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Os cachorros assumem o comando do jogo em Pugmire!

Cães (e, bom, gatos também) são os protagonistas de um jogo de fantasia medieval ambientado num futuro sem seres humanos

Por THIAGO CARDIM

Lá em 2017, no JUDÃO.com.br, tive a chance de entrevistar Eddy Webb, o designer de jogos que criou o conceito de Pugmire. O jogo, uma ambientação de RPG de fantasia numa pegada bastante curiosa, foi bancado via financiamento coletivo ao longo de 2016 e finalmente começava a chegar às mãos de seus mais de 3.000 apoiadores. E uma das perguntas que fiz pro cara foi justamente “mas e aí, tem chance de vermos o jogo em português por aqui, ainda que em financiamento coletivo?”. E ele respondeu que, sim, obviamente. “Precisamos de bons parceiros de tradução e publicação no Brasil ou em qualquer outro país que queira nossos livros na linguagem local. Adoraríamos ter mais versões traduzidas de qualquer um dos nossos jogos, na verdade”.

Pula pra 2021 e, olha só, parece que o Eddy encontrou o tal parceiro ideal – já que o jogo tá na reta final de financiamento coletivo por aqui, em uma campanha mantida pelos caras da New Order Editora. E o mais legal é que os primeiros 50 apoiadores de meta física (ou seja, qualquer recompensa que dê direito ao Livro Básico impresso) recebem uma revista em quadrinhos de Pugmire, produzida e publicada pelos caras da Indievisível Press, estúdio independente nacional que quem visitou a POC Con deve conhecer muito bem.

Mas, afinal de contas, qual é a de Pugmire? A gente explica, embora o nome e a imagem de destaque lá em cima já entreguem um pouco a ideia…

Aventura medievau-au? Temos sim!

Ó só, jogos de RPG ambientados num esquema de fantasia medieval são mais do que um clássico – em alguns casos, chegam a ser até um verdadeiro clichê. Mas imagina só se você troca todos os elfos, anões, bárbaros, magos, trolls, orcs e esta galera devidamente saída de um livro do Tolkien por…cachorros? É, isso mesmo, cachorros, estas simpáticas criaturas carinhosas, babonas e FOFÍNEAS. Agora coloque espadas e machados nas mãos (ou patas) de uns dobermans e pitbulls, ensine feitiçaria para um bando de labradores e bulldogs, misture tudo com vira-latas batedores de carteira e uns gatos mal-humorados (apenas porque sim) e você tem a inusitada proposta de Pugmire.

A descrição oficial é deliciosa: “Eles vivem nas cinzas do que foi o nosso mundo, no futuro, procurando por aventura e redenção. Pense em uma mistura de Senhor dos Anéis com Planeta dos Macacos. Só que com cachorros. Estes cães evoluíram e agora conseguem usar nossas ferramentas e falar a nossa língua – portanto, é hora de redescobrir o mundo que eles herdaram. Alguns até mesmo usam alguns restos da tecnologia humana, mas acreditam que se trata de magia oferecida por seus deuses antigos”. Portanto, em resumo, o futuro não será uma distopia dominada pelas máquinas, mas sim uma sociedade medieval dominada por cachorros.

“A ideia surgiu quando eu fiquei preso em casa com os meus dois pugs, num dia de chuva”, conta Webb, criador do conceito, em entrevista exclusiva. “O apartamento é pequeno, de um quarto, e eles tavam ansiosos. Aí, começaram a latir pra tudo. Eu tava de saco cheio e comecei a dizer que eles tavam latindo pra uns demônios invisíveis. Mas aí pensei: e se eles REALMENTE estivessem latindo para demônios? Imaginei cada um como se eles fossem de uma classe de personagem de D&D e escrevi um conto curtinho sobre isso”.

A trama ajudou Eddy a passar o tempo, mas ficou na gaveta durante um ano. Aí, justamente quando o cara mais tava precisando de grana, eis que chega uma proposta para colocar uma história em uma antologia medieval, e o escritor não pensou muito: resgatou o conto e transformou numa história maior, batizada de Winter of Man. “Os editores amaram e perguntaram quando saía o RPG. Me deu um estalo, fui lá falar com o Rich e o resto é história”.

O tal do Rich, no caso, é Richard Thomas, ex-diretor criativo da White Wolf e fundador da Onyx Path Publishing – a editora responsável pelo atual licenciamento dos jogos da linha Mundo das Trevas, por exemplo. “Eu fiquei muito empolgado com a proposta do Eddy, porque amo cachorros e sei que ele pode escrever um jogo incrível”.

Antes de embarcar neste MUNDÍNEO canino, Eddy Webb já era conhecido dos RPGistas por seu trabalho em títulos como o Mind Eye’s Theatre, focado em live-actions de Vampiro: A Máscara, e na edição comemorativa de 20 anos do RPG dos vampirosos, lançada em 2011.

Mas Pugmire não é só sobre pugs, calma lá!

Eddy deixa claro que, embora tenha usado animais conhecidos para se inspirar em alguns dos personagens (como o Rei Puckington, claramente baseado em seu primeiro pug), evitou ao máximo colocá-los como protagonistas na trama de alguma forma. “Eles foram e ainda são uma inspiração pra mim mas, como roteirista, sei que algumas vezes você tem que ser cruel com seus personagens. E eu não estava muito confortável em fazer coisas assim com meus próprios bichos. Ou quase isso”.

Quando ele fala em “ser cruel”, tá bom, não precisamos exagerar muito. Afinal, Pugmire não é EXATAMENTE um jogo que privilegia batalhas sanguinárias como numa fantasia medieval tradicional da vida, porque seria bem esquisito colocar um bando de cães fofinhos no meio de uma parada destas, né. “A gente não tá se focando nisso. A ênfase aqui é na ação, na cooperação, não na violência. Os personagens lutam e certamente podem morrer. Mas eu adicionei regras que permitem que mestres e jogadores tirem a parte de ‘morrer’ da história, caso queiram. Então, seus personagens apenas ficam inconscientes ao final da luta”.

Richard, no entanto, lembra que assim que os apoiadores do Kickstarter começaram a receber inicialmente o PDF do livro, o chamado Pugmire Early Access, já sacaram que as ilustrações não retratavam apenas bichos fofos. “Tem os cachorros engraçados e bonitinhos, e também tem uns cachorrões bravos e que parecem bem perigosos. Afinal, não deve ser difícil imaginar um cachorro fazendo o que for preciso pra sobreviver”.

Além de insetos gigantescos, ratazanas tamanho família e zumbis possuídos por demônios (?), os principais antagonistas da cachorrada de Pugmire são, como você bem podia imaginar, os gatos. “Eu gosto bastante de drama nos meus jogos, então o reino de Pugmire vive num estado de tensão diplomática com a nação rival das Monarquias de Mau”, explica Eddy. “Rolou uma guerra entre eles algumas décadas antes e, embora a paz esteja estabelecida e a maior parte dos que lutaram no conflito esteja velhinho agora, a tensão ainda existe. Isso permite que os jogadores que querem ver cães e gatos trabalhando juntos possam colocá-los lutando (ainda que com ressalvas) por um objetivo comum. Mas se você quiser que eles sejam inimigos, dá pra trazer este passado à tona rapidinho”.

A coisa mais importante que os humanos (também chamados de “Os Antigos”) deixaram para trás, neste universo pós-apocalítico, foi uma espécie de código de ética que a maior parte dos cães parece seguir à risca como uma “bússola moral”, compilada pelos cães mais velhos a partir do conhecimento fragmentado que sobrou da nossa raça extinta. O chamado Código do Homem consiste essencialmente de sete regras:

Seja um bom cachorro
Obedeça o seu mestre
Morda apenas aqueles que te colocarem em perigo
Proteja a sua casa
Seja leal àqueles que são verdadeiros
Proteja todo mundo dos Invisíveis
Busque o que foi deixado para trás

Perceba que a regra de número 6, que fala sobre os inimigos invisíveis (Unseen, no original), remete à história que Eddy Webb contou no início deste texto. Porque todo mundo que tem um cachorro sabe que, de vez em quando, ele late ferozmente para o nada, como se estivesse vendo alguma coisa que SÓ ELE enxerga. Pois é, em Pugmire isso realmente acontece – e estes seres demoníacos são as criaturas responsáveis pela destruição e caos do mundo.

“Existem cachorros bons e cachorros maus. Mas um adjetivo como ‘maligno’ é reservado apenas para se referir àqueles que não podem ser vistos”, explica Thomas. “Este é um jeito doce e bastante apropriado de lidar com o alinhamento típico dos jogos de RPG dentro da realidade de Pugmire. É algo que, pra mim, se destacou de todo o resto”.

Pugmire usa o sistema de regras tradicional de um jogo de fantasia – aqui, baseado na licença aberta do d20, elaborada originalmente pela Wizards of the Coast. Os jogadores criam seus personagens levando em consideração elementos como raça, classe e histórico.

Vamos tomar como exemplo um dos personagens principais, Pan Dachshund. Ele é um dachshund (AH VÁ!), aka “cachorro salsicha” caso você não tenha ligado o nome ao focinho, uma espécie ligada aos cães pastores. A sua classe é “caçador”, que veteranos de D&D facilmente vão identificar como sendo um ranger. E o seu histórico é de um chamado Free Dog, um cão que não tem dono, que já nasceu livre.

Logo depois, os caras lançaram um monte de extensões previamente planejadas, como o Pan’s Guide for New Pioneers, livro focado especificamente em ajudar a trazer novos jogadores (incluindo os iniciantes no mundo do RPG) para o universo de Pugmire. Além disso, em 2019 eles lançaram Fetch Quest, um card game ambientado no mesmo universo de cães e gatos. E, conforme prometeu pra mim no papo lá atrás, ele também lançaram um suplemento focado apenas nas Monarquias de Mau. “Porque em Pugmire você quer ser um bom cachorro. Mas em Monarquias de Mau, você vai desejar ser o MELHOR gato”, diz.

Vale lembrar, no entanto, que, se você quiser apoiar o primeiro Pugmire em português, a página do Catarse ainda está ativa até o final desta semana. Cola lá pra garantir o seu.

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