Jornalismo de cultura pop com um jeitinho brasileiro.

Black Sabbath, Oasis, Roy Khan e a trilha das nossas vidas

Muitas das histórias que escrevemos ao longo das nossas vidas têm uma trilha sonora muito específica. E ouvir estas canções é uma experiência que traz cada memória de volta.

Por THIAGO CARDIM

Créditos das Fotos
Roy Khan > Anderson Hildebrando
Ozzy Osbourne > Ross Halfin
Oasis > Samir Hussein


No último sábado (5), tive a chance de finalmente ver ao vivo um dos meus vocalistas favoritos da vida: o norueguês Roy Khan, a voz mais conhecida do grupo Kamelot, finalmente se lançando em carreira solo. Infelizmente, nunca tinha conseguido assisti-lo quando estava integrando a banda americana. E este pontapé inicial não poderia ser mais acertado, diante de uma plateia pegando fogo (Brasil, né) e homenageando – com orquestra e tudo – o álbum The Black Halo.

Foi um momento lindo por uma série de razões. A apresentação foi potente, emocionante, com Roy visivelmente tocado pela recepção do público. Com a voz na medida certa e com as canções adaptadas para que ele pudesse imprimir a sua tão conhecida teatralidade, ele foi quase um maestro, em algumas faixas acompanhado pela multifacetada Adrienne Cowan, a maravilhosa vocalista da banda Seven Spires e integrante recorrente do Avantasia, indo do doce e melódico ao brutal e gutural na maior tranquilidade (e que consciência de palco ela tem, caraca).

Sim, eu sei bem, o dono da festa naquela noite era o brasileiro Edu Falaschi, celebrando o álbum Temple of Shadows, de sua fase com o Angra, tocado na íntegra. É um disco que eu AMO de paixão, meu favorito dos brasileiros logo depois do Holy Land. Acompanhei a turnê original em muitas datas, quando ainda trabalhava na AOL Brasil, entrevistei os caras antes, durante e depois das gravações. E, diabos, meu nome até foi parar nos créditos de agradecimentos do disco, lá no encarte, pertinho do Jô Soares. Ver o Edu não apenas encontrando um jeito de cantar mais adequado ao frontman de 53 anos e inteligentemente jogando pros fãs a tarefa de cantar os trechos em português da lindíssima Late Redemption, por exemplo, foi legal demais.  

Só que The Black Halo era novidade pra mim, ali, ao vivo. E com a voz original que o Cardim de 20 e poucos anos escutava ainda no discman, uau. Assim que o Roy começou a cantar Abandoned, eu desabei e comecei a chorar enquanto acompanhava a letra, aos gritos. Ouvi este disco num momento muito especial delicado da minha vida e esta canção, em particular, me lembra uma fase delicada da minha história, conversando com quem eu era e quem eu estava me tornando. Anos depois, ela ganharia um outro significado, ainda mais visível, tornando-se algo catártica e me arrancando lágrimas a cada audição. Parecia, no fim, que o Roy tava cantando PRA MIM. Foi um momento tipicamente “crítico gastronômico do Ratatouille sendo transportado para a própria infância”.

Sabor, lembrança, experiência.

A música tem igualmente este poder imenso, de criar conexões e se tornar a trilha sonora de pedaços da sua, da minha, da nossa vida.

E, no fim, este foi um final de semana em que, além de mim, muitos outros fãs, ao redor do planeta, tiveram a chance de celebrar as suas próprias trilhas sonoras musicais. Alguns deles, inclusive, EM CIMA do palco.

Sobre um retorno e um adeus

Na sexta, dia 4, depois de um hiato de 16 anos, finalmente os irmãos Gallagher retornaram com o Oasis, que deu início em Cardiff, capital do País de Gales, à sua turnê mundial que passa em novembro pelo Brasil. “A banda soou renovada e rejuvenescida, tocando clássicos como Cigarettes and Alcohol, Live Forever e Slide Away – enquanto 70 mil fãs se abraçavam e derramavam cerveja sobre si mesmos”, disse o crítico da BBC, Mark Savage.

O Oasis é uma banda, por exemplo, que pouquíssimo conversou ou conversa COMIGO, enquanto fã de música. Talvez tenha sido a postura prepotente (sendo que eu gosto de tantos outros arrogantes insuportáveis, vai entender), talvez as brigas entre os dois irmãos, sei lá. Nunca me pegou. O show deles que assisti no Rock in Rio de 2001, um tanto linear e burocrático demais, também não ajudou muito. Mas eu tenho muitos amigos que são fanáticos por eles. E este primeiro show, compartilhado com o mundo em shorts e vídeos curtos do TikTok, foi o suficiente para ativar uma série destas memórias em muitas pessoas que eu gosto e admiro. Pessoas para as quais o Oasis foi esta tal trilha sonora de uma vida.

A querida Liv Brandão, aliás, é uma delas. Acompanhando com um sorriso as postagens dela ao longo da sexta, sempre com depoimentos pessoais sobre cada momento, cada canção, percebi o quanto a banda inglesa e suas canções ressoaram pra ela e se tornaram mais do que apenas uma música de fundo que você escuta despretensiosamente num dia de preguiça, ali à toa. “Dava pra dizer muita coisa. Muita. Se eu estou onde estou, hoje, é por causa deles”, diz ela, em um texto incrível publicado no Substack. “Dava até pra bancar que eles são indiretamente responsáveis por eu ter vindo morar em São Paulo, afinal, a minha primeira vez nessa cidade foi pra vê-los ao vivo, há quase 20 anos”.

Um amigo lá da Baixada Santista, que preferiu não se identificar, veio me dizer que estava tocando Don’t Look Back in Anger quando um dos maiores amores de sua vida saiu daquele boteco de frente pra praia, depois de uma discussão imbecil, para nunca mais voltar. E ele se lembra deste momento até hoje, com tons bastante agridoces, mesmo casado com outra pessoa e com filhos, sempre que a canção toca no rádio do carro, no shuffle do streaming, na TV. O sujeito garantiu, inclusive, que já comprou os ingressos para ver Liam e Noel aqui em SP, ao lado da atual parceira, para tentar ressignificar a sua experiência sonora com os caras.

Já no sábado, enquanto eu me preparava para encontrar Mr.Khan, metaleiros de todo o planeta conjugaram-se de alguma forma em Birmingham, fosse pessoalmente, fosse pela transmissão ao vivo, para o festival Back to The Beginning, um dia inteiro de bandas que culminaria na apresentação final de Ozzy Osbourne em sua carreira solo e também do Black Sabbath, numa digna despedida agora com a formação original completa: Ozzy, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward.

Minhas linhas do tempo no Instagram, no Threads, no BlueSky, todas se inundaram de gente conhecida, músicos famosos (tanto brasileiros quanto gringos) e ilustres anônimos dos quais nunca ouvi falar compartilhando não apenas momentos do festival, mas também suas lembranças com as canções de Ozzy e do Sabbath. Introduções ao mundo do rock, grandes amizades, shows lendários, aquele momento com o disco de vinil, a fita K7 ou o clipe na MTV…

Gente que jamais seria o que é se não fosse por estes nobres ingleses. Por terem cristalizado um zeitgeist que deu origem ao heavy metal. Gente que inclusive estava ali no palco, de Slayer a Metallica, de Tom Morello a Yungblud, de Sammy Hagar a Tobias Forge. Todos venerando seus velhos mestres.

Tudo regado ao som de faixas como Crazy Train, Bark at The Moon, Paranoid, War Pigs… Até a gente aqui em casa entrou no clima e a faxina da semana foi inteiramente ao som de uma playlist só com as nossas favoritas na voz do Madman. Quando Ozzy foi erguido ao palco em seu trono, a saúde debilitada fez a gente ficar com pena do homem. Mas ao tomar o microfone em mãos e injetar aquele olhar maníaco, ficou claro que a alma de John Michael permanecia viva, intacta, incandescente. E ouvi-lo entoar a letra de Mama I’m Coming Home, agora revestida de outro significado, arrancou lágrimas in loco e à distância.

“I could be right, I could be wrong / It hurts so bad, it’s been so long”. É, eu sei. Mr.Osbourne. Também chorei aqui, quase 9.500 km distante de você.

Foi um final de semana em celebração não apenas ao poder da música e ao seu impacto cultural, mas também às marcas que ela deixa nas nossas histórias e às lembranças que um conjunto de riffs e acordes podem trazer num piscar de olhos.

“A vida sem a música é simplesmente um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”, já diria aquela frase de Nietzche repetida à exaustão… mas que nunca fez tanto sentido.



Comments
  • Fabian Fontoura

    Cardim, sei exatamente o que você quer dizer: o sábado em casa foi dedicado a acompanhar o show e a vibrar a cada banda que subiu ao palco, para enfim se debulhar em lágrimas quando Ozzy e seu trono surgiram na tela. Foi vísivel a vontade dele em levantar em vários momentos, e mesmo não conseguindo, ver a entrega dele e a perfeição com que ele executou cada uma das músicas que perfomou bateu fundo no coração. Só de lembrar já estou chorando novamente… Resta a lembrança e a alegria por ter acompanhado essa despedida magnífica!

    9 de julho de 2025

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