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Contra Tempo: um novo olhar sobre a Independência do Brasil

No ano em que completamos dois séculos desde aquele 7 de setembro de 1822, dia da Independência do Brasil, às margens do Rio Ipiranga, HQ do Instituto Ciência na Rua reconta a história mostrando os efeitos da violência, do racismo e de outros fatores que forjaram a atual identidade nacional brasileira  

Por THIAGO CARDIM

A trama básica a gente já conhece desde os livros de escola e, de imediato, nossa cabeça monta a cena clássica – o ano era 1822, o dia era 7 de setembro, Dom Pedro I ergue a espada, montado em seu cavalo, grita “Independência ou Morte!” e pronto, tá resolvido, o Brasil agora era um reino por conta própria, não mais uma colônia de Portugal. Isso virou filme, música, série de TV… E virou gibi também. Mas não um gibi como Contra Tempo: Uma Viagem de 200 Anos, isso dá pra dizer sem pensar.

Projeto do Instituto Ciência na Rua, atualmente uma plataforma digital multimídia dedicada à expansão da cultura científica em nosso país como ferramenta de formação da cidadania, a HQ dedicada ao público infantojuvenil mostra uma jovem estudante negra viajando no tempo, desembarcando em 1817, em plena Revolução de Pernambuco. Aos poucos, ela vai passando por 1822, depois acompanha o centenário da Independência (1922), avança para 1972, ano do sesquicentenário e período mais duro da ditadura militar, em pleno governo do general Emílio Garrastazu Médici – e em certo momento, retorna pra 2022.

A missão de retratar as descobertas in loco da personagem contemporânea, trazendo um novo olhar para partes da história, desafiando narrativas tradicionais e ampliando o conhecimento sobre pedaços pouco conhecidos deste momento histórico, ficou a cargo de um trio de quadrinistas mineiros. Estamos falando de Igor Marques (roteirista), Ana Cardoso (desenhista, responsável pelo LINDÍSSIMO “Quando Você Foi Embora” e pela vindoura Graphic MSP do Mingau) e Hyna Crimson (colorista).

“Procuramos trazer luz e ajudar as pessoas a conhecerem acontecimentos que vão além do ‘Independência ou Morte’, apresentando como eles influenciaram todo esse processo”, explica Igor, em papo exclusivo com o Gibizilla. “Mostramos ainda como esses acontecimentos afetaram a vida dos brasileiros ao longo dos anos, ajudaram a moldar nossa identidade de país e como ainda temos diversos ecos nos dias atuais”.

Casamento entre arte e história

Quando o projeto pintou para o trio, vindo da coordenadora do Ciência na Rua, Mariluce Moura, Ana e Hyna (“É uma história importante a ser contada, principalmente em nosso contexto atual”, diz a colorista) se interessaram de cara. Mas Igor, que cuidaria dos roteiros, ficou cabreiro com com o volume de informação que precisaria estudar para produzir uma história baseada em fatos de uma maneira divertida e interessante. “Contar com o apoio de todos envolvidos foi fundamental para poder seguir e participar”.

Parte fundamental desta equipe (e do processo de “tranquilizar” o Igor, leia-se) é a presença de um quarto pilar, João Paulo Garrido Pimenta, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo (USP) e especializado em História da Independência do Brasil. “Nosso diferencial está em oferecer uma visão rigorosa e correta da história por meio da imaginação e da criação artística”, afirma ele. “O conhecimento do mundo é uma tarefa racional, mas também altamente sensitiva, e é por isso que uma HQ pode se harmonizar perfeitamente com um livro de história. A verdade da arte e a verdade da ciência não são, jamais, rivais, mas parceiras”.

Página da HQ Contra Tempo, sobre a Independência do Brasil
Página da HQ Contra Tempo, sobre a Independência do Brasil

O roteirista reforça que a parceria com o professor foi fundamental, porque ele entrou de cabeça também na parte da construção narrativa. “Ele indicou diversas referências para o desenvolvimento do roteiro, ajudando a entender os acontecimentos, representar a sociedade e personagens históricos”, diz. “A partir dos fatos, tomamos algumas liberdades para imaginar o que aconteceria se as coisas fossem um pouco diferentes, mostrando como esses momentos impactaram a história e a identidade do Brasil de hoje”.

O professor João Paulo frisa, no entanto, que a pesquisa histórica acompanha, dá subsídios (de imagens, informações, contextos) e “fiscaliza” todo o processo de produção. Mas sempre tomando cuidado para respeitar e valorizar a criação artística, jamais se sobrepondo a ela. Criação e criatividade em primeiro lugar.

Teve alguma coisa a respeito do período que você descobriu e te espantou, algo que os livros que lemos na escola pouco contam?

Não dava, obviamente, pra fugir desta pergunta. E o Igor lembra que, quando falamos em 1922, sempre pensamos na Semana de Arte Moderna, outra grande comemoração prevista para 2022. “Mas nunca soube que tinha acontecido uma Exposição Universal no mesmo ano para comemorar a Independência do Brasil. Isso me surpreendeu. Como um evento que durou mais de um ano, patrocinado pelo governo, com milhares de espectadores, foi esquecido e outro que só durou uma semana é lembrado e impacta a gente até hoje?”, se questiona ele.

Além disso, o autor também ficou espantado com a comemoração dos 150 anos da Independência do Brasil. “No meio da ditadura fizeram festas e desfiles para os restos mortais de Dom Pedro por todo país. Minha cabeça viajou bastante estudando esses acontecimentos”.

O professor destaca que, nas últimas décadas, mesmo com muitas dificuldades enfrentadas pelos professores, os livros e as aulas de história melhoraram bastante. “Eles estão cada vez mais próximos da pesquisa histórica que, por sua parte, está sempre se renovando”, conta. Portanto, a HQ está sintonizada com essas duas pontas, a melhoria do ensino e o desenvolvimento da pesquisa. “E por isso nosso leitor poderá, ele próprio, descobrir e se surpreender com uma história do Brasil que talvez ele ainda não conheça”.

Ah, sim, o retorno do público!

Sim, todos eles admitem que o Ciência na Rua ainda tem um alcance menor do que poderia (e deveria!), mas pelo menos ALGUM feedback dos jovens leitores, a equipe já está recebendo. E é bastante positivo. “É muito divertido ver o interesse das pessoas no quadrinho e como elas têm aprendido mais sobre alguns acontecimentos da história do Brasil de forma divertida”, orgulha-se Igor.

E estamos falando, ainda bem, de uma turma lendo gibi mas que NÃO É aquele mesmo nicho de sempre, de quem transitava no máximo entre Turma da Mônica, Disney e a dupla Marvel & DC. “O público está mais exigente, porém com mais acesso e aberto a novos conteúdos”, aposta a desenhista Ana. “Antes o quadrinho era algo de um nicho nerd, não gosto muito desse estereótipo, porque os quadrinhos estão no mundo nerd, nas escolas, no universo underground e nas redes sociais para um público amplo acessar”. Para a colorista Hyna, o acesso à informação torna o público mais exigente. “Eles estão cada vez mais ativos quando algo não agrada, quando falta representatividade e etc”.

Igor também concorda com esta abertura, mas diz que o público médio por vezes pode não saber por onde começar. “HQs serializadas com infinitos números e uma cronologia de décadas não são muito convidativas para novos leitores”, diz, com TODA A RAZÃO. “Eu acredito que ter temáticas que falam mais com a nossa realidade podem ser uma oportunidade para despertar a atenção do público para se conectarem com os gibis”.

Então, bora compartilhar este material por aí!

Para quem ficou interessado, a HQ Contra Tempo: Uma Viagem de 200 Anos é publicada em pequenos capítulos às segundas, quartas e sextas-feiras, tanto no site do Instituto Ciência na Rua quanto no Tapas. Prevista para ter 84 páginas no total, a obra vai ganhando novos desdobramentos até o encerramento, às vésperas da data oficial do Bicentenário da Independência do Brasil. Depois do fim deste ciclo online, a intenção é transformá-la em um livro impresso.

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