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Guará em busca de títulos plurais para furar de vez a bolha dos quadrinhos

Depois de cortar laços com Luciano Cunha e seu personagem, o Doutrinador, a editora busca uma nova identidade sem deixar de expandir, incluindo aí novos projetos audiovisuais

Por THIAGO CARDIM

Na vida, a gente tem sempre que andar pra frente, né. Evoluir, amadurecer, aprender, tentar ser alguém melhor. E embora estejamos vendo parte do mundo infelizmente andar PRA TRÁS, pelo menos podemos dizer que dá gosto ver muitos outros alguéns seguindo adiante, ainda que deixando de lado uma trajetória de sucesso mais “fácil” e encarando o caminho mais difícil. Veja só o exemplo da Universo Guará, que se descreve como uma mistura de editora e núcleo criativo.

Conhecidos principalmente pela bem-sucedida publicação do personagem Doutrinador, criação de um Luciano Cunha que também era o grande porta-voz da empresa, no final do ano passado eles passaram por uma mudança de rumos radical. “Rolou uma divergência ideológica entre o Luciano e o Gabriel Wainer (ator, roteirista e diretor da Guará) e a coisa se tornou insustentável em certo momento”, explica Rapha Pinheiro, atual editor-chefe da Guará, em entrevista pro Gibizilla. “Luciano saiu e levou seu personagem (que a Guará não fazia nenhuma questão de manter) e o Gabriel se comprometeu a mudar a imagem da editora e fazer um ‘extreme makeover’ de tudo”.

Importante lembrar que o Doutrinador, uma espécie de Justiceiro tupiniquim que virou filme e série, logo saiu de cima do muro e ganhou uma guinada notável para a direita (como bem se suspeitava), assim como aconteceu com seu autor. Não dava pra não se posicionar. E a Guará sacou isso de imediato, ainda que significasse perder um case de sucesso. “Foi nesse momento que eu entrei na jogada. Para sanar qualquer dúvida sobre os motivos do Luciano e do Gabriel terem trilhado caminhos diferentes, recomendo dar uma olhada nos títulos que a Guará está lançando e o que a nova editora do Luciano está prometendo…”, afirma o Rapha.

Eita, não precisa não. Afinal, como o próprio editor gosta de lembrar, “a gente tenta não ficar pensando muito em coisa ruim e acreditamos que é melhor pensar no que podemos fazer de bom no futuro do que dar palco pro que aconteceu”. Aqui, a gente concorda SUPER. Ficaram algumas viúvas do Doutrinador para trás, seguindo a editora nas redes sociais e afins, como era de se esperar. “Em cada novo post sobre Eu Sou Lume ou Kriança Índia, especialmente, essa galera se pronuncia e nunca é falando coisa boa. Apesar disso, tivemos um crescimento legal das redes sociais e vemos que o perfil está mudando”.

A aposta, de acordo com o Rapha, é justamente furar a bolha dos quadrinhos e chegar em potenciais novos leitores mesmo. Para isso, a ideia deles é fazer quadrinhos mais plurais, protagonizados por mulheres, negros, LGBT, que conversem com a realidade do brasileiro médio não só na locação dos gibis, mas também nas temáticas e conflitos dos personagens. “Apesar disso tudo, ainda somos pequenos e estamos lutando constantemente pra realmente furar essa bolha e expandir. Um passo de cada vez”.

Da mesma forma que algumas editoras menores, que apostam primordialmente em gibis nacionais, a Guará inteligentemente também está trabalhando em construir uma boa base de fãs fiéis, fora do circuitão, reforçando a presença não apenas dos títulos, mas da editora enquanto MARCA. “A Guará está buscando criar uma identidade sim. Colocamos bastante esforço na identidade visual da editora, no tom com o qual falamos com o público e em uma linha editorial que acreditamos ser pouco explorada pelos autores nacionais: quadrinhos de aventura. No início dessa reformulação, usamos os títulos como ponta de lança pra nos projetar e ganhar algum espaço, mas agora que a coisa já está acontecendo e indo pro terceiro mês de publicação semanal, já temos catálogo pra nos portarmos como iniciativa”. E esse é o modelo que eles pretendem seguir daqui pra frente: quadrinho nacional, de aventura, barato e acessível. “Mais do que fazer muito dinheiro agora, a ideia é testar um modelo e fazer barulho. É arriscado, eu sei”.

E sim, em princípio, apenas e tão somente quadrinhos nacionais. Esqueça aqueles grandes nomes de fora, quadrinhos de luxo com capa dura, coisa assim. “Nada contra, leio todos. O lance é que precisamos de diversidade de produtos pra termos um mercado vivo. Quadrinho gringo gourmet é ótimo, mas SÓ quadrinho gringo gourmet eu vejo como um problema”, afirma ele, com toda a razão do mundo.

Como quadrinista, responsável pelos ótimos Silas e Salto, ele sabe bem o perrengue que é tentar trabalhar com quadrinhos no Brasil. Portanto, o sonho dos caras é poder contratar gente mesmo, pra produzir regularmente e pagar as contas. “Pra isso rolar, precisamos de leitores e que a Guará ganhe porte primeiro. Entre as nossas políticas, uma das mais importantes é deixar o artista confortável e valorizado. Todo mundo que trabalha na Guará veio do mundo artístico, não tem nenhum engravatado bigodudo por trás. Sabemos que a voz do artista precisa ser ouvida e estamos trabalhando pra criar um ambiente agradável de criação”.

No entanto, temos uma pandemia no meio do caminho, que acabou com os planos de quadrinho de banca que a editora tinha. Eles estavam planejando lançar um almanaque mensal com os títulos mas, claro, o coronavírus fez tudo dar errado. “Nossa solução foi publicar os títulos em formato digital, tentar usar o momento da galera em casa e sem grana pra fornecer conteúdo acessível e barato. Ainda é cedo pra dizer se a coisa está dando certo mas temos uma resposta bastante positiva de quem está lendo o material”, conta. “Isso dá pra gente um bom estudo de caso e permite que a gente sonhe com as versões físicas em algum momento. Recebemos bastante essa pergunta e SIM, queremos publicar físico eventualmente. A questão é que, pro físico sair, precisamos que o digital dê certo”.

Falando da dualidade entre digital e físico, aliás, é impossível não deixar de falar das muitas mudanças que o meio editorial como um todo está passando, com um caminhão de transformações de consumo, distribuição, modelo, formato… “Queria muito conseguir olhar pra esse momento com o distanciamento necessário pra tomar as decisões certas. A gente estuda as novidades e as mudanças pra tentar não ficar pra trás mas é muito difícil entender a totalidade do que está acontecendo”, diz. Tem pandemia mas também tem crise editorial e política… “Tudo isso torna cada escolha um risco. Optamos pelas versões digitais e ainda é cedo pra saber se foi a melhor decisão. Nessas horas, é bom estar cercado de amigos do mercado, editores, acadêmicos, todos ajudam a tentar remar na direção certa”.

Mas, claro, não dá pra esquecer que Gabriel Wainer é filho de Bruno Wainer, da Downtown Filmes, o que coloca a Guará com muitas perninhas dentro do mercado audiovisual. “Vender direito pro cinema e pra TV é um jeito de conseguir grana pra bancar os quadrinhos e também uma forma de furar a tal bolha e trazer mais leitores pros títulos”, retoma Rapha. “Enquanto fazemos quadrinhos, estamos o tempo todo caçando interessados por direitos de adaptação e dá pra dizer que isso é um diferencial. Até mesmo os indies que queremos trazer como selo pra gente vão ter uma espécie de agenciamento pra adaptação”.

Ele admite que, apesar de buscar cortar os vínculos com o Doutrinador, não dá pra fingir que NESTA PARTE ele não funcionou e fez história, pelo menos enquanto adaptação. O conteúdo é que é outra conversa. ¯\_(ツ)_/¯

A Guará continua lançando quatro títulos por mês, um por semana, toda sexta-feira. Alguns deles são arcos fechados e vão encerrar em breve – portanto, pra seguir com as tais quatro publicações mensais, teremos outros títulos que vão entrar no lugar do que forem acabando. Portanto, isso significa que teremos novidades! “Não posso anunciar ainda o que vai ser exatamente, mas posso dizer que vamos revisitar um dos títulos antigos da Guará, um que a galera pede bastante”. Façam suas apostas.

Além disso, Cidadão Incomum já está com uma série de TV live-action fechada pela O2 Filmes e outros projetos transmídia em andamento, assim como Pérola e Santo. “Essa parte audiovisual não tem data ainda mas posso garantir que contratos já foram assinados”, diz, aos risos, meio misterioso.

Estamos de olho! O . O

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