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Itália volta a vencer Eurovision depois de 30 anos. Mas… o que é isso MESMO?

Na mesma proporção em que tinha gente SURTANDO com o resultado nas redes sociais, tinha um outro bocado de gente, principalmente brasileiros, tentando entender o que diabos é esta competição. O Gibizilla explica.

Por THIAGO CARDIM

Em uma competição normalmente marcada por ótimas canções pop nos primeiros lugares, o rock chegou com tudo e levou o prêmio máximo na edição 2021 do tradicional Festival Eurovision.

A vitória foi da banda Maneskin, com a canção “Zitti e Buoni”, representante da Itália – país que, há três décadas, não levava o troféu pra casa (as outras duas vezes foram em 1964 e 1990).

Embora não tenham sido os favoritos do júri, o quarteto surgido em 2015 e alçado à fama em seu país graças à participação na versão italiana do reality show de talentos X Factor foi o favorito na votação do público, deixando diversos outros nomes considerados como apostas certas para trás.

Muita gente acabou descobrindo que esta parada existia só no ano passado, quando o Netflix lançou uma produção original chamada Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars, um filme pastelão estrelado pela dupla Will Ferrell e Rachel McAdams sobre dois músicos que acabam (sob circunstâncias no mínimo bizarras) sendo escolhidos para representar a Islândia na disputa. No fim, a música-tema da trama acabou até sendo indicada ao Oscar, veja só a doce ironia… E a edição 2020 do Eurovision nem aconteceu, de fato, justamente por conta da pandemia da covid-19.

Mas, afinal, o que diabos é o Eurovision mesmo? Como isso se tornou esta verdadeira mania lá no Velho Continente?

Vamos lá, um pouco de história…

O Eurovision é uma iniciativa da chamada União Europeia de Radiodifusão (European Broadcasting Union, que também atende pela sigla EBU), que tem exatos 74 membros ativos em 54 países essencialmente da Europa, África e Oriente Médio – mas, aqui no Brasil, a Fundação Padre Anchieta, representada pela TV Cultura, também faz parte do grupo, que reúne basicamente serviços públicos de rádio e televisão.

A ideia do Eurovision surgiu como uma forma de reunir os integrantes europeus da EBU em torno de uma programação leve e saudável, pro que chamam de família, num continente que em plenos anos 1950 ainda se recuperava das cicatrizes da guerra. Foi aí que apareceu o conceito de uma competição musical internacional que seria transmitida simultaneamente para todos os países participantes e tiraria inspiração do clássico italiano Sanremo Music Festival. A primeira edição rolou no dia 24 de Maio de 1956, na cidade suíça de Lugano, com apenas sete países participantes, cada um indicando duas canções diferentes.

Na edição seguinte, no entanto, as regras mudaram e cada país passou a ter direito de indicar apenas uma canção. Aliás, importante que se diga, aqui a coisa não gira em torno de um artista/banda, mas sim em torno da música. O país faz suas próprias seletivas, escolhe o grande representante, e aí rolam diversas fases, divididas entre seleção de jurados especializados e votação popular, para gerar por fim a pontuação final de cada intérprete.

Um dos eventos não-esportivos mais assistidos do mundo, o Eurovision costuma reunir uma audiência internacional média que varia entre 100 e 600 milhões de pessoas – isso, obviamente, incluindo os países que não competem. Mas não se espante ao ver, por exemplo, a Austrália (que, caso você

Para muitos países, ganhar o Eurovision tornou-se questão de honra, como no caso da Rússia, por exemplo. Uma das ambições de Vladimir Putin nestes seus anos como presidente é restaurar o status de seu país no centro do mundo – e isso significa trazer grandes eventos esportivos para serem realizados por lá e, claro, vencer a competição musical. “Eles contrataram diversos especialistas em Eurovision para trabalhar no indicado russo – incluindo Philip Kirkorov e Dimitris Kontopoulos, compositores que já fizeram diversas canções que foram apresentadas por lá”, afirmou Daniel Gould, apostador especializado no festival (é sério, isso existe) para a BBC, ainda em 2016.

“Para a Rússia, é um papo muito sério, é tipo as Olimpíadas da música. Os russos amam o Eurovision. As audiências são altíssimas no nosso país”, disse Sergey Lazarev, o cantor que defendeu a nação de Putin no concurso naquele ano. Mas não é só pra eles não. Na Suécia, foi realizada uma pesquisa para determinar qual a data mais importante na vida dos suecos: o aniversário veio em primeiro, seguido pelas férias de verão e depois pelo Melodifestivalen, que é justamente o concurso para determinar o indicado sueco ao Eurovision.

O Natal, tadinho, veio em quarto. 😉

Para os suecos, que produzem música pop de qualidade para o mundo inteiro desde sempre, o interesse pelo Eurovision se intensificou a partir de 1974, quando ninguém menos que ABBA venceu o concurso com a música Waterloo. Assim que ergueram o troféu, eles se tornaram famosos não apenas no continente, mas também explodiram nos EUA, sendo catapultados ao estrelato.

Outra que encontrou a fama foi uma certa Céline Dion, que representou a Suíça com Ne partez pas sans moi e levou a melhor em 1988. Sim, ela é canadense, mas na época não era obrigatório que o cantor/cantora fosse da nacionalidade do país que representava, mas apenas cantasse em uma das línguas oficiais desse país. Daí ela cantou a música da Bela e a Fera, do Titanic e o resto é história.

No mesmo ano em que o ABBA, uma jovem cantora chamada Olivia Newton-John representou a Inglaterra cantando Long Live Love. Embora os suecos tenham vencido e ela tenha ficado apenas em quarto lugar, a performance chamou a atenção do mundo. Outro que se deu bem, mesmo sem ganhar o grande título na final, foi o italiano Domenico Modugno, que apresentou a sua Volare. Porque, naquele palco em 1958, estava lançado o seu megahit internacional – você sabe, aquele do refrão “Volare, oh oh / Cantare, oh oh oh oh / Nel blu dipinto de blu / Felice de stare lassù”. Tenho certeza de que esta música está tocando na sua cabeça AGORA, provavelmente na versão dos Gypsy Kings. \o/

Não faltou gente famosa soltando a voz no Eurovision: teve Julio Iglesias em 1970 pela Espanha (Gwendolyne), teve Lara Fabian — aquela da música Love By Grace, sucesso na novela global Laços de Família — em 1988 com Croire por Luxemburgo, teve as meninas do t.A.T.u. em 2003 pela Rússia (Ne Ver’, Ne Boysia) e teve até a Bonnie Tyler (TOTAL ECLIPSE OF THE HEAAAAAAART!) em 2013 pela Inglaterra (Believe in Me).

Mesmo a hoje reclusa Enya, a moça dos gatos no castelo, na época à frente da banda Clannad, quase foi a escolha da Irlanda em 1973 com An Pháirc.

Mas, obviamente, o sucesso não é exatamente uma regra para todos os vencedores (ou participantes). Vejam o caso da banda finlandesa Lordi, que surpreendentemente faturou o Eurovision em 2006 com Hard Rock Hallelujah, até hoje seu maior hit. Foi a primeira banda de rock a ganhar o título, vejam só. O caso é que o grupo faz um heavy metal com toques de hard rock farofa, todos efetivamente vestidos como monstros de filmes de terror e letras que remetem a filmes B de terror. Ou seja: nada mais longe da fórmula mais pop do sucesso, com ou sem Eurovision para servir de currículo. Até hoje fazem moderado barulho apenas dentro do nicho dos headbangers.

O mesmo vale para o fenômeno pop Conchita Wurst, alter ego drag do austríaco Thomas Neuwirth, cujo visual barbado causou porções iguais de empolgação e polêmica mas que, infelizmente, hoje vive restrita ao topo das paradas de seu país natal. E também para a transexual israelense Dana International, que venceu em 1998, causou furor e protestos, deu de ombros e botou pra quebrar mas, alguns anos depois, desapareceu do cenário musical, sendo relembrada apenas na versão local do reality musical Pop Idol.

O componente brega

Pois é, ele existe. Até quem é fã declarado do Eurovision sabe disso e nem se esforça pra negar. Porque é parte da graça da coisa toda.

É tudo pomposo, grandioso, deliciosamente exagerado, com performances repletas de luzes, fogos, dançarinos e até uns efeitos especiais bastante questionáveis. E TÁ TUDO BEM.

Pra você sacar qual é a do Eurovision, só vendo o naipe da galera que se apresenta mesmo. Então, temos aqui duas sugestões de vídeos. O primeiro deles, com todas as canções que foram selecionadas por seus países e concorrem este ano. E o segundo, divertidíssimo, que mostra todos os vencedores do festival de 2019 até em 1956, em ordem cronológica reversa.

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