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20 anos atrás, um fenômeno chamado Shaman fazia seu primeiro show

Formada por dissidentes do Angra, banda chegou a ser maior no Brasil do que o grupo original – mas acabou praticamente da mesma forma que começou. Uma nova era, no entanto, começou.

Por THIAGO CARDIM

Desde sempre, o Brasil tinha essencialmente dois grandes produtos de exportação quando o assunto era heavy metal: o thrash do Sepultura, que se tornou um fenômeno mundial, influenciando dezenas de bandas extremas; e o power metal do Angra, herdeiro do Helloween e um sucesso internacional principalmente na Europa e no Japão. O que ambas tinham em comum? O fato de que se tornaram grandes nas terras dos gringos e acabaram trazendo este reconhecimento para o Brasil, onde então foram enxergadas como deveriam justamente por terem este respaldo internacional (ô, complexo de vira-lata…).

Mas…já pensou se pinta por aqui um grande grupo de heavy metal que conquista o público brasileiro de primeira? Sem precisar deste “selo tipo exportação”? Sem ressentimentos por este ou aquele grupo seminal do underground. Só que estou falando grande MESMO, a ponto de conquistar até o mainstream?

Pois é, pintou. A gênese desta banda aconteceu no ano 2000. E ela atendia pelo nome de Shaman. Uma banda de heavy metal que ficou muito maior aqui na terrinha do que lá fora. Que chegou, aliás, a ficar maior por aqui do que o próprio Angra. O que não deixa de ser uma ironia – já que um surgiu das cinzas do outro.

No dia 10 de fevereiro de 2001, 20 anos atrás, ainda sem logo, ainda sem disco lançado, apenas com algumas poucas músicas prontas, os caras resolveram arriscar e fizeram uma apresentação em Recife, em um espaço chamado Dokas. O show serviu para testar não apenas entrosamento no palco, mas também um pouco da receptividade às canções do álbum de estreia. E a parada foi sucesso total, o real ponto de partida para tudo que estaria por vir. Para uma banda que cresceu mais do que imaginaria.

Um pouco de história

Eis o que aconteceu: a situação interna no Angra já não vinha sendo exatamente das melhores. Todo o processo de gestação de Fireworks (1998), terceiro disco dos caras, foi bastante complicado, com divergências a respeito do caminho que a banda deveria seguir em termos de som. Na real, conforme conta a recém-lançada biografia do músico, o Andre até chegou a sair da banda, querendo trabalhar mais com música erudita, mas foi convencido a voltar e gravar o disco novo.

No final, acabou saindo um álbum bastante diferente dos anteriores, bem mais heavy metal e bem menos ligado nas sonoridades brasileiras que se misturavam ao som pesado no começo da banda. Um bom disco. Mas que não deixou confortáveis todos os envolvidos. Junte a isso, então, as tretas envolvendo o empresário Antonio Pirani, dono da revista especializada Rock Brigade e justamente o responsável pelo nascimento do quinteto ao selecionar e reunir os talentosos músicos.

O resultado? Em 1999, Andre Matos (vocalista), Luis Mariutti (baixista) e Ricardo Confessori (baterista) saíram da banda, deixando para trás apenas os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt. Na época, quando tive a chance de entrevistar para a finada Revista Submarino o próprio Andre, que chegou a ser empresariado por Pirani na época do Viper e se tornou uma espécie de jovem protegido do cara, ouvi do cantor que o trio dissidente estava bastante preocupado com as contas do Angra, que se iniciou uma espécie de auditoria e que determinados números nunca bateram. E alguém estava levando vantagem em algum lugar…

Do lado do Angra, a banda não fechou as portas e continuou viva, trazendo outros músicos e iniciando uma Nova Era (entendedores entenderão). E Matos, Mariutti e Confessori montaram o Shaman. Logo depois que os três músicos (agora ao lado do irmão de Luis, o totalmente excelente Hugo Mariutti, nas guitarras) anunciaram o surgimento da banda, batizada ironicamente com o nome de uma música do próprio Angra, começaram a circular no mundinho da música digital alguns arquivos com versões demo de como o Shaman soaria. E, bicho, o negócio parecia promissor DE VERDADE.

A espera foi bem longa, já que o primeiro disco do quarteto, Ritual, só seria lançado em 2002. Mas valeu a pena. É um PUTA disco. Talvez um dos meus favoritos de todos os tempos no quesito heavy metal. Inteligentemente, é uma obra muito diferente do que o Angra fazia. Com uma produção limpa e cristalina do talentoso Sascha Paeth (parceiro de Tobias Sammet no Avantasia), Ritual é power metal/metal melódico, mas com nítidos flertes com o rock progressivo; e ao invés de focar somente na mistura com música brasileira, a sonoridade se debruçou sobre a world music, misturando uma série de elementos étnicos em faixas que, em comum, têm letras que abordam de alguma forma o xamanismo, a prática da cura pela natureza realizada por sacerdotes das mais diferentes culturas.

Basta ouvir, por exemplo, a brilhante utilização da flauta andina em For Tomorrow. Ou o belíssimo violino de Marcos Viana, do grupo Sagrado Coração da Terra, em Over Your Head. Ou mesmo a percussão cheia de gingado no meio de Blind Spell. É o metal do Brasil olhando para o som dos irmãos da América Latina – o que não era nem um pouco comum até aquele momento.

Outro acerto foi justamente a entrada de Hugo nas guitarras. Quem estava acostumado com o Angra e ainda conhecia pouco o Shaman, podia jurar que tinha dois guitarristas ali, exatamente como na banda original. A sonoridade do instrumento do cara preenche as faixas de tal forma que dá até pra se perguntar: ah, vá, isso não é truque do produtor na edição final? Bastava ver o cara ao vivo. E entender o que ele conseguia fazer toda vez que o Shaman resolvia dar uma palhinha de alguma canção do Angra em algum momento, como na inevitável Carry On. Hugo incorporava Kiko e Rafael em uma única guitarra.

Além disso, quem acompanha a carreira do músico até hoje sabe que ele está longe de ser um sujeito limitado e que fica preso às mesmas influências metálicas de sempre. Nada disso: Hugo sabe absorver bem a modernidade e os sons contemporâneos sem parecer pirotécnico ou forçado.

Trajetória meteórica

Ritual acabou se tornando um verdadeiro sucesso – e uma aposta mais do que certeira da gravadora, na época a Universal Music. Aliás, por sinal, ter uma gravadora de grande porte, uma multinacional, investindo suas forças numa banda nacional DESTE gênero é um fato histórico.

O resultado foram mais de 500 mil cópias vendidas em todo o mundo até o momento, sendo que o dito cujo foi lançado em mais de 15 países. O Shaman acabou se tornando mais popular do que qualquer um podia imaginar. Figurinhas carimbadas na MTV brasileira, Andre Matos e Luis Mariutti estavam entre os alvos favoritos da dupla de apresentadores do Rock & Gol, apelidados respectivamente de Musa Nisei-Sansei e Jesus do Metal. Em um dos episódios mais memoráveis do Covernation, enfrentaram o Matanza ao incorporar um monte de versões do Judas Priest.

E, diabos, sem querer soar tabloide de fofoca aqui, mas foi nesta época que o Andre Matos começou a namorar a Penélope Nova, atraindo as atenções não apenas da imprensa musical, mas também daquela que cobre o mundinho das celebridades.

Além de serem destacados pela mídia especializada entre os melhores do ano, acabaram provando sua popularidade ao conquistar um prêmio inesperado: em 2002, foram eleitos a melhor banda pelo suplemento adolescente Folhateen, do jornal Folha de S.Paulo, deixando para trás nomes como Capital Inicial, Titãs, KLB e Tribalistas. “Eles foram a primeira banda de metal que escutei na vida”, me confessou uma grande amiga, na época com 15 anos de idade. “Foram a minha iniciação, muito mais do que qualquer Iron Maiden ou Metallica da vida. Foi graças a eles que conheci o Helloween, por exemplo. Na época do Ritual, vi uns 4 shows deles”.

Outro empurrão fundamental para que o Shaman saísse do nicho fechado do metal e chegasse nas paradas pop foi justamente a inclusão de uma de suas músicas na trilha sonora de uma novela da Rede Globo. A medieval Fairy Tale se tornou o tema musical do vilão Boris, criatura das trevas interpretada por Tarcísio Meira em O Beijo do Vampiro, exibida no horário das 19h. O próprio Tarcísio, aliás, foi só comentários positivos sobre a canção em uma matéria do Video Show. E o diretor da novela, o finado Marcos Paulo, chegou até a assistir a um show do Shaman no ATL Hall, no Rio de Janeiro, elogiando os caras para a revista Caras (viram o que eu fiz aqui?).

Mas não acabou por aí: Ancient Winds, a faixa instrumental que abre o disco Ritual, virou também o tema de abertura de Aquaria, longa-metragem nacional futurista (?) estrelado pela dupla Sandy & Junior. Reza a lenda que o sertanejo Xororó, pai dos dois, ouviu o disco do Shaman em visita ao escritório da Universal, levou uma cópia para os filhotes…e Junior teria gostado tanto que pediu para ter a música na trilha.

Vocês repararam que estes comentários todos foram feitos a respeito de uma banda de HEAVY METAL, certo? 🙂

A turnê de lançamento do álbum, que contou com cerca de 130 shows em 1 ano e meio, acabou culminando na gravação de um DVD ao vivo no Credicard Hall, em São Paulo, em abril de 2003. Foi um dos recordes de lotação da casa, ficando atrás apenas de apresentações de Djavan e, doce ironia, de Sandy & Junior. Além de executar Ritual na íntegra com um bônus de Lisbon e Carry On, do Angra, eles ainda contaram com algumas participações especiais. Tobias Sammet, do Edguy, cantou não apenas Pride – na qual já tinha feito um dueto com Andre no disco – mas também Sign of The Cross, do primeiro disco do Avantasia. E Andi Deris e Michael Weikath, respectivamente vocalista e guitarrista do Helloween, estiveram por lá para cantar Eagle Fly Free, cláááááááásico da banda alemã.

E aí veio o segundo disco

O mundo parecia perfeito demais. Uma banda de heavy metal alcançando este tipo de exposição no mainstream? Pois é. Alguma coisa mudaria ali no meio do caminho. Mais especificamente em 2005, quando sairia o segundo disco do Shaman, Reason. Ou melhor, o segundo disco do SHAAMAN. Isso, com um A adicional. Acrescentado por uma questão de royalties e graças à consultoria mística de um xamã de verdade (há quem desconfie da história…).

Enfim. As mudanças mais significativas começavam pelo fato de que Reason não saiu pela Universal – mas sim pela Deckdisc, uma gravadora numa pegada mais independente (e ótima, diga-se de passagem). A banda queria se focar mais, a major tinha outros interesses, os caminhos passaram a não se cruzar mais.

Outra coisa que pegou também foi a sonoridade, que mostrou um outro lado do Sha(a)man. O tal do mystic metal, como a imprensa resolveu chamar o estilo da banda da fase Ritual, deu espaço para um metal mais pesado, porradeiro, chute na cara, com gosto de metal anos 1980, riffs mais diretos, mais crus. Quem esperava uma nova For Tomorrow tomou um susto ao ouvir uma cacetada como Turn Away, com Andre Matos cantando bem menos melódico e de maneira mais rasgada. Ou sentir a faceta mais gótica de Trail of Tears. E que tal uma versão para More, do Sisters of Mercy? Chocante.

O resultado, digamos, não foi assim tão bem recebido pelos fãs de outrora. E pra colocar ainda mais água neste feijão, parece que se repetiu a mesma situação de Fireworks, sabe? “Deveríamos ter pesado tanto a mão assim?”, discutiam eles. “Vamos voltar para a sonoridade de Ritual ou vamos seguir em frente?”. Bom, parece que eles resolveram seguir em frente. Mas um sem o outro. Ou quase isso.

Depois de Viper, Angra e Shaman, Andre Matos resolveu investir em si mesmo, na força de seu próprio nome. Montou um projeto solo, batizado apenas de “Andre Matos” – e Luis e Hugo se juntaram à formação. Confessori, que logo se descobriu ser o dono do nome do grupo, aboliu o A extra e decidiu continuar com o Shaman.

O que veio depois, bom, era essencialmente OUTRA banda. Que, tecnicamente, é preciso dizer, era muito boa. Além de Confessori, estavam lá Thiago Bianchi (vocais), Fernando Quesada (baixo) e Léo Mancini (guitarra). Mas, por mais que em seus dois discos – Immortal (2007) e Origins (2010) – o quarteto tenha tentado retomar a pegada mais étnica de Ritual (em busca, obviamente, de seu sucesso comercial), sobrava produção e faltava coração. Faltava alma. Faltava carisma. Tudo soava mecânico demais, quase ensaiado e orquestrado para tentar emular algo que não dava mais pra recriar.

Calma que não acabou…

Mas…que rufem os tambores…adivinha só o que aconteceu? Confusão das confusões: Confessori recebeu um convite para voltar a tocar no Angra (efeito sonoro de surpresa aqui) depois da saída de Aquiles Priester e aceitou. A promessa era que Confessori ia conseguir se dividir bem entre as duas coisas. Só que Bianchi, Quesada e Mancini queriam gravar. E o baterista estava sempre envolvido com o Angra, agenda apertada, não tinha tempo pra nada. E todos os planos que o trio tinha acabaram sendo usados no projeto paralelo Noturnall. Que, bom, se tornou a banda principal. Bianchi, Quesada e Mancini saíram e, a exemplo do que rolou na época de Matos e dos irmãos Mariutti, Confessori ficou mais uma vez sozinho com o Shaman na mão. Detalhe: quem é o baterista do Noturnall? O mesmo Aquiles que o Confessori substituiu. 😀

Mas aí… em 2018, eles resolveram conversar. A questão do nome foi superada – e, entre muitas negociações, decidiu-se com justiça que ficaria sob a guarda do Hugo. O quarteto original superou as questões que pudessem ter sobrado, aparou as arestas e retomou as atividades numa lindíssima turnê tocando os dois discos, Ritual e Reason, na íntegra. Tive a chance de vê-los pessoalmente, em São Paulo – e, depois de já ter assistido a uma porrada de apresentações dos caras no pico de seus trabalhos, lááááááá atrás, posso dizer claramente que eles estavam afiadíssimos. Tanto é que a série de apresentações se seguiu por um ano, até o ápice em junho de 2019, quando arrebentaram num show conjunto com o Avantasia.

E, dias depois, fomos todos surpreendidos com a morte do maestro. Que se foi deixando muitas histórias ainda a contar.

Atualmente, a banda resolveu honrar o legado de Andre Matos, os planos de um novo álbum que já estavam em andamento com ele, as novas músicas que começaram a se desenhar, e se manteve na atividade. Para o papel de vocalista, e jamais de substituto, foi convidado Alírio Netto, ex-Khallice e Age of Artemis, sucesso no musical We Will Rock You e logo na sequência à frente da banda Queen Extravaganza. Um cantor carismático, extremamente talentoso mas, principalmente, muitíssimo respeitoso. Um fã do Andre. Que chegou a ser cotado, até, para o cargo no próprio Angra. Alguém que respeita o legado do cantor lendário acima de tudo.

“O Andre é insubstituível, e a primeira coisa que me veio na cabeça foi: como substituir o insubstituível?”, afirmou ele, em entrevista ao Correio Braziliense. “Eu acho que qualquer artista que se preze impõe a sua digital naquilo que está fazendo. Alguns vão gostar, outros talvez não gostem tanto, mas quando a coisa é feita com honestidade, o resultado é sempre positivo”.

Uma nova fase começa a dar seus primeiros passos. E que você pode ouvir a partir da primeira canção inédita com o Alírio como frontman. Duas décadas depois, bem-vindos a um novo capítulo.

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