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A Última Caçada de Kraven quase foi do Coringa

Quando o roteirista J.M. DeMatteis teve a ideia original da trama, na verdade ela ainda estava BEM longe de ser estrelada pelo Homem-Aranha – e ele levou muitos “NÃOS” na cara até chegar no clássico que conhecemos hoje

Por THIAGO CARDIM

Toda vez que vem à tona a discussão “qual é a melhor HQ do Homem-Aranha”, inevitavelmente o nome de A Última Caçada de Kraven pinta disparado no top 3. Não tem nem o que dizer – inclusive, guardadas as devidas proporções, há quem diga que se trata d’O Cavaleiro das Trevas do Cabeça de Teia, a história que “redefiniu” o que seria o personagem dali pra frente.

Originalmente publicada em seis partes no final de 1987, em Web of Spider-Man #31-32, The Amazing Spider-Man #293-294 e The Spectacular Spider-Man #131-132, a história é escrita por J.M. DeMatteis (aquele mesmo da fase cômica da Liga da Justiça) e traz a arte magnífica de Mike Zeck – numa trama que seria a vingança final de Sergei Kravinoff contra o Escalador de Paredes, planejada meticulosamente para que ele pudesse provar que era superior ao seu adversário.

E, curiosamente, eis que A Última Caçada de Kraven não foi originalmente pensada para ser uma história do Homem-Aranha. Aliás, o herói das teias não foi nem a segunda opção. E, pra ser bem honesto aqui, nem a terceira, na verdade.

A gente te conta a história.

A Última Caçada do Ceifador

Em uma postagem de seu blog, DeMatteis revela que a jornada desta história, a primeira centelha de inspiração, veio lá por volta de 1984 ou 85. O roteirista pensou primeiro em uma minissérie do Magnum – pois é, ele mesmo, Simon Williams, o ator que virou super-herói, cujos padrões mentais deram origem ao Visão. Ele seria derrotado por seu irmão, o vilão Ceifador, enterrado vivo, acordaria no caixão, sairia do túmulo e descobriria que passou meses ali, sete palmos debaixo da terra. “Quando levei a ideia para o Tom DeFalco, editor executivo da Marvel, ele imediatamente rejeitou. Mas tinha algo neste conceito de ‘retorno do túmulo’ que eu não queria descartar”, conta ele.

A próxima parada do roteirista seria na DC Comics, onde ele levaria a ideia para o editor Len Wein, responsável na época pelos gibis do Batman. A trama mudou para o Coringa matando – ou pelo menos achando que matou – o Morcegão. Como a razão de sua existência foi eliminada, a mente do Palhaço do Crime virou do avesso. E como ele já é insano, então ele acabou ficando são. Mas, semanas depois, Bruce consegue sair de seu túmulo e as coisas enlouquecem mais uma vez. O ponto é que Len tinha em sua mesa uma outra história interessante abordando a dinâmica entre os dois personagens, uma coisa chamada A Piada Mortal, e aí achou que alguns elementos ali poderiam ser repetitivos e DeMatteis voltou pra casa de mãos abanando.

Mas, encarnando o melhor espírito do brasileiro que não desiste nunca, o autor reescreveu a parada mais uma vez, AINDA com o Batman em mente, só que trocando o Coringa pelo Hugo Strange. Nesta versão, ele relembrou uma história clássica de Steve Englehart na qual o vilão usava o uniforme do Cavaleiro das Trevas. “E aí pensei se não seria interessante se Hugo Strange aparentemente matasse o Batman e, no ápice de sua arrogância, decidisse se TORNAR o Batman, assumindo o seu papel, em busca de provar sua superioridade. Eu estava convencido de que nenhum editor poderia rejeitar isso”.

Mas na época, Len Wein tinha abandonado o cargo para se tornar freelancer, enquanto ninguém menos do que Denny O’Neil tornou-se editor dos batgibis. Adivinha qual foi a resposta dele para a sugestão do DeMatteis?

É, isso, esta mesma. “NÃO, VALEU, FICA PRA PRÓXIMA, CARA”.

O escritor pensou em desistir da ideia, tá bom, deixa pra lá, tanto faz, vamos pensar em outra coisa. Mas aquilo ficou assombrando a cabeça dele.

Corta pra 1986, quando ele foi almoçar com DeFalco (de novo!) e Jim Owsley, editor dos gibis do Aranha. Na conversa, rolou um convite formal para que DeMatteis assumisse como roteirista da revista mensal Spectacular Spider-Man. Ele não tava querendo, a princípio, mas acabou concordando. E aí veio o estalo. Era a chance de fazer aquela tal trama acontecer.

“O Homem-Aranha, recém-casado com a Mary Jane, seria uma escolha muito melhor do que o Magnum ou o Batman”, disse ele. “Peter Parker é talvez o protagonista mais emocional e psicologicamente autêntico de qualquer universo de super-heróis. Debaixo da máscara, é um cara confuso, cheio de defeitos, humano, como qualquer um que o lê. O homem comum quintessencial. E o amor deste cara por sua esposa, pela nova vida que eles estão construindo juntos, era o combustível emocional para esta história”.  

O editor comprou a ideia, mas, naquele momento, Kraven não fazia parte da trama. Na verdade, DeMatteis acabou criando um NOVO vilão (“não me perguntem o nome desta brilhante nova criação ou qualquer coisa a respeito, não me lembro de nada”). Só que, enquanto ajeitava uns últimos detalhes da história, o roteirista foi procurar um detalhe no Marvel Universe Handbook, guia enciclopédico que detalha o universo ficcional da Casa das Ideias. Passou pela parte que apresentava o Kraven. E BINGO.

“Eu não tinha o menor interesse no Kraven”, explica DeMatteis. “Eu sempre pensei nele como um dos vilões mais genéricos e desinteressantes da galeria do Homem-Aranha. Nem chegava perto do Doutor Octopus ou do Duende Verde”. Mas um detalhe que tinha esquecido arrebatou o escritor – Kraven era russo. E imediatamente isso mexeu com o autor, que ficou apaixonado por literatura russa na época da faculdade, ao ler Dostoiévski. “Nenhum outro romancista jamais explorou como ele a impressionante dualidade da existência, iluminou as alturas místicas e as profundezas desprezíveis do coração humano”.

Naquele momento, DeMatteis entendeu o Kraven. E a história mudou de foco. Ele ligou pro editor e pediu para ele esquecer o tal novo vilão. Esta seria uma história de Kraven.    

E aí a história entrou pra história.

Aliás…

… aproveitando que falei tanto sobre A Última Caçada de Kraven, este foi o tema do primeiro episódio do novíssimo podcast dos amigos do Fala, Animal! – e do qual tive a honra de participar. O papo foi incrível, cheio de análises sobre a trama e muitas outras histórias sobre os bastidores da produção. Merece demais o seu play, principalmente por ser comandado por um cara incrível como o Leo Vicente, que a gente chama sem nenhum exagero de “biblioteca viva dos quadrinhos”. Escuta aí!

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