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Sobre Rutu Modan e o impacto do boicote cultural

Importante ter em mente que punir a expressão cultural de um povo pode significar punir justamente aqueles que poderiam ajudar a construir a resistência contra injustiças em sociedades em conflito

Por GABRIELA FRANCO

O ano era 2023. Por alguma razão, acordei de sobressalto naquela noite, do nada, como se tivesse sido arrancada de um sonho ruim que se confundia demais com a vida real. No pesadelo, havia bebês, e isso, descobri minutos depois, não era acaso. Ainda tonta de sono, estiquei a mão para o celular que fica na mesa de cabeceira, na tentativa de me distrair da sensação de angústia, mas lá estava a manchete que congelou o mundo: “Hamas ataca Israel”.

As imagens não demoraram a chegar: foguetes cortando o céu, sirenes histéricas, casas queimando, famílias despedaçadas, crianças arrastadas à força e relatos de horror absoluto. Aí perdi o sono de vez: pensei em amigos e familiares que estavam lá…e venho perdendo o sono desde então. Mas aquilo não começou naquela madrugada, a gente sabe. Aquilo foi o ápice de um barril de pólvora acumulado por anos, séculos – pra não dizer milênios.

Esse ataque não surgiu do nada. Ele foi o desfecho de dez anos de bloqueios, ocupação, radicalização e ressentimentos. Para os israelenses, o eixo narrativo é o da autodefesa do único Estado judeu do Oriente Médio, cuja democracia respira por aparelhos sob o governo Netanyahu. Para os palestinos, é a luta pelo estabelecimento de seu próprio Estado e o vislumbre de uma existência com dignidade e justiça, como TODO POVO MERECE. O 7 de outubro expôs, da forma mais sangrenta possível, a falência de um processo de paz abandonado e a tragédia de dois povos presos em um ciclo de violência que a comunidade internacional não conseguiu, ou não quis (por interesses maiores) romper.

Mas este texto não é exatamente sobre a guerra em Gaza. No entanto, o que me move aqui é outra coisa. É refletir sobre como os ecos da guerra atravessam fronteiras e atingem quem está a milhares de quilômetros de distância do campo de batalha. Sobre como a tentativa de boicotar profissionais, artistas e intelectuais israelenses pode se transformar em uma estratégia simplista e inócua, que não apenas prejudica a sociedade como um todo, mas, pior ainda, não altera em nada o número de mortos e feridos no front.

Como jornalista e crítica cultural, com anos de cobertura do mercado de quadrinhos — especialmente da produção feita por mulheres —  acompanhei de perto o caso de Rutu Modan na recém-encerrada Bienal de Quadrinhos de Curitiba. A autora israelense, vencedora do Eisner, havia sido anunciada como convidada internacional, mas seu nome desapareceu da programação final. Em seu lugar, a grade apresentou Ualid Rabah, presidente da Fepal, no debate “Pé no chão com representantes de coletivos e movimentos”, dentro do tema geral da Bienal: “Futuros Possíveis”, que aborda mudanças climáticas, diversidade de gênero, fluxos migratórios, inteligência artificial e democracia.

A escolha de um dirigente político, que não é quadrinista, revelou aí um desequilíbrio: se a proposta era discutir diversidade ou democracia, optou-se por ouvir apenas um lado e, no processo, calar a voz de uma mulher cuja obra é reconhecida mundialmente dentro do universo dos quadrinhos. Não há registro público de qual mesa Modan integraria, apenas o anúncio de que viria como convidada.

O resultado concreto, no entanto, é claro: a artista foi desconvidada, por pressão de grupos pró-Palestina, sua participação sumiu do programa e a conversa perdeu em complexidade justamente quando mais se precisava dela.

O movimento de bloquear o soft power de países em guerra não é novidade: ao longo da história recente, a cultura e o entretenimento foram usados diversas vezes como campo de pressão política em tempos de conflito. O caso mais lembrado talvez seja o da África do Sul durante o apartheid. A partir dos anos 1960, atletas sul-africanos foram banidos de Olimpíadas e Copas do Mundo, enquanto músicos que se apresentavam no país eram duramente criticados. Esse boicote cultural, que se estendeu até o início dos anos 1990, tornou-se um dos mais estruturados da história e contribuiu para o isolamento internacional do regime.

Nos anos 1990, durante as guerras da ex-Iugoslávia, a Sérvia enfrentou sanções que também atingiram o campo cultural. Times de futebol foram impedidos de disputar torneios internacionais e artistas sérvios tiveram apresentações canceladas, reforçando a tentativa de isolar o governo do ditador Slobodan Milošević. Situação semelhante se repetiu em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia e orquestras e companhias de dança russas tiveram turnês canceladas, o país foi banido do célebre festival Eurovision, músicos perderam contratos e atletas foram banidos de competições, enquanto plataformas de streaming removeram filmes e jogos russos de seus catálogos.

Em alguns casos, este raciocínio é tão frágil e simplista quanto seria, por exemplo, propor, guardadas as devidas proporções, o boicote ao Brasil durante os anos Bolsonaro. Seria justo punir escritores, músicos, cineastas ou atletas brasileiros por decisões de um governo claramente genocida (e as mais de 700.000 mortes durante a tragédia sanitária da COVID-19 são prova explícita disso) mas que uma parte expressiva da sociedade rejeitava nas ruas, nas urnas e na produção cultural?

O resultado seria o mesmo: transformar em culpada justamente a parcela mais crítica, que mais se opunha aos abusos de poder. É esse o nó da questão: punir a expressão cultural de um povo é punir justamente aqueles que poderiam ajudar a construir a resistência contra injustiças em sociedades em conflito.

No caso de Rutu Modan, além das campanhas para banir representantes de Israel em semanas de arte e cinema, isso abre um precedente também perigoso, porque sugere um duplo padrão: enquanto vozes de países envolvidos em outras guerras ou em sistemas colonizadores como os próprios Estados Unidos (que, se a gente for coerente, hoje se aproxima dia a dia de uma ditadura, basta ver casos como o dos cancelamentos dos talk shows de Stephen Colbert e Jimmy Kimmel), continuam a circular, as vozes israelenses são silenciadas sem pensar no quanto se posicionam CONTRA Netanyahu.

Aqui, preciso abrir um parêntese pra falar, claro, sobre a própria Rutu

Nascida em 1966 na cidade israelense de Tel HaShomer, a quadrinista Rutu Modan se formou com distinção na Academia Bezalel de Arte e Design, em Jerusalém – e depois editou a edição hebraica da revista MAD com o amigo Yirmi Pinkus, ilustrador e cartunista. Juntos, eles também fundariam o coletivo israelense de quadrinhos Actus Tragicus, com títulos publicados em inglês para alcançar um público além das fronteiras de Israel.

Em 1996, colaborou com Etgar Keret em seu primeiro quadrinho, Nobody Said it Was Going to Be Fun, um best-seller israelense, além de contribuir com revistas e jornais ao redor do mundo como New York Times, New Yorker e Le Monde. Teve dois quadrinhos publicados no New York Times: Mixed Emotions, num blog de quadrinhos, e The Murder of the Terminal Patient, nas páginas do New York Times Magazine. Ela dá aulas de quadrinho e ilustração na Academia Bezalel de Arte e Design, em Jerusalém, e vive em Tel Aviv com a família.

Rutu foi ainda a responsável por obras como Exit Wounds (2008), premiada com o Eisner; A Propriedade (2015), também premiada com o Eisner e sua primeira HQ a ser publicada no Brasil; e a mais recente, Túneis (2021), publicada por aqui em 2024.

Sobre Túneis, que tem em parte de sua trama justamente a conexão entre israelenses e palestinos, ela deu uma entrevista a respeito ao site brasileiro O Quadro e o Risco, em 2022, antes da escalada da violência em Gaza. E lembrou que, sim, sempre recebeu cobranças de seus leitores para trazer nas HQs uma posição forte em relação ao conflito entre Israel e Palestina. “É algo difícil de evitar, mas também é difícil de transformar em arte. Como cidadã, leio as notícias, tenho meus ideais. E como artista, é mais difícil de entender como colocar isso no seu trabalho de forma a realmente expressar seu ponto de vista”, explica ela. “Minhas opiniões sobre como resolver o conflito não são mais importantes ou brilhantes do que as de qualquer outra pessoa. Talvez eu esteja errada e tudo o que penso a respeito não faça sentido. Pra mim, é interessante mostrar como enxergo a vida aqui. A melhor parte disso é não resolver as coisas, porém mostrar a complexidade delas”.

Só que os anos se passaram e veio 2023. Então, em 2025, com o anúncio de sua participação na Bienal, a Veja teve a chance de conversar com ela sobre Túneis – e a questão veio novamente à tona, mas desta vez com outro olhar. Modan chegou inclusive a pensar que seu álbum era “lixo” e “ingênuo”, pois a violência na região a fez questionar sua visão otimista de cooperação. Ela diz ter ficado tão abalada que não conseguia nem olhar para o próprio trabalho. “Eu estava cega e não percebia o que estava acontecendo”, pensou, na época. No entanto, com o tempo, sua perspectiva mudou, e ela passou a ver a obra como uma “sugestão” ou “solução” para a situação, enfatizando a importância da cooperação apesar da desconfiança. 

De qualquer maneira, ela inclusive chegou a fazer um NOVO posfácio para sua obra, depois de 2023. E tentou incorporar a ele, apesar da tristeza, uma perspectiva com seu olhar de professora. “Sou testemunha de que essas coisas acontecem, agora mesmo, em pequena escala – mínima, mas ainda assim real. Sou testemunha de que isso é possível e de que vale a pena batalhar por isso. Penso, por exemplo, nos meus alunos em Jerusalém, jovens israelenses e palestinos muito talentosos, cheios de ideias e sonhos. Dedico esta edição de Túneis a eles e a todos que vivem e têm suas raízes nesta terra, e que preferem criar e construir em vez de destruir e aniquilar. Sairemos vitoriosos, e nossa vitória será absoluta”.

No fim…

Esse e tantos outros episódios ajudam a entender como a cultura se torna um campo de batalha simbólico, onde artistas, intelectuais e esportistas acabam transformados em alvos, muitas vezes sem qualquer poder de decisão sobre as políticas de seus governos. No fundo, trata-se de uma estratégia inócua: ao mirar a produção cultural, atinge-se justamente uma elite intelectual que, em grande parte, se posiciona contra a guerra e contra os abusos de poder. O efeito é criar a ilusão de que uma sociedade inteira é monolítica, como se todos os seus cidadãos pensassem e agissem da mesma forma.

No caso de Israel, essa simplificação é ainda mais problemática porque apaga a diversidade real de sua população. Ali convivem judeus de origem europeia, mas também comunidades oriundas do Oriente Médio, da África e da Etiópia, além de cidadãos cristãos, muçulmanos e árabes israelenses. Reduzir Israel a um bloco homogêneo não apenas desconsidera essa pluralidade, como também enquadra os judeus como um todo em estereótipos rígidos e desumanizantes.

O “desconvite” de Rutu Modan pode até ser lido como um gesto legítimo, um posicionamento político de quem não quer compactuar com a violência que devasta o Oriente Médio. Mas é também um gesto estéril. Não vai arranhar os generais que apertam o gatilho nem os governantes que calculam estratégias a quilômetros de distância. Não vai frear ataques, não vai proteger civis, não vai salvar vidas. O que faz, de fato, é atingir uma artista que não tem qualquer controle sobre essa guerra, e com isso sacrificar justamente a esfera que poderia oferecer uma visão crítica, humana e plural do conflito: a cultura.

A cultura de uma artista, por exemplo, que inclusive disse publicamente que passou a revisitar a própria obra depois de tudo o que aconteceu, de tão impactada que foi pelas questões humanitárias em Gaza. 

Banir intelectuais e criadores não corrige injustiças – apenas produz novas. Alimenta a animosidade, cristaliza polarizações, transforma a diáspora judaica em alvo. No limite, em vez de ampliar a solidariedade com os palestinos, esse tipo de gesto acaba por empobrecer o debate, reduzir a complexidade e cegar para nuances que só a arte e o pensamento podem revelar.

Toda forma de negação à barbárie é necessária, mas a resistência perde o sentido quando se transforma em censura. Silenciar vozes como a de Rutu Modan não aproxima ninguém da paz. Não é apagando vozes que se constrói um futuro, mas sim MULTIPLICANDO-AS.

Porque, é só reconhecendo e escutando múltiplas vozes que podemos começar a romper o ciclo de ódio.

Em tempo…

Entre os dias 9 a 12 de outubro, Rutu estará no Brasil, mas desta vez para participar do Festival Literário do Museu Judaico de São Paulo, o FliMUJ, ao lado de outras convidadas internacionais como Fania Oz (escritora e historiadora, filha do escritor e pacifista Amos Oz), Scholastique Mokasonga (escritora de Ruanda), Eva Illouz (professora israelense de sociologia) e Jennifer Teege (escritora alemã de ascendência nigeriana).

100% gratuito, o FLiMUJ é guiado pela pergunta-tema “Emet: a verdade tem começo, meio e fim?”. As nove mesas entrelaçam perspectivas judaicas e não judaicas propondo reflexões sobre os desafios para a construção coletiva da verdade – no registro histórico, nos relatos de traumas pessoais e comunitários, nas narrativas literárias. 



A GUERRA QUE VIRÁ

Não é a primeira.
Antes dela
Houve outras guerras.
Quando a última terminou
Havia vencedores e vencidos.
Entre os vencidos,
O povo miúdo sofria fome.
Entre os vencedores,
Sofria fome o povo miúdo.

Bertold Brecht

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