40 anos depois, o Papai Noel ainda é um Velho Batuta
Clássico do ícone punk Garotos Podres se torna pivô de um bizarro inquérito policial – mas nos dá a chance de revisitar a vida e obra da banda
Por THIAGO CARDIM
Quando o punk chegou no Brasil, ele veio pra incomodar…e poucas bandas encarnam isso tão visceralmente quanto os Garotos Podres.
Formados em 1982 na cidade de Mauá, no ABC paulista, os Garotos Podres nasceram no coração de uma cena punk que fervia nas periferias urbanas. Com influências claras das bandas punks do final dos anos 70 e início dos 80, o grupo se tornou uma das frentes mais politizadas e irreverentes do punk rock nacional, com letras irônicas, críticas sociais duras e irreverência sem filtro.
A estreia ao vivo aconteceu em 1983, num festival beneficente em Santo André, e rapidamente o quarteto formado por José Rodrigues Mao Júnior, o Mao (vocalista e gaitista), ex-integrante da banda Submundo, de Santo André; Godô (baixista); Mauro (guitarra) e Maurício (bateria) começou a ganhar notoriedade.

Seus integrantes eram originalmente jovens estudantes, participantes de um grupo político chamado Alicerce da Juventude Socialista, de orientação trotskista e próximo ao Partido dos Trabalhadores (PT). A banda realiza sua primeira apresentação pública em 1983, em um evento na cidade de Santo André em prol do fundo de greve dos Metalúrgicos do ABC. Em 1984, o grupo tem sua primeira alteração: saem Godô e Maurício, e entram Michel Stamatopoulos, o Sukata (baixo) e Luís Manoel Gonçalves, o Português (bateria).
O primeiro álbum da banda, Mais Podres do que Nunca, foi lançado em 1985, em plena ditadura civil-militar brasileira. Gravado e mixado em apenas doze horas com recursos modestos, o disco saiu pelo selo Rocker e logo virou um símbolo de resistência do punk nacional — sistematicamente passando por diferentes tiragens e chegando a vender cerca de 50 mil cópias, uma marca impressionante para um lançamento independente da época. Em 2016, a revista Rolling Stone Brasil o elegeu como o 3º melhor álbum de punk rock brasileiro, consagrando sua importância histórica.
Uma das histórias mais emblemáticas do disco envolve a célebre música “Papai Noel Velho Batuta”. A mesma canção que, QUATRO DÉCADAS DEPOIS, virou o centro de uma “polêmica” em 2025.
Pois então… Papai Noel é uma figura CRISTÂ?
Em 2025, a banda voltou a aparecer nas manchetes por uma razão inusitada. Segundo nota oficial publicada nas redes sociais do grupo, todos os integrantes e até o empresário foram indiciados e interrogados em um inquérito policial depois que um denunciante – descrito pela banda como membro de uma seita de extrema-direita – acusou Papai Noel Velho Batuta de incentivar “violência em pessoas” por mencionar sequestro e morte.
O caso ganhou contornos ainda mais bizarros quando a própria banda lembrou que a música, originalmente aprovada pelo Departamento de Censura da Polícia Federal em 1986, já havia passado pelo crivo autoritário da ditadura militar sem ser barrada, o que levou Mao a apontar o episódio como um novo tipo de tentativa de cerceamento em pleno século XXI — ironia máxima para uma canção que já foi inventiva ao “burlar” a censura há quase quatro décadas.
A letra original se chamava “Papai Noel Filho da Puta”, mas naquele contexto de censura rígida, enviar letras provocativas para o Departamento de Censura Federal quase sempre significava ter sua execução proibida.
Para burlar essa vigilância, a banda adotou um jogo de palavras: “velho batuta” soava parecido com a expressão ofensiva, mas passou pela censura sem ser barrado — um truque que acabou tornando a própria versão “censurada” tão icônica quanto o desejo original de provocação. Essa estratégia teve reflexos também em outras faixas, aliando contestação direta e criatividade linguística num dos períodos mais duros da história recente do Brasil.
Um dos trechos mais surreais do inquérito é aquele que diz que, “apesar de Papai Noel ser uma figura lendária, que representa uma cultura mundial cristã”.

Oi?
“A imagem do Papai Noel que conhecemos hoje é resultado de um processo histórico complexo, que combina elementos de diferentes tradições, incluindo as crenças nórdicas e a figura de São Nicolau”, explica o historiador, escritor, museólogo e professor de literatura e teologia, Manoel Monteiro, em entrevista pra CNN Brasil. “Essa fusão cultural explica as raízes profundas e a riqueza de significados associados ao Papai Noel”.
Porque além das histórias do bispo grego São Nicolau, do século IV, o mito do Papai Noel (ou, em alguns cantos do mundo, Father Christmas ou Santa Klaus, com K), mistura itens ligados às celebrações pagãs do solstício de inverno, além de ter raízes nas lendas nórdicas, especialmente na figura de Odin, o Deus supremo de Asgard.
E, vamos lembrar que: 1) a atual visão do Papai Noel, velhinho fofo vestido de vermelho e de barba branca e fofinha, é fruto de… uma propaganda da Coca-Cola; 2) Papai Noel NÃO EXISTE.
Briga pelo nome da banda: punk também processa
Outra história bizarra (e infelizmente muito humana) envolvendo os Garotos Podres surgiu décadas depois do lançamento do disco: uma briga judicial pelo nome da banda. Em 2012, problemas internos — impulsionados por divergências políticas e ideológicas — culminaram na separação dos integrantes.
Quando a gente diz “divergências políticas e ideológicas”, basicamente estamos querendo dizer “Mao continuou um cara de esquerda enquanto o restante da trupe saiu do armário como bolsonarista”. Sukata, por exemplo, tentou ser candidato pelo partido Patriota, enquanto se posiciona contra a legalização do aborto e a “teoria de gênero” (dodói chapéu de alumínio detected).
Mao registrou o nome Garotos Podres no INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial), enquanto outros membros remanescentes tentaram manter o funcionamento da banda sob o mesmo nome. Isso gerou disputas judiciais e um período em que dois grupos diferentes tocavam músicas da banda, um comandado por Mao e outro pelos ex-integrantes.
O frontman chegou a liderar um projeto chamado O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, antes de retomar o uso do nome Garotos Podres após anos de batalhas legais, agora com uma banda de integrantes mais jovens e mais alinhados com princípios que, vejam vocês, fazem muito mais sentido dentro da própria história da banda e do próprio punk rock, né?
“É comum o camarada que, incendiário na juventude, depois de velho, entra para o Corpo de Bombeiros”, disse Mao, em entrevista pra Folha de S.Paulo. “Muitos elementos do rock da década de 1980 aderiram a essa onda reacionária. Morro, mas não posso permitir que [a banda] se associe a um pensamento fascista”.

E hoje, os Garotos Podres ainda tocam?
Opa, mas claro que sim! Nos últimos anos, os Garotos Podres continuaram ativos. Atualmente a formação conta com Mao (vocal), Rinaldi (guitarra), Uel (baixo) e Negralha (bateria): uma equipe que honra o legado crítico da banda enquanto segue levando seu punk ácido para palcos, festivais e uma base de fãs que atravessa gerações.
Três anos atrás, em 2022, eles já tinham encarado uma barra num show na cidade de Pederneiras, interior de São Paulo. Segundo a banda, um homem agrediu pessoas na plateia e tentou atingir o vocalista Mao. As agressões teriam começado após a banda tocar uma música criticando o presidente da República na época, atualmente o presidiário mais célebre do país. “A polícia, que estava no local com uma base e uma viatura, se omitiu. Foi conivente com o agressor. O homem agrediu duas pessoas, sendo uma delas uma mulher, entrou no carro e foi embora, a polícia da cidade nada fez”, disse o grupo, em comunicado oficial.
A banda tentou seguir com a apresentação, mas, foram coagidos pelo Secretário de Cultura da época, Geraldo Antonio Cardoso Junior, pedindo para que o grupo não falasse mais de política. Ao insistir em tocar, a Defesa Civil cortou a energia do palco.
Em 2025, o álbum clássico Mais Podres do que Nunca completou 40 anos, comemorados com relançamentos em vinil e shows esgotados, como um no Sesc Belenzinho em São Paulo que celebrou a longevidade da banda e a continuidade do punk no Brasil.
Por que os Garotos Podres importam (ainda hoje)?
Os Garotos Podres não são apenas uma banda: são uma narrativa viva da cultura punk brasileira. Eles enfrentaram censura de Estado, inventaram soluções linguísticas criativas para driblar proibições, criaram hinos que ainda ecoam décadas depois e ainda lidaram com conflitos pessoais e jurídicos dignos das melhores histórias de bastidores do rock.
Em 2025, o punk deles ainda ressoa: não como ruído isolado, mas como um grito que se recusa a ser domesticado.
EM TEMPO… “celebrando” a situação irreal envolvendo seu grande hit, os Garotos Podres aproveitaram a chance e lançaram um clipe animado da música, com traço do cartunista Leandro Franco e a participação especial de uma figura bastante… PECULIAR.
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