe seu vozeirão para “Nem Luxo Nem Lixo”, onde trocou o verso “até duvido da fé” por “só não duvido da fé”. Nem todo mundo tinha a coragem da Rita em desdenhar de qualquer deus. Acontece. Agora, quem pareceu ter deixado Deus (ou deus) de lado e entrou no palco nos 220 foi Baby do Brasil. Longe de querer pregar o apocalipse, ela emendou uma versão meio xoxa de “Ando Meio Desligado” que emendou com “Mania de Você”, onde mostrou um fogo meio constrangedor pra cima do herdeiro de Rita, Beto Lee. O tesão não tem idade.
A ex-Juliana Flossi Marina Sena entrou depois de um suspense (será que tava em ligação com o futuro global?) e entregou uma interpretação bem-feita de “Doce Vampiro”. A menina é boa mesmo.
Logo depois disso, eu e minha senhoura decidimos nos adiantar para escapar do tumulto pós-show e chegar em casa a salvo dos perigos noturnos. Mas enquanto comíamos na saída, ainda deu pra ouvir versões para a minha favorita “Coisas da Vida” e “Jardins da Babilônia” (com belos solos e arranjos).
Arranjando forças para o Dia 2
Antes do segundo dia, pensando ainda sobre o primeiro, fui percebendo que nem Paulo Ricardo, em meio a suas quebradeiras pós-punk 7/8, nem os desfalcados Titãs fizeram qualquer menção aos membros antigos de suas bandas, que foram fundamentais para a criação das obras ali executadas. Seria o BRock meio narcisista?
Também percebi que todos os álbuns do primeiro dia eram oriundas do mítico ano de 1986. Só notei isso enquanto escrevia o texto. Achei que eu e a divulgação tínhamos comido maior bola em não divulgar ou incorporar ao evento o fato de ser uma celebração de 40 anos dos álbuns, mas não eram todos desse ano, como veremos na crítica desse segundo dia.
No segundo dia, consegui chegar bem mais cedo e pegar a plateia ainda praticamente vazia, o que me proporcionou assistir os primeiros dois shows a três pessoas de distância da grade!! Yay!! O primeiro show foi da banda IRA!, um dos meus favoritos. Eles continuam com a energia de sempre. Nasi, apesar de sair muito do tom nas músicas do bis, conseguiu empolgar a plateia bradando os hinos do álbum Vivendo e Não Aprendendo (1986). A abertura com “Envelheço na Cidade” já ganhou a todos. Edgar Scandurra ainda impressiona, rivalizando com Herbert como um dos melhores guitarristas do BRock. Ver sua guitarra com as cordas invertidas ainda me deixa chocado e totalmente desorientado.
“Dias de Luta” foi bem emocionante, me incomodando apenas o coro da plateia acompanhando o riff de “Porra, caralho, cadê meu baseado?”. Que porra é essa? (Nota do Editor: ah, estes jovens que não conhecem as tradições…)
O restante da banda não é da formação original (que, num momento stalinista, tiveram seus rostos borrados nas fotos de acervo da banda) mas manda bem. Solos de piano em “Tanto Quanto Eu” e um baixão no talo, como deve ser, em “Vitrine Viva” mantiveram o público engajado, tomando tanto sol quanto a banda, o que Edgar ironizou em “Tarde Vazia” no bis, mudando um dos versos finais para “tomando sol no Ibira”.

O desfile de sucessos só não inclui a problemática faixa “Pobre Paulista”. A decisão com certeza foi acertada, mas deixou alguns fãs mais estranhos desapontados. No final, um deles ainda conseguiu que seu vinil fosse assinado pela banda, o que pra mim era inédito num festival. Muito bom. A banda encerrou com o clássico “Núcleo Base”, como não poderia deixar de ser, mas não antes de mandar um dos seus sons mais lado B, “Rubro Zorro”, vindo direto do discaço “Psicoacústica”, sucessor do “Vivendo e Não Aprendendo”, lançado em 1988, fracasso de público, mas que foi ganhando status de cult com o passar do tempo.
Após meia hora de DJ, mandando as maiores pedradas dos artistas que faltaram no festival, a Blitz entrou em palco com uma banda bastante completa, com percussão e duas backing vocals para executar as músicas irreverentes e divertidas de “As Aventuras da Blitz” de 1982. Vale ressaltar que todas as bandas foram bastante pontuais, o que reforça a ótima organização do evento.
O grupo provavelmente só mantém da formação original o frontman Paulão da Regulagem (que alguns chamam de “Evandro Mesquita”), o que abre espaço para vários membros mais novos brilharem. Duas delas são a baixista Sara Rosemback, que brilha no instrumento, e a cantora Nicole Cyrne, que contribuíram e muito para a musicalidade da apresentação, trajadas de acessórios vindos direto da década de 80, o que mantém o colorido da proposta.
Os pontos altos do show ficaram para a sessão final, onde a grande Fernanda Abreu, que já havia participado do tributo à Rita Lee no dia anterior, se juntou à banda para desfilar diversos clássicos, muitos deles censurados pela ditadura, entre elas “Mais uma de Amor (Geme, Geme)”, “Cruel, Cruel Esquizofrenético Blues” e “Beth Frígida”, onde podemos ouvir lampejos de Frank Zappa, o que era a proposta inicial da banda, como já declarou Lobão (que era o baterista original do grupo, e que será citado mais a seguir).
O terceiro show do dia era com certeza o mais esperado, afinal, Legião Urbana com certeza é a banda com os fãs mais assíduos do BRock. Os remanescentes Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá já fizeram diversos tributos à finada banda comandada por Renato Russo, entre elas uma com Wagner Moura. O responsável por empunhar o microfone dessa vez foi André Frateschi, que já está nessa missão há mais de 10 anos. Foi a primeira vez que o vi no posto e ele consegue emular muito bem o timbre do ex-frontman, apesar das “coreografias” que ele pega emprestado de Russo parecerem meio forçadas e bobas.
O disco encenado foi “Dois”, também de 1986, que levou os fãs à loucura desde o começo com “Daniel na Cova dos Leões”. A faixa “Quase Sem Querer” embalou bem os casais e foi concluída com um belo solo de Dado, muito mais à vontade para improvisar do que sempre esteve enquanto a banda ainda estava na ativa. “Acrilic On Canvas” foi executada num andamento muito mais lento que o original, o que levou ao comentário da minha esposa de que “o baterista estava meio mole”. Não posso deixar de concordar com ela, já que Bonfá nunca foi considerado um grande baterista, infelizmente.
Os clássicos continuaram a vir e uma gaita muito bem-vinda iniciou junto da baladinha folk “Eduardo e Mônica”. O tema instrumental “Central do Brasil” foi sumariamente ignorado, para loucura do meu TOC, e o clássico dos clássicos “Tempo Perdido” veio à tona, com muita emoção dos presentes. “Metrópole” trouxe a pegada mais punk da banda, com direito a muita interpretação teatral de André.
“Plantas Embaixo do Aquário”, a faixa mais dark do grupo, foi cantada incluindo citações para o lado B “Canção do Senhor da Guerra”. Pois é, “Não deixe a guerra começar” continua mais atual que nunca. “Música Urbana 2” foi dividida em uma parte mais acústica e outra com toda a banda, mas diferente da versão definitiva lançada em “Músicas Para Acampamentos”. E “Andrea Doria” trouxe mais uma vez a gaita de Frateschi, que considerei uma intervenção desnecessária para essa bela canção.
O baile se encerrou com a sequência comunista de “Fábrica”, muito emocionante e pra cantar a plenos pulmões; “Índios”, encerrando o álbum com sua letra difícil, recitada muito bem pelo vocalista; e o bis contou com “Há Tempos” e “Pais e Filhos”, recheada de solos blueseiros de Dado. “Central do Brasil” foi executada pelos alto-falantes após o término do show, só para não passar em branco.
Nessa hora, achei que o público iria evadir em massa. Porque a próxima atração, Marina, dificilmente tem a mesma adoração do que a Legião, mas me surpreendi, o local ainda abrigava muita gente. O álbum “Fullgás”, de 1984, junto do da Blitz, eram os únicos com os quais eu não tinha muita intimidade, e me surpreendi muito com a qualidade do álbum, uma gema esquecida do synth pop brasileiro.
A abertura com a faixa-título já me ganhou, com um incrível solo de baixo de Liminha, grande produtor e baixista dos Mutantes. “Pé Na Tábua”, interpolação de “Ordinary Pain” do Stevie Wonder que manteve a qualidade. A versão para “Mesmo Que Seja Eu” de Erasmo Carlos precisou de três tentativas para engrenar, mas quando foi, não fez feio com Marina ironizando que “todo mundo precisa de um homem pra chamar se seu, mesmo que seja eu”. Imagino que o cover tenha chocado na época pela provocação de gênero.

“Me Chama” contou com a participação de Lobão, compositor da música, e novamente de Liminha, o que formou uma bela imagem de um belo trio essencial dos anos 80. A vinheta “Cícero e Marina” trouxe a bela poesia de Antônio Cícero, irmão de Marina e falecido em 2024. O álbum encerra com Marina chamando Lobão para o palco, sem ser atendida, o que demonstrou um pouco de bagunça nos bastidores. “Nosso Estilo” foi interpretada mais uma vez com Liminha, e Lobão chegou no meio da execução, tocou teclados, fez backing vocals empolgados e adiantou a contagem para o final da música, deixando todos meio constrangidos.
Acabado o álbum, Marina agradeceu muito à banda por ter recriado os arranjos originais do disco, apresentando-os, o que é sempre muito louvável. Antes do fim, ainda houve tempo para uma reprise de “Fullgás” e um tributo rápido à Legião com “Ainda é Cedo”, que ficará marcada pelas insanas intervenções de Lobão novamente.
Não ficamos para ver o tributo a Cazuza. Cheguei a ponderar sobre se haveria uma próxima oportunidade de ver Arnaldo Antunes, Frejat, Johnny Hooker, Leo Jaime, Leoni, o próprio Lobão e Maria Gadú, mas o cansaço e o sopro do dragão da iminente segunda-feira se impuseram. Como não cheguei a ver nenhum vídeo dessas interpretações, imagino que não tenha tido nada imperdível.
No fim, o saldo do festival C6 no Rock foi bem positivo. A estrutura maravilhosa (banheiros com cabines fechadas e pias, quem diria!!!), diversos estabelecimentos alimentícios, chope Eisenbahn e Feira do Vinil – onde me apaixonei por um exemplar da “Tropicália ou Panis et Circenses” que saía pela bagatela de 370 reais… ou seja, não deu – proporcionou um reencontro com o BRock anos 80, o que mostrou que alguns ainda seguram muito bem a peteca depois de 40 e tantos anos, e outros nem tanto, mas o que importa é que estavam ali e deram seu melhor nesta celebração.
Viva a música e viva os encontros musicais!
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* Rafael Fleming é professor de música, guitarrista, podcaster e divulgador musical. Saiba mais sobre ele em @rafaelflemingmusic.