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HQ prova que o black metal também pode ser… adorável

Criada pelo finlandês JP Ahonen, a série mistura humor familiar, estética extrema e amor pelo black metal. Agora, depois de conquistar leitores, virar banda de verdade e ganhar uma adaptação animada, Belzebubs enfim chega ao Brasil pela WMF

Por THIAGO CARDIM

Poucos gêneros musicais cultivam uma imagem tão séria quanto o black metal (e não vamos entrar aqui na discussão sobre como parte do movimento está conectada com ideologias BASTANTE questionáveis…). Corpse paint, pseudônimos sombrios, capas de discos cheias de florestas congeladas, letras sobre morte, paganismo e ocultismo fazem parte de um imaginário que, durante décadas, se alimentou da própria solenidade.

Foi justamente aí que o ilustrador finlandês JP Ahonen encontrou espaço para fazer humor. Criada inicialmente como uma webcomic publicada nas redes sociais, Belzebubs parte de uma pergunta simples: e se uma típica família suburbana fosse formada por músicos de black metal?

O resultado virou um dos maiores fenômenos recentes dos quadrinhos independentes europeus. Agora, depois de conquistar leitores em diversos países, inspirar uma banda real e ganhar uma futura adaptação animada, a obra finalmente chega ao Brasil pela WMF Martins Fontes. Mais do que uma coleção de piadas para iniciados, Belzebubs funciona como uma carta de amor ao metal extremo — feita por alguém que claramente conhece o assunto por dentro.

Quem é JP Ahonen?

Antes de Belzebubs, JP Ahonen já era um nome respeitado na Finlândia. Quadrinista, ilustrador e designer gráfico, começou a publicar ainda nos anos 2000, produzindo HQs como a tira “Villimpi Pohjola” e a graphic novel “Sing No Evil” (Perkeros), além de diversos trabalhos para jornais finlandeses. Seu traço sempre chamou atenção pela combinação curiosa entre personagens extremamente expressivos e um acabamento que lembra ilustrações clássicas do heavy metal.

Mas Ahonen também é músico e sempre frequentou a cena metal finlandesa. Isso explica por que Belzebubs consegue rir do universo do black metal sem nunca parecer uma sátira feita por quem olha de fora. As referências são específicas, as situações fazem sentido para quem conhece bandas independentes e os clichês aparecem justamente porque todos eles existem de verdade.

“O Belzebubs começou como um projeto de autoterapia lá em 2015, quando eu estava passando por um esgotamento profissional e pela depressão que se seguiu”, explica o autor, em entrevista ao Comics Beat. “Eu havia chegado a um ponto em que praticamente perdera todo o interesse em desenhar e na arte em geral, e cogitava guardar meus lápis e mudar de profissão. No entanto, eu publicava uma série de tirinhas dominicais chamada Northern Overexposure em um jornal local e queria concluí-la antes de desistir de tudo”.

Na época, ele e alguns amigos estavam participando do Inktober, o que lhe deu a ideia de usar o desafio para relaxar e improvisar. “Por algum motivo, os primeiros personagens que surgiram no papel foram dois caras do black metal — aquela piada do vômito seco que acabou entrando também no primeiro volume de Belzebubs”, afirma. “Achei divertido desenhar esses personagens, então decidi adotar o black metal, o satanismo e temas afins como um fio condutor livre para meus rabiscos. Isso resultou em cerca de vinte tirinhas, mas não consegui concluir o desafio Inktober na ocasião devido a outros compromissos profissionais”.

Isso acabou levando ao planejamento concreto de Belzebubs, quando, em 2016, ele começou a reservar um tempo para o projeto. “Fazer aqueles pequenos rascunhos despretensiosos tinha sido divertido, e comecei a pensar que talvez não precisasse desistir ainda, já que havia encontrado algo que me inspirava. Passei a organizar minha agenda de modo a trabalhar nos meus outros projetos de segunda a quinta-feira e dedicar as sextas-feiras a uma tirinha de Belzebubs. Depois de produzir cerca de 40 tirinhas, comecei a publicá-las online e até produzi uma pequena coletânea em formato de miniquadrinho. Fizemos 300 exemplares em inglês e 300 em finlandês, e eles se esgotaram instantaneamente”.

Uma família infernal… e incrivelmente comum

A premissa é deliciosa: os Belzebubs são uma família aparentemente normal. Ou melhor… “Normal”, se você considerar natural que o pai passe os dias tentando gravar discos de black metal, a mãe cuide da casa usando corpse paint, os filhos aprendam magia negra antes de aprender matemática e o cachorro tenha aparência demoníaca.

Cada tira apresenta pequenos momentos do cotidiano dessa família: discussões conjugais, problemas na escola, aniversários, ensaios da banda, frustrações com gravadoras, equipamentos musicais… Tudo tratado como qualquer sitcom familiar – apenas substituindo reuniões de condomínio por festivais de metal extremo.

A família é formada por Sløth, um pai dedicado que cuida da casa, além de ser o vocalista e guitarrista da banda, tentando constantemente conciliar seus sonhos de estrela do rock com o papel de bom marido e pai; Lucyfer (Lucy), a esposa, uma mulher cheia de iniciativa que trabalha como diretora de arte em uma agência de publicidade e cuida das contas da casa; Lilith (Lily), a filha adolescente e independente do casal, de personalidade forte e determinada; e Leviathan, o filho mais novo, um menino alegre e cheio de energia, grande fã da música do pai, além de sonhar em montar sua própria banda.

É justamente o contraste entre o absurdo visual e a banalidade das situações que faz Belzebubs funcionar tão bem.

“Os personagens têm uma aparência ameaçadora e exibem cruzes invertidas e pentagramas nas testas, mas são liberais e solidários”, explica o autor. “No entanto, as pessoas temem aquilo que não conhecem ou não compreendem. Lembro-me de que, quando estávamos apresentando o projeto Belzebubs, um executivo perguntou: ‘Então, se eles são satanistas, eles comem bebês?’… e percebi que ainda temos um longo caminho a percorrer”.

Humor para metaleiros… e para quem nunca ouviu Mayhem

Um dos maiores méritos da série é não depender exclusivamente de referências musicais. Quem conhece Emperor, Darkthrone, Immortal, Burzum ou Dimmu Borgir certamente identifica dezenas de piadas escondidas. Mas quem nunca ouviu black metal também encontra uma boa comédia sobre família, criação de filhos, vida adulta e as dificuldades de transformar paixão artística em profissão.

Essa dupla camada explica por que a série ultrapassou rapidamente o nicho metal. As tirinhas começaram a circular em fóruns, Facebook, Reddit e Instagram, acumulando milhões de visualizações e sendo traduzidas espontaneamente por fãs em diversos idiomas.

“Sempre quis manter Belzebubs como um espaço de liberdade para explorar todas as minhas obsessões: música, monstros e todas aquelas referências a Dante e às ilustrações de Gustave Doré, por exemplo”, revela Ahonen. “Minhas histórias têm uma pegada bem realista (com muita comédia romântica e situações do cotidiano), mas gosto de levar as coisas para o absurdo de vez em quando. A única coisa em que não posso exagerar muito nas tirinhas é a ação, pois quero manter o formato de quadrinhos quadrados. Isso significa que não posso ousar demais na composição visual, algo de que às vezes sinto falta”.

Da HQ para uma banda de verdade

Talvez o capítulo mais curioso da história de Belzebubs seja justamente quando a brincadeira deixou de ser brincadeira: em 2018, surgiu oficialmente a banda Belzebubs. Inicialmente apresentada como se fosse formada pelos próprios personagens, o projeto manteve durante bastante tempo em segredo quem eram os músicos reais.

A estratégia lembrava um pouco Gorillaz, mas aplicada ao universo do black metal. “Como Belzebubs foi minha primeira webcomic, eu queria experimentar com animação, áudio e outros elementos que não consigo incorporar em quadrinhos impressos”, diz o quadrinista. “Meu plano era criar eu mesmo algumas vinhetas animadas bem rudimentares para intercalar entre os quadros, talvez gravando tudo sozinho, da guitarra aos vocais guturais, e usando bateria eletrônica”.

No entanto, ele acabou comentando isso com alguns amigos músicos, que ficaram empolgados e quiseram ver se tinham alguma demo antiga guardada. No entanto, a coisa tomou proporções maiores rapidamente e eles acabaram gravando demos de verdade e enviando para a gigante Century Media, gravadora especializada em heavy metal. “E, de repente, já tínhamos formado uma banda virtual com contrato com gravadora e a necessidade de produzir videoclipes também”.

O álbum Pantheon of the Nightside Gods, lançado em 2019, surpreendeu justamente porque não era uma piada musical. Era um disco de black metal melódico extremamente competente, elogiado tanto pela crítica especializada quanto por fãs do gênero. Na prática, Belzebubs virou um raro caso em que uma HQ gerou uma banda que conseguiu existir independentemente dos quadrinhos.

Um sucesso que continua crescendo

O sucesso internacional abriu portas para novos formatos. Em 2023, foi anunciada oficialmente uma série animada baseada na obra. A produção está sendo desenvolvida pelo estúdio finlandês Pyjama Films, em parceria com a YLE, principal emissora pública da Finlândia.

A primeira temporada terá 13 episódios e, até o momento, a produção segue em desenvolvimento, sem uma data definitiva de estreia, mas o envolvimento direto de JP Ahonen garante que o humor e a identidade visual da HQ permaneçam intactos.

Edição brasileira

A chegada pela WMF Martins Fontes representa um passo importante para leitores brasileiros. Embora o Brasil possua uma das maiores comunidades de heavy metal do mundo, esta HQ nunca chegou oficialmente por aqui (por mais que Thiago Ferreira, da Comix Zone, tenha revelado que em certo momento chegou a negociar o lançamento por aqui).

É uma obra que conversa diretamente com quem cresceu ouvindo Iron Maiden, Sepultura, Bathory ou Emperor, mas também funciona para qualquer leitor interessado em humor gráfico inteligente. A edição nacional permite finalmente conhecer uma das webcomics mais influentes da última década em um formato à altura do capricho artístico de JP Ahonen.

O mais curioso sobre Belzebubs talvez seja perceber que ela faz exatamente aquilo que toda grande obra de humor consegue realizar: ela ri de um universo específico sem diminuí-lo.

Aliás, bem ao contrário: quanto mais você lê, mais percebe o carinho que JP Ahonen tem pela cultura do metal extremo. No fim das contas, Belzebubs não debocha do black metal. Ela apenas lembra que, por trás das pinturas faciais, das guitarras distorcidas e das capas sombrias, continuam existindo pessoas tentando equilibrar trabalho, família, filhos e boletos.

E talvez seja justamente isso que torne essa família demoníaca tão estranhamente… humana.



Aproveite para entrar no clima com uma das músicas da banda… 🤘

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