Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

Eu e o Caps, o Caps e eu

Durante algum tempo, eu fui esta pessoa que teve uma bronca homérica do Capitão América por motivos mais do que óbvios. Mas ela passou. E isso foi MUITO ANTES do Chris Evans dar as caras nos cinemas.

Por THIAGO CARDIM

O ano era 2003. Eu, do alto dos meus 19 anos (uau!), ali no comecinho das atividades do finado e saudoso site A ARCA, a principal fonte de informação do fã de cultura pop 013 habitante da Baixada Santista e cercanias, escrevi isso aqui a respeito do Capitão América: “Quem me conhece há algum tempo, seja pessoalmente ou pelos meus textos publicados na web, sabe muito bem que tenho alguns desafetos no mundo da cultura pop. Detesto o Super-Homem (que me recuso a chamar de Superman), odeio o Mickey Mouse e tenho pavor do Zé Colméia. E nunca fui fã do Capitão América. Porque sempre achei que o personagem era datado, um herói que não encaixava nos dias de hoje, uma bobagem patriótica cega e sem o mínimo conteúdo”.

A esta listinha de personagens que eu detestava, você pode acrescentar também o Justiceiro e o Wolverine, ambos alvos de eternas discussões pós-aulas de Teoria da Comunicação com o excelentíssimo professor André Rittes na UNISANTA. Mas isso é assunto pra outro dia (talvez).

Só que este MESMO texto, na verdade, servia isso sim como uma espécie de mea culpa. De novo, isso lá pelos idos de 2003, hein. Porque tava rolando um movimento de leitores, ainda pré-redes sociais, bombardeando a redação da Panini pedindo pelo cancelamento das histórias do Capitão América do seu mix de publicações, dizendo que ele era o reflexo de uma nação falida, de uma América pós-11 de setembro pipipipópópó. Assim, como era de se esperar, o restante do meu texto tá salpicado de opiniões políticas, o que é absolutamente natural e salutar (pois é, mais de 20 anos atrás eu já misturava gibi com política, antes de ser modinha).

Mas, deixando de lado o fato de que algumas das minhas opiniões aí se tornaram, digamos, mais sofisticadas e complexas – e algumas, inclusive, bem mais radicais, já que hoje sou beeeeeem mais de esquerda e anarquista do que eu era com 20 e poucos anos de idade – uma delas não mudou. A de que era uma bobagem que aquilo estivesse sendo dito justamente ÀQUELA altura. Porque aquela fase do Caps era incrível. E me fez voltar a gostar do personagem DE VERDADE.

Quando o homem questiona a bandeira

Assim, não dá pra mentir – claro que tive minha fase de ler as HQs de Steve Rogers, não vou negar. Óbvio que esta coisa toda do patriotismo babaca dos EUA me incomodava desde moleque, mas, pô, o PRIMEIRO gibi de super-herói que eu li SOZINHO na vida, sem a ajuda da minha santa avó que lia comigo e que me incentivou o hábito da leitura dos quadrinhos, foi justamente um do Sentinela da Liberdade, da fase da dupla Roger Stern e John Byrne. E não dá pra dizer que passei incólume tanto pelos bons momentos de Mark Gruenwald à frente do título, quanto pela deliciosa passagem de Mark Waid com o traço inesquecível do Ron Garney.

Mas acho que o que me pegou DE VEZ foi mesmo a dobradinha John Ney Rieber e John Cassaday.

Neste texto d’A ARCA, eu dizia, inclusive: “O personagem, que agora é publicado nos States pela linha Marvel Knights, amadureceu. Deixou de ser uma bandeira ambulante e tornou-se o retrato de uma época. Revelou sua identidade publicamente, mudou-se para o bairro barra-pesada do Brooklin”.

E complementava: “As atuais histórias do Bandeiroso são cheias de críticas aos EUA, mostrando um herói deslocado e abalado pelos eventos do World Trade Center. O patriotismo inocente da era Joe Simon/Jack Kirby morreu. A todo momento, nosso Capitão se depara com um país degradado, destruído pela violência, pelas drogas, pela corrupção. E ainda tem gente que enxerga isso como patriotismo? O fato do sujeito usar a bandeira dos EUA como uniforme é justamente para mostrar que ele é um homem parado no tempo, como os governantes de seu país”.

Mas minha frase que melhor define esta ótima fase, definitivamente, é “O roteirista fala de criminosos e terroristas sem ser simplório, dicotômico, babaca. É o melhor material envolvendo Steve Rogers em décadas”.

Detalhe importante – eu ainda estava há ANOS de ler o que o Ed Brubaker faria com o personagem, hein? Mas isso é assunto pra outro dia (este com certeza, porque, sim, vamos falar sobre isso aqui no Gibizilla, embora sob outro viés. AGUARDE!).

Por enquanto…

Pra aproveitar que o Capitão América tá completando 80 anos, sugerimos que vocês ouçam este ótimo episódio do podcast Fala Animal, gravado para celebrar o legado do herói e do qual fui gentilmente convidado a participar. Discussão de altíssimo nível e que repassa todas as principais fases da carreira do sujeito. Prato cheio pra quem anda buscando sugestões de leitura.

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