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Gene Simmons dizendo que o rock morreu, capítulo 357

A gente sabe que o linguarudo baixista do Kiss disse isso. E a gente sabe que nem é a primeira vez que ele diz isso. Nem deve ser a última. Aliás, um monte de roqueiro velho já disse. Mas seria bom VOCÊ parar de repetir isso, né.

Por THIAGO CARDIM

Não precisa ir muito longe: com absoluta certeza você já ouviu mais de um alguém dizer esta frase, este mantra sagrado de “o rock está morto”. A cada seis meses surge um gênio da polêmica querendo bancar o profeta do apocalipse, dizendo que a gente só ouve porcaria “nos dias de hoje”, que “antigamente é que era bom”, que “não surgem mais novas bandas”… Enfim. Você com certeza conhece alguém assim, aquele tiozão do churrasco vibe motoclube, que se diz o paladino do rock clássico…

Chama mais atenção, no entanto, quando é um cara como o linguarudo Gene Simmons que diz uma parada destas. Por ele ser, bom, quem ele é: empresário AND baixista/vocalista de uma das mais icônicas bandas de rock do mundo (e a prova disso é que nem preciso nomeá-la porque, provavelmente, você já sabe qual é). Não é como se a gente ficasse exatamente surpreso por ouvi-lo dizer isso (e ele tem uma senhora coleção de bostas proferidas, lembremos sempre). Porém, quando um Gene Simmons diz que o rock morreu, DE NOVO, é inevitável que o discurso ganhe alcance e acabe sempre reproduzido aqui e ali.

Agora foi numa entrevista à rádio Q104.3, de Nova York. Disse ele que os culpados são “os fãs jovens, pois mataram aquilo que amam. Porque, assim que o streaming apareceu, tirou a chance de novas grandes bandas que ainda estão nas sombras surgirem, já que eles não podem largar seus empregos porque não têm como ganhar um centavo colocando suas músicas lá”. Ele reforçou, dizendo que um músico precisa ter milhões, talvez até bilhões, de views, streams ou downloads para ganhar alguns mil dólares.

O músico afirma que “os próximos Beatles” nunca terão a mesma chance que o quarteto de Liverpool ou mesmo o próprio Kiss teve, com “gravadoras que nos davam milhões de dólares para que pudéssemos fazer discos e turnês, sem que precisássemos nos preocupar com um trabalho das 9h às 17h”. Tentando se explicar melhor, ainda disse pra gente pensar no período de 1958 a 1988. “Nestes 30 anos, surgiram Elvis Presley, Beatles, Jimi Hendrix, Rolling Stones, David Bowie, AC/DC, Metallica, Prince, U2, Madonna, nós e a ótima black music da Motown. De 1988 até hoje, quem são os novos Beatles? São mais de 30 anos e foi nesse período que o Napster e essa coisa toda de downloads (legais e ilegais) começaram a aparecer”.

Ai, ai, ai.

Mas, claro, não é a primeira vez que Gene diz uma parada destas. No final de 2014, ele foi entrevistado pelo próprio filho Nick para a revista Esquire e lá já fez fez uma previsão “assustadora” sobre o mercado musical – que, para ele, não está morrendo, mas já está oficialmente morto. “Não largue seu emprego, seria um bom conselho, para começar”. Para o músico, foi a música digital a responsável pelo estado em que atualmente nos encontramos. E Simmons ainda completou, dizendo que fica muito triste pelas novas bandas que ainda vão surgir, ao saber que o próximo garoto de 15 anos, tocando em uma garagem, que ligar um amplificador Marshall e colocar no último volume, não terá as mesmas oportunidades que ele teve.

“Ele vai, provavelmente, não importa o que faça, falhar miseravelmente. Não há mais indústria pra isso. (…) A morte do rock não é natural, o rock não morreu de velhice. Ele foi assassinado. E o real culpado é o garoto de 15 anos na vizinhança, provavelmente um amigo dele. Talvez um dos companheiros de banda com quem ele está tocando. A tragédia é que eles parecem não ter ideia de que estão matando sua própria oportunidade – eles mataram os artistas que teriam amado”.

Colocando aqui uns Pingos nos Is

Tá bom, vamos lá. Já passamos da fase de dizer que foram os downloads, o MP3, o Napster que “mataram a música”. Esta argumentação morreu tem umas duas décadas, até porque isso é aliviar demais pro lado das grandes gravadoras, as tais que segundo o Gene davam “milhões” de dólares pras bandas – mas, lembremos, que elas davam tanta grana assim para algumas poucas felizardas. Na real, real MESMO, eram um bando de exceções, enquanto as regras, as bandas de rock que davam o sangue pra fazer acontecer, tinham a porra do couro ARRANCADO pelos engravatados do alto de suas torres de vidro.

Dito isso, vamos seguir adiante no futuro e falar sobre streaming. Sim, em um ponto, Gene está certo – a remuneração dos artistas pelas plataformas tipo Spotify e Deezer é ridícula, minúscula, e precisa urgentemente ser rediscutida. Mas quanto ao hábito de ouvir música digital – esqueça, Sr. Simmons. Isso é o futuro. Este trem já saiu da estação. Nosso jeito de consumir conteúdo já tinha mudado radicalmente nos últimos anos – e isso vale pra cinema e TV também, Netflix, Amazon Prime, Disney+ tão aí para fazer com que TV por assinatura e exibidoras de filmes entendam que precisam se modernizar, dar o próximo passo. O mesmo vale pra indústria da música. Não adianta achar que vale ficar lutando e culpabilizando a mais nova tecnologia da vez e tentando manter as coisas como eram. Porque elas não são mais. Segue o baile, tiozão.

Aí, vem este papo de “novos Beatles” que, de fato, é mesmo UM SACO. “Ah, nunca mais vai surgir uma banda icônica como eles”. Olha só, o que não falta é boa banda surgindo. Sempre. Todos os dias. Bandas que entendem como se joga o jogo, que sabem que as coisas já não são como eram há 50 anos, que vivem de um jeito diferente e se relacionam de um jeito diferente com seus fãs, com seus ouvintes. Os Beatles são incríveis, influenciaram muita gente, coisa e tal. Mas vou contar um segredo, que pode deixar os velhinhos chocados – a molecada de hoje, a nova geração, mal sabe quem eram os Beatles. Só que, em compensação, eles sabem MUITO BEM quem diabos é o BTS.

Tem bandas sensacionais bombando, surgidas nos últimos 10, 5, 2 anos, sei lá – só que a diferença aí é que elas já nasceram digitais. Não estão tocando “nas rádios” até porque, vamos lá, quem é que ainda ouve rádio mesmo? Tão pouco se fodendo para estar ou não nas paradas da Billboard. E já nasceram sacando que o rock é só um rótulo que, por vezes, é meio castrador. Então, elas flertam com pop, rap, funk, tanto faz. Não se deixam colocar num quadradinho merda e limitante.

Relembrando outros rockstars que discordam do Gene

A sorte é que Gene tá longe de ser o pensamento reinante sobre o assunto, sobre esta tal “morte do rock” que volta e meia toma conta das manchetes dos sites especializados. “Tem sido um funeral bastante longo, então, sabe?”. As palavras são de Angus Young, guitarrista do AC/DC, banda que é a representação encarnada do rock ‘n roll. “Com todo o respeito ao cara (Gene), mas nenhum gênero musical simplesmente desapareceu do nada, assim, do dia pra noite, só porque eu disse que sim”, completa o vocalista Brian Johnson, em entrevista à Ultimate Classic Rock.

O guitarrista Slash, em entrevista para a mesma revista, tenta relativizar, dizendo que o que provavelmente Gene quis dizer é que, se você deseja ser um vocalista, um guitarrista, um baterista de rock nos dias de hoje, os obstáculos podem ser bem maiores do que quando ele começou. “Mas a audiência, ela é persistente. Continua sendo grande e está chutando bundas como sempre esteve. Acho que é preciso separar os meninos dos homens. Rock não pode mais ser sobre comprar carrões e transar com todo mundo e outras paradas que vêm junto com a coisa de ganhar muito dinheiro. Tem que ser sobre a música, e eu acho que isso anda bem saudável”.

“Sabe, nem todo mundo no planeta quer consumir apenas aquilo que os grandes nomes da mídia enfiam garganta abaixo. Nem todo mundo se importa com aquela nova sensação pop de 16 anos”, diz Scott Ian, guitarrista e líder do Anthrax, em vídeo da Ultimate Classic Rock. “Enquanto houver uma banda tocando música por aí com toda a força das suas estranhas, então o rock não vai morrer. […] Nós estamos aqui porque construímos uma fundação diferente. Estamos aqui porque continuamos lançando nossos discos e somos bons ao vivo. Fazemos isso sem a ajuda das rádios, sem a ajuda da MTV”.

Corey Taylor, cantor do Slipknot/Stone Sour, foi ainda mais longe e afirmou, para a rádio Rock 105.5, que os músicos como Gene têm que evoluir com a tecnologia e se adaptar aos novos tempos, para aprender a usar tudo isso em seu favor. “Não dá mais pra sentar e fazer o esquema álbum-turnê-álbum-turnê. Tem muito mais coisa rolando. Somos estudantes deste novo jogo, não apenas da tecnologia, mas do jeito que as coisas são feitas hoje. Eu me recuso a deixar alguém falar isso e ser levado a sério. Tá brincando? Deixa disso, cara! Rock e metal não estão mortos, eles estão esperando para matar você!”.

“Não acho que o rock está morto, acho que ele continua grande e está brilhante”, diz ninguém menos do que Rob Halford, o Deus do Metaaaaaaaaal, para a rádio 1290 KOIL. “Eu vou dizer o que mudou, caras, e vocês provavelmente já sabem disso. Desde a invenção de uma coisa chamada internet, tudo mudou. A forma que absorvemos a música, o jeito que vamos a shows e nos conectamos… […] Temos que nos adaptar, seguir em frente e nos conectar”. Halford questiona se teremos, novamente, um grande nome do rock como Ozzy Osbourne, mas na sequência pergunta. “Nós precisamos disso mesmo? A boa notícia é que temos uma vitrine de novos talentos extraordinários vindos de todas as partes do mundo, nos mais diferentes gêneros do rock. Temos incríveis talentos por aí agora mesmo. Avenged Sevenfold, Five Finger Death Punch, Royal Blood… Um monte de bandas. Eu podia continuar por horas e horas”.

“Calma lá, Sr. Deus do Trovão”, disse inicialmente o perfil dos Foo Fighters no Twitter. Logo depois, Dave Grohl elaborou uma resposta mais longa numa entrevista ao programa de rádio Kevin & Bean Show, de Los Angeles. “Tem muito rock sendo tocado e muita gente se importando com o rock e fazendo rock em todo o mundo. Eu acho que a cultura pop anda em círculos. Pense no estado da música quando o Nirvana, o Pearl Jam, o Soundgarden, o Alice In Chains explodiram. As bandas altamente estilizadas e tudo altamente produzido. Era divertido para festejar, mas de vez em quando você sente fome de algo que é real”. Grohl afirma que sente vontade de ver um cara derramando sangue sobre seu instrumento enquanto o arrebenta no chão. “Todo mundo passa por isso alguma vez na vida, e eu acho que isso vem em ciclos. Para mim, é o meu ar, minha comida, meu estilo de vida. É o que eu faço e nunca vai desaparecer. Minha banda é minha família e a música que fazemos é a nossa voz. Sinto muito que algumas pessoas tenham pouco disso em suas vidas”.

“Por mais que eu não tenha nada além de respeito por Gene, ele não poderia estar mais errado”, é a opinião de Dee Snider, vocalista do Twisted Sister, disparada em sua própria página no Facebook. “Sim, o modelo de rock ‘n roll que ajudou o Kiss (e minha banda também, por acaso) a alcançar fama e fortuna está certamente morto e enterrado, mas o rock está vivo e saudável, prosperando nas mídias sociais, nas ruas, nos clubes e casas de shows ao redor do mundo”.

Snider defende (e eu concordo MUITO) que não foram os garotos baixando músicas pela internet que mataram o rock, mas sim os grandes executivos da indústria fonográfica, que construíram uma “forca de veludo” em torno de seus pescoços ao manterem preços abusivos e uma extensa margem de lucro para produtos como o CD, criando diretamente uma necessidade por uma “fonte alternativa” para consumir música. “Quando o grande público finalmente percebeu o que estava recebendo e que tinha a oportunidade de atacar de volta, o que fizeram? A mesma coisa que a Nação Woodstock e os pais do baby boom quando tiveram sua chance…”

“Gene vai longe demais ao culpar os consumidores, os próprios fãs, por matarem o rock ao baixarem música. Ele até culpa as próprias bandas caso estejam engajadas no ato do download. Este é o clássico pensamento da torre de marfim – você culpa o que você vê na sua frente ao invés de culpar o que está ao seu redor e abaixo de você”, analisa o guitarrista e vocalista Danko Jones, da (ótima) banda canadense de mesmo nome, em ensaio escrito para a revista alemã Vision.

“A ideia mais ofensiva foi a definição pateta do que é rock, medindo sua validade e relevância apenas pela quantidade de itens vendidos. Isso transforma a música em nada além de dólares e centavos. […] O rock não morreu, apenas está jogando num nível diferente. Agora todos têm uma chance igual de ser ouvidos. O novo disco do Audrey Horne chegou aos meus ouvidos antes do novo do AC/DC. E isso é porque sou suscetível à maior forma de marketing existente – o boca a boca. Pessoas falando em blogs, no Twitter, no Instagram… […] Se as pessoas insistirem que o rock morreu, que seja, deixe que elas velem a sua passagem. Deixe que elas sigam com suas vidas e encontrem novos interesses para passar o tempo. O rock deve desaparecer dos holofotes, voltar para o underground e lutar pelo seu status de outsider. Seu lugar merecido nas sombras – surgindo de tempos em tempos, claro, para aparecer na capa de uma revista de música”.

Argumentos importantes de caras relevantes é o que não falta. E, se algum amigo mala seu resolver bancar o Gene Simmons, é só mandar o link dessa matéria e deixar acontecer. ;D

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