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Os Melhores Discos de 2021

Sim, são 21 discos. E eu podia dar a desculpa de que é pra combinar com 2021, aquela coisa. Mas nem é por isso, já que foi total coincidência (do tipo que só percebi quando comecei a escrever este texto). Só escute e seja feliz.

Por THIAGO CARDIM

Apesar de declarado e assumido fã do metal espadinha, já tem quase duas décadas, pra dizer o mínimo, que eu abandonei o estereótipo do metaleiro babaca que só ouve metal. Porra nenhuma. Mais uma vez, a minha seleção de álbuns favoritos do ano reflete um bom quinhão desta mistura que é o meu atual gosto musical, daquele tipo que dá uma bagunçada da boa nos algoritmos de serviços de streaming que uso. Adoro.

Música brasileira, rap, pop, baião, soul, tá tudo aqui, uma deliciosa loucura caótica para todos os gostos e ouvidos mas que eu, do fundo do coração, recomendo que você ouça assim mesmo, juntando lé com cré sem parcimônia, mandando Juçara Marçal depois de Mastodon. E por que não, diabos?

Em tempo – selecionamos aqui alguns clipes destes respectivos discos pra dar um gostinho do que ouvir. Aí, se você gostou, pode muito bem ir atrás dos ditos cujos na sua plataforma de streaming favorita. Lá no Pinterest, eu mantenho um board com as capas de TODOS os discos novos que ouvi ao longo do ano. E no Spotify, tem uma playlist sem fim com as melhores 3 ou 4 faixas de cada um destes discos que escutei. Dá lá uma moral.

Ah! Isso NÃO é um ranking, tá? Os favoritos estão aqui sem ordem definida, propositalmente misturados. Apenas porque sim.

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Cabokaji (Cabokaji)
Um trabalho de resgate da importância dos povos originários para a musicalidade nacional brasileira, este primeiro disco da banda formada por cantores, compositores, instrumentistas e pesquisadores da arte traz diferentes sonoridades, ligando o tradicional e o moderno, batucada com eletrônico, mostrando que a musicalidade indígena é berço pro surgimento de diversos ritmos nordestinos.

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Lucifer IV (Lucifer)
O quarto disco deste combo surgido na Alemanha mas formado basicamente por suecos, sob liderança da frontwoman Johanna Sadonis, é mais uma prova de que dá pra ser “retrô”, dá pra homenagear os clássicos, sem necessariamente ser reverente daquela maneira pedante. É rock, é clássico, é sombrio, mas tem uma sonoridade própria, única, muito sua. Lindeza pura.

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In the Court of the Dragon (Trivium)
O amadurecimento sonoro pelo qual estes caras passaram nos últimos anos, olha… É mais do que simples fúria. É fúria com poesia, com beleza, com tantas camadas que dá até gosto de ouvir e ouvir mais do que uma vez só pra ter certeza. Se você é da turma do “metal no meu tempo não era assim”, eu nem vou dizer pra você sair daqui. Vou dizer é pra você se foder mesmo.

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Hushed and Grim (Mastodon)
Um dos discos mais bonitos e mais tristes do ano. Uma obra sobre o luto, uma homenagem dos caras ao empresário tão querido que partiu cedo demais. É daqueles álbuns que acabam sendo, mesmo sem querer, um retrato vívido de seu tempo, deste momento em que perdemos tanta gente querida. Dá pra dizer que é um disco cinza.

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Delta Estácio Blues (Juçara Marçal)
Esta mulher é uma força da natureza. Fato. E, como tal, mostra que ninguém consegue pará-la, nem sequer dizer o que pode ou não fazer. O resultado é um álbum que tem MPB, rap, rock, samba, eletrônico e até sonoridades de religiões afrobrasileiras. E tem até blues, vejam só vocês. Mais Juçara, por favor.

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The Blues Album (Joanne Shaw Taylor)
E por falar em blues, esta inglesa que foi descoberta aos 16 anos como um jovem fenômeno do gênero agora ultrapassa a barreira dos 30 prestando homenagem a alguns de seus heróis e heroínas, em um álbum só de versões para clássicos blueseiros. Com produção de ninguém menos do que Joe Bonamassa, o disco traz Joanne dando ainda mais destaque pros vocais do que pra sua guitarra envenenada, resultando em uma audição deliciosa.

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Heroine (Inglorious)
Conheci estes caras em 2021, com um ótimo disco de inéditas – mas me apaixonei mesmo por esta iniciativa, um álbum totalmente dedicado a versões para canções de mulheres. E não são apenas aquelas do bate-cabeça. Tem de Heart a Joan Jett, passando por Evanescence, Halestorm, Tina Turner, Alanis Morissette, Cyndi Lauper, Miley Cyrus, Whitney Houston, Christina Aguilera…

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Bailão Granfino (Jorge Du Peixe)
A voz da Nação Zumbi chega em um disco solo finíssimo, reinterpretando apenas canções do rei do forró, Luiz Gonzaga. O olhar respeitoso do músico, que em momento algum foge à missão de apresentar a extensa obra do mestre, não impede que ele dê a sua cara a cada composição, aplicando uma delicada camada de modernidade.

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Eternal Blue (Spiritbox)
O disco de estreia da banda liderada pelo casal canadense Mike Stringer (guitarrista) e Courtney LaPlante (vocalista) é difícil de definir. E que bom. A sonoridade é experimental, sem medo de flertar com elementos eletrônicos ao mesmo tempo em que mergulha nas melodias intrincadas do progressivo. Isso não os impede de ser pesados, intensos, mais metal do que muito metaleiro com cara de malvadão por ai.

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Wallflower (Jinjer)
Mais um destaque do rock pesado, mais uma mina nos vocais. Este grupo ucraniano tem peso, tem pedrada no DNA, mas passeia não apenas pelas sonoridades étnicas de suas origens mas também por um tanto de soul e jazz, por exemplo. É sério. Escuta e presta BEM atenção. Tudo sem perder o bom e velho groove.

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Brasil Futurista (Coruja BC1)
Um dos nomes mais importantes do rap no Brasil, este egresso do eixo Osasco & Bauru entrega um álbum bastante diverso, que acaba sendo a cara do Brasil urbano dos dias de hoje. Tem samba-rock, soul, trap, Candomblé. E tem ainda participações especiais de Lúcio Maia, Jair Oliveira, Margareth Menezes…

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Noturno (Maria Bethânia)
Bethânia, né, gente. Podia só escrever isso aqui e já tava bom, tava mais do que explicado. Essa mulher é um negócio muito louco. A potência das composições e da interpretação dela, cara, é de deixar com o queixo caído. Destaque pro dueto lindíssimo com Xande de Pilares no samba “Cria da Comunidade”.

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Creatures of the Dark Realm (Bloodbound)
Como boa cria do metal espadinha, não podia deixar de trazer uns exemplares deste fino gênero da mais pura farofa. Eu AMEI o novo trabalho destes suecos, repleto de canções de refrão fácil e que dão pra cantar junto a plenos pulmões enquanto se lava a louça ou faz a faxina na casa.

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Fortitude (Gojira)
Os franceses, que fizeram mais pela Amazônia nos últimos meses do que o próprio presidente do país, refinaram seu trabalho de tal forma que acabamos sendo apresentados ao seu disco mais “palatável” – mas nem por isso menos complexo. Aquele papo furado de que eles são uma banda que faz metal “complicado” só pros críticos definitivamente ficou no passado.

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Turn Up That Dial (The Dropkick Murphys)
Impossível não sair pulando e dançando quando começa a tocar o irish punk desta turma de Boston. Sem medo de meter o dedo na cara, eles são a trilha sonora ideal pra encher a cara, ser feliz e deixar as tretas deste mundo esquisito e cinzento lá fora por algum tempo, pelo menos.

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Now and Then (Paul Stanley’s Soul Station)
O outro dono do Kiss, sócio do insuportável linguarudo Gene Simmons, Paul Stanley resolveu dar um tempo na maquiagem, juntar uma seleção de feras e se dedicar a um disco só com suas versões pra clássicos da soul music. O resultado é uma delicinha, pra ouvir sem contraindicações.

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Final Days (Orden Ogan)
Mais um espadinha aí pra fazer os seus dias mais felizes. Estes aqui são alemães, a terra da boa espadinha, da espadinha raiz, da espadinha verdadeira e sincera. É pesado, mas é grudento, leve, divertido, alegrinho. Do jeito que todo bom metal espadinha tem que ser.

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One Shot (Ronnie Atkins)
Muita gente talvez só conheça o Ronnie por conta de suas participações nos discos do Avantasia, o que é de fato uma tremenda duma injustiça. Lutando contra um câncer, a voz do Pretty Maids soltou um álbum solo emocional e emocionante, tocante, que prova que este é um cara que ainda tem muito o que mostrar (e cantar) por aqui.

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Out of the Dark (Joyann Parker)
Outro vozeirão feminino que viaja pelo rock clássico, pelo blues, pelo soul, pelo R&B, aqui ela mostra uma entrega absolutamente visceral em cada uma das faixas. A voz é linda, intensa, virtuosa, poderosa. Mas as faixas compostas em parceria com o guitarrista Mark Lamoine tão aí pra ajudar a valorizar o que já é por natureza sensacional.

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Echoes of the Soul (Crypta)
As minas do Nervosa, com formação reformada, também lançaram um discaço este ano e eu acho de verdade que vocês deviam ouvir. Mas aqui, quisemos dar espaço pro álbum da estreia da outra banda incrível que se formou a partir desta cisão – e a Crypta entrega tudo sem concessões. Se outrora Fernanda e Luana fizeram thrash metal com a Nervosa, a parada aqui é mais death. Uma verdadeira metralhadora sonora.

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Montero (Lil Nas X)
Impossível encerrar esta lista sem mencionar o grande nome da música pop americana hoje em dia. O que este cara faz, sem exagero nenhum, é impressionante. Faz o que quer, como quer, sem se preocupar com a ira dos conservadores. E o público pede bis. E o mercado se curva ao seu talento. Continua arrebentendo.

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