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Superman traz a luz do sol que faltava aos filmes da DC

Leve, divertido, ingênuo e colorido, o novo Homem de Aço dirigido por James Gunn tem coragem de desafiar certo espectro de fãs de filmes de hominho ao ir buscar inspiração nas principais raízes do personagem

Por THIAGO CARDIM

Desde sempre, o meu filme favorito do MCU é o primeiro Guardiões da Galáxia – à frente, inclusive, do sempre hypado Capitão América: O Soldado Invernal. A trilogia toda, aliás, eu coloco no topo do que de melhor os estúdios Marvel já fizeram, não importando a fase que estejamos mencionando. Logo, dá pra sacar o quanto tenho uma predileção particular pelo trabalho do James Gunn.

Mas, lembrando algo que já mencionei aqui em outros carnavais, não acredito que Guardiões da Galáxia seja propriamente um filme de super-heróis (que, reforço, não é um gênero cinematográfico em si), apesar de inspirado em personagens da Marvel Comics. É uma space opera, tal qual Star Wars. Assim como o Esquadrão Suicida do Gunn, por exemplo, é uma história de personagens degenerados, uma espécie de formação de uma “família” disfuncional. São um bando de anti-heróis com bússolas morais bastante duvidosas.

Com Superman, que nada mais é do que o modelo primordial de super-herói, James Gunn adentra de cabeça em um tipo de história que, apesar de ter passado a vida inteira lendo, ele mesmo ainda não tinha contado. E ele a conta sob o ponto de vista que mais faz sentido, ainda mais nos dias de hoje: sob o olhar humano do herói. A comparação que muita gente tem feito com o Homem-Aranha original de Sam Raimi é absolutamente válida. Porque o ótimo PH Santos levantou uma bola interessantíssima: graças aos deuses do cinema, Gunn optou por NÃO CONTAR novamente a história de origem do Azulão. Mas, de alguma forma, o ponto central do filme é uma espécie de origem de Clark Kent. E ele está certíssimo na análise.

Explico: em 2004, Quentin Tarantino explorou a sua nerdice ao extremo no monólogo final de Kill Bill 2. Com a Noiva de Uma Thurman amarrada e drogada à sua frente, o vilão Bill vivido por David Carradine explana que, na verdade, o Superman nasceu Superman, como um ser acima da humanidade, um deus que caminha entre nós. E que a identidade de Clark Kent é o seu “uniforme”. Uma espécie de caricatura da raça humana, que ele “veste” para rir de nós, um sujeito tímido, atrapalhado e inseguro. “Clark Kent é como o Superman nos vê”, diz ele.

E esta foi uma definição que muita gente assumiu pra vida a partir dali. Mas que, no fim, apesar de interessante do ponto de vista narrativo, é um olhar absolutamente equivocado para o personagem. Porque o que faz o Superman ser o Superman, de fato, é a sua faceta Clark Kent. O jovem criado pelo casal de fazendeiros do Kansas (que, aliás, estão simplesmente incríveis no filme, dois velhinhos tão fofos que dá vontade de colocar num potinho e levar pra casa), a sua infância simples em Smallville. Foi isso que construiu o seu caráter e o fez ser, no fim do dia, um herói, na acepção mais clássica do termo. Alguém sempre disposto a se sacrificar pelo próximo.

Este Superman, vivido por um David Corenswet certeiro, sorridente e surpreendentemente carismático, não é um deus cósmico, apolíneo e inatingível. Ele é uma caipira do Kansas que, de fato, é o meta-humano mais poderoso do Planeta Terra. Mas que tem suas limitações, seus defeitos, suas inseguranças. E justamente por isso, se torna um farol ainda mais brilhante para a humanidade que aspira ser como ele (o diálogo final com Lex Luthor é a prova mais clara de que o diretor sabia bem o tipo de história que queria contar).

O ponto central deste Superman de James Gunn é a sua compreensão a respeito de quem ele é, de verdade, e quem está destinado a se tornar. Uma pequena e sutil mudança que o cineasta faz no histórico de Kal-El é o suficiente para mostrar que, apesar de ter vindo de Krypton, o que realmente importa é quem ele se tornou ao chegar aqui. Apesar de um imigrante, um refugiado (mais sobre isso adiante), ele é exatamente como eu e você. Só que abastecido de poderes graças à luz do sol amarelo.

Um alguém que, diferente daquela versão monstruosa de Zack Snyder (achou que eu não ia mencionar isso, ora ora ora?), é visto o tempo todo se preocupando em salvar vidas. De pessoas, de cachorros, de esquilos, de vacas, de kaijus. Mais do que voo, superforça ou visão de calor, seu principal poder (e, em alguns casos, até sua fraqueza) é mesmo o tamanho do seu coração.

E sim, este é em dúvida alguma um filme do Superman

Muita gente se preocupou com a quantidade de personagens sendo apresentados no filme, junto com o Supinho, e que de alguma forma isso pudesse tirar o seu protagonismo. Pois podem esquecer: sim, este é o primeiro filme do novo universo estendido da DC nos cinemas, então faz sentido que James Gunn queira mostrar a construção do que existe ao seu redor. Mas em nenhum único momento você esquece que esta é uma história do Superman e sobre o Superman.

Claro que é legal ter a certeza absoluta de que Nathan Fillion foi a escolha mais do que acertada para viver o insuportável lanterna verde Guy Gardner, assim como o Edi Gathegi brilha demais como o analítico e calculista Sr. Incrível, belíssimo contraponto para o emocional Clark e uma maravilhosa promessa para as produções futuras. Isso sem falar no interessante visual da Engenheira e da Mulher-Gavião, no que você bem já imagina que será o futuro do capanga Ultraman… E por aí vai.

Mas eles são apenas satélites orbitando em torno de um sol mais brilhante. Acertadamente, James Gunn constrói a personalidade deste novo Clark Kent a partir de si mesmo e de sua relação com três personagens, estes sim bastante fundamentais para a trama.

Em sua relação com Lois Lane (Rachel Brosnahan), numa versão ainda mais enérgica e combativa – uma “garota punk rock”, como ela mesma diz – descobrimos uma dualidade interessante com Clark: ela desconfia de tudo e todos, ele costuma acreditar em todo mundo e está sempre disposto a dar uma segunda chance. Como eles funcionam enquanto casal? Funcionando, oras. E a química entre os dois, bingo, pode parecer difícil, mas encaixa como uma luva.

O mesmo tipo de química, só que inversa, que ele tem com seu nêmesis, Lex Luthor, vivido por Nicholas Hoult – que entrega, de longe, uma das versões mais interessantes para o vilão. Maquiavélico, inconsequente, genial, mas um tanto ridículo, Lex é uma espécie de versão do Elon Musk com esteroides, alguém que parece um ricaço caricato, mas que se mostra capaz de atos vilanescos terríveis. E um ser humano que, em seu ódio e sua inveja dos meta humanos, busca ser como eles para poder se colocar também acima da humanidade.

O terceiro pilar formador da personalidade do Superman é, obviamente, o supercachorro Krypto. Uma inclusão praticamente de última hora no roteiro e que é um acerto brilhante. Ele é desobediente, encrenqueiro, com demonstrações de carinho um tanto violentas, mas que ao mesmo tempo é fofo, fiel, brincalhão. E não tem nada mais humano do que uma pessoa percebendo que, no fim, a devoção de um amigo canino ajuda a colocar certos problemas da vida muito bem em perspectiva.

Vamos ser honestos aqui, vai: como era de se esperar, diabos, um cachorro em CGI rouba a cena. E estamos totalmente de acordo com isso.

::: APROVEITE E SAIBA AQUI a história do Krypto, nosso cachorro de aço :::

Um filme saído diretamente da Era de Prata

Superman é um filme que brinca o tempo todo com o exagero e que em nenhum minuto nega as suas origens: a cada frame, James Gunn faz questão de te lembrar que este é um filme baseado num gibi. E tá tudo bem. E não tem problema nenhum em aceitar isso, com uma pequena dose de cafonalha. Pra ele que faz e pra você que assiste. Um filme feito sorrindo pra te fazer sorrir.

Mas Gunn vai além e escancara que as suas principais influências são mesmo ali da Era de Prata dos gibis americanos de hominhos. Está aqui aquela boa e velha pseudociência retrô que não necessita de muita explicação: os óculos hipnóticos que ajudam a manter a identidade secreta, os túneis de teletransporte, o universo compacto, a nave que é facilmente controlada por um bando de jornalistas… Tá tudo lá. E abordado de um jeito leve, descontraído, inocente, sem pretensão, contando piadocas de tiozão.

Por isso, no fim do dia, o Superman de Gunn conversa tão bem com o Superman de Grant Morrison, de Grandes Astros: Superman. Falando sério sem precisar trincar os dentes.

“Este Superman é muito LACRADOR”

Ah, bom… Aí tem uma outra coisa aqui. A tal acusação de que é um filme… me sinto até ridículo de ter que escrever isso aqui… WOKE.

Reforço o ponto já defendido aqui de que, se você usa as expressões “lacração” ou “woke” a sério, eu genuinamente te considero uma pessoa imbecil.

Porém… sim, é óbvio como 2 + 2 que o conflito entre os países fictícios Borávia e Jarhanpur é claramente uma alegoria pro que está rolando na Faixa de Gaza. Mas também é o James Gunn criando uma situação, sob um determinado contexto geopolítico, que ajuda a posicionar o Superman (e demais meta-humanos, é bom que se diga) como um herói que não abaixa a cabeça para o governo dos EUA. É sim uma crítica social e também faz um baita sentido não só para este filme como para o mundo que está sendo construído pra DC nos cinemas.

Sim, existe também todo um subtexto sobre construção de narrativas, sobre notícias falsas e sobre manipulação da opinião pública que, vejam só, é obviamente muito atual, conversa com a nossa realidade… mas faz um sentido DANADO para a história que o Gunn resolveu contar. Ponto.

E sobre o Superman ser um refugiado, um imigrante de outro planeta que transforma a Terra (e não apenas os EUA) em seu lar. É, o James Gunn falou, os reacinhas ficaram dodóis. Mas lembremos que isso já é verdade a respeito do personagem desde… vamos ver, façamos umas contas aqui… desde 1938. Que é o ano do surgimento do herói nos gibis. Se você não fazia ideia que o Super NÃO é um americano nascido em solo dos EUA, bom, digamos que talvez fosse o caso de pesquisar a história do herói um pouco mais a fundo (embora, conforme dito no começo do texto, esta origem tenha sido contada umas 253 vezes desde que resolveram fazer o primeiro desenho animado do herói de Krypton).

O assunto “Superman refugiado” já foi inúmeras vezes discutido nos quadrinhos, na série Smallville (tem um trecho bem específico circulando bastante pelas redes sociais nas últimas semanas, aliás) e até de maneira bastante incisiva no seriado da Supergirl – sobre o qual eu escrevi aqui em 2018. Sete anos atrás, meu povo. SETE ANOS.

Pintar este tom com mais destaque num novo capítulo da história do Superman só é a prova de que o Gunn conhece muito bem as raízes do herói e da DC – e sabe MUITO BEM as sementes que está plantando para este novo DCU.

O começo, definitivamente, foi SUPER.

Filme: Super/Man: A História de Christopher Reeve

Série: Superman & Lois

Gibi: Grandes Astros: Superman

Podcast: Superman: A História Completa

Texto: Outros Supers inspirados pelo Super



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