Deadpool/Batman: o acompanhamento é melhor que o prato principal
Na edição inicial deste retorno dos crossovers Marvel & DC, a história central é o que menos importa, na verdade
Por THIAGO CARDIM
Quando as duas gigantes dos quadrinhos estadunidenses de super-heróis, a Marvel e a DC Comics, anunciaram que celebrariam a história dos encontros entre seus personagens promovendo um novo crossover entre eles, totalmente inédito, vi muita gente comemorando (inclusive eu). Mas quando eles anunciaram QUEM seriam os personagens a se encontrar, ficou aquela incômoda sensação de MAS HEIN? (inclusive pra mim).
Assim, eu juro que entendo que eles quiseram evitar repetições – portanto, nada de Batman e Homem-Aranha ou, talvez, de Homem-Aranha e Superman. E Liga da Justiça contra Vingadores, bom, além de já ter acontecido, ia dar um ar de tamanha grandiosidade que transformaria tudo num megaevento com aquele insuportável adjetivo “épico”. Mas digamos que esta combinação de Batman com Deadpool soa estranha desde o início.
Porque é um saco que a DC ainda seja tão dependente do Batman para basicamente qualquer coisa, mesmo com uma centena de personagens tão interessantes em sua história, tendo que voltar sempre de maneira óbvia ao Morcegão em ocasiões assim. E chega a ser frustrante que, em pleno 2025, o Deadpool seja o representante imediato da Marvel, aquele que faz os cifrões brilharem por lá. Porque, veja, eu não desgosto do Deadpool, ainda mais DESTE Deadpool que não é a criação original do Rob Liefeld (por mais que ele insista em dizer que é), um personagem de humor questionável tipicamente 5ª série, que quebra a quarta parede, que desafia questões de gênero.
Mas acho que se trata de um personagem que, se usado à exaustão, pode ficar com o conceito bastante cansado. E digamos que estamos vivendo uma espécie de overdose de Deadpool nos dias de hoje…
Eu super gostaria de ver o Deadpool encontrando com a Arlequina, por exemplo, dando as caras diante da mais recente máquina de dinheiro da Distinta Concorrência. E botaria o Batman pra encarar, sei lá, o Cavaleiro da Lua (considerando que o Homem-Morcego já encontrou outros ícones urbanos da Casa das Ideias como o Aranha, o Demolidor e o Justiceiro, por exemplo). Ou até o Batman lutando com o Wolverine, por exemplo (mais sobre isso adiante, aliás).
Mas, enfim, não sou eu que tomo as decisões – e sei bem o tanto de dinheiro que o último filme do Mercenário Tagarela fez, então… Sou apenas um leitor – e, como tal, tive a chance de ler “Deadpool/Batman”, a primeira edição deste encontro, lançada pela Marvel (teremos outra em breve, que vira “Batman/Deadpool” e chega às bancas pela DC, como você bem pode imaginar).
E devo dizer que tem muitas ideias boas ali, que mereciam um espaço ainda maior. Só que nenhuma delas envolve nem o Batman e tampouco o Deadpool.
Explico.

A farofa é mais gostosa do que o filé mignon
Vou recorrer aqui a uma metáfora gastronômica. Imagina que você conseguiu juntar uma grana com muito suor depois de ser triturado pelo capitalismo e, com toda a pompa e circunstância, resolve se mimar e vai naquela churrascaria chique que sempre sonhou. Pede o melhor corte de carne, aquele elogiadíssimo por tudo que é crítico e publicação especializada… e quando vai comer, percebe que aquilo não tem lá muita graça. É frustrante pra caramba? É sim.
Mas aí você se pega apreciando deveras aquela farofinha marota que veio como acompanhamento. Pô, aquilo é uma delícia. O que será que eles misturaram ali, hein? Pena que veio só um potinho. A porção podia ser bem maior.
E olha que justamente EU tô usando esta metáfora, o sujeito que vai completar 25 FUCKING ANOS desde que se tornou vegetariano, hahahaha!
Escrita por Zeb Wells e desenhada por Greg Capullo, “Deadpool/Batman” é uma história absolutamente genérica. Nem dá pra dizer que é ruim. Mas é tão óbvia que poderia ser escrita por qualquer um em qualquer momento da vida. E, mais do que isso, é uma história óbvia DO BATMAN. Porque se a gente tirar o Deadpool dali e incluir, sei lá, o mercenário falastrão número 42, vai dar rigorosamente no mesmo. Ele chega em Gotham City pra caçar o Batman, se depara com o bilionário Bruce Wayne buscando talvez um contrato adicional, bem no momento em que o Cavaleiro das Trevas investiga o sumiço de elementos químicos que claramente são usados pra fazer o Gás do Riso do Coringa…
E aí eu tenho certeza ABSOLUTA que você já sabe como a história vai se desenrolar. Porque eu sabia o que aconteceria assim que o Deadpool apareceu. A treta entre dois, os dois se juntando, o plano do Batman, o plano do Deadpool, o plano do Coringa, o desfecho entre Coringa e Deadpool… Sério. A cada virada de página, eu esperava ser surpreendido de alguma forma, mas era só um festival de “ah, já imaginava que isso ia acontecer”. E aí acabou.
Talvez você já saiba rigorosamente o que vai rolar só lendo a minha descrição, sem qualquer spoiler adicional e sem sequer você precisar ler a caralha do gibi.
Pô, as poucas vezes em que me vi com um singelo sorriso no canto da boca foram quando Wade faz um gracejo metalinguístico sobre o Robin e, logo depois, quando ele incorpora o papel de “sei que sou um personagem de gibi” na página de seu primeiro encontro com o Palhaço do Crime. E deu.
De verdade, pode ser que eu esteja me enganando DEMAIS, mas o fato de que o roteiro da edição deste próximo encontro entre Deadpool e Batman, a ser lançada pela DC, será de carequinha Grant Morrison me dá um certo alívio. Pois talvez elu saiba lidar melhor não apenas com a loucura de Wade no paralelo com o bando de loucos (Vai Corinthians!) que se espalham por Gotham, mas também com o potencial metalinguístico do personagem.
Né…?

Mas e a farofa, hein? FALA DA FAROFA, PÔ!
“Deadpool/Batman” é uma edição que vem acompanhada de várias histórias curtas, que promovem outros interessantes encontros entre personagens Marvel e DC – sendo que duas delas, em particular, mereceriam DEMAIS ser ampliadas, definitivamente com MUITO mais páginas do que o encontro entre as grandes estrelas da edição.
O jogo de vôlei entre o tubarão Jeff e o cachorro Krypto, por exemplo, cortesia da dupla Kelly Thompson e Gurihiru, é uma fofura só, que diz tudo sem precisar de quaisquer palavras. A troca de artefatos entre Rocket Raccoon e Lanterna Verde, de Al Ewing e Dike Ruan, é praticamente uma gag da revista MAD, uma piada curta com pequenas homenagens pra quem acompanha as duas editoras há décadas. Também é bonitinho – o que obviamente não dá pra dizer do encontro entre o Velho Logan e a versão “Cavaleiro das Trevas” do Batman, escrito e desenhado por Frank Miller. Além do traço cada vez mais medonho de tão tosco, o que ele faz é somente uma sessão geriátrica de machos medindo o tamanho do próprio pau. Constrangedor.
Já o encontro entre Mulher-Maravilha e Capitão América, escrito por Chip Zdarsky e com a lindíssima arte do casal Terry e Rachel Dodson, é uma pérola. Com um clima total de história da Era de Ouro, vemos Diana se encontrando com Steve Rogers em plena Segunda Guerra Mundial, num momento crucial do conflito, considerando inclusive que um já tinha ouvido histórias a respeito do outro. E criando uma narrativa com foco multiversal, Zdarsky contrapõe de maneira sutil e delicada o quanto ambos se tornaram ícones para a humanidade, modelos a serem seguidos… e o quanto isso pode se tornar pesado para cada um deles, inclusive na tomada de decisões de impacto. Eu leria tranquilamente quatro edições de 32 páginas sobre isso.
Outro momento incrível, que talvez fosse aquele que eu mais esperava ler, é o rolê entre Arqueiro Verde e Demolidor, com uma arte bem ágil e dinâmica do Adam Kubert e o roteiro de um sujeito que já escreveu passagens interessantíssimas de AMBOS os personagens: o cineasta Kevin Smith. Em plena Cozinha do Inferno, enfrentando separadamente os ninjas da Liga dos Assassinos, a dupla se encontra, mas em nenhum momento se enfrenta. Eles percebem que estão do mesmo lado e passam a lutar juntos, meio que se entendendo ao mesmo tempo em que sentam a porrada na bandidagem. “Gavião Arqueiro?”, se confunde o Homem Sem Medo a princípio, rs. E depois, quando eles encaram um vilão clássico da DC, o impacto sobre Matt e a resolução do Oliver são simplesmente jogadas de mestre de um roteirista que conhece bem os dois heróis.
Em tempo: a edição traz ainda Logo, criação da dupla Ryan North e Ryan Stegman. Pra quem tava com saudades das chamadas amálgamas, criações que misturam um personagem da Marvel e outro da DC, temos algumas poucas páginas brincando com o conceito do que seria uma mistura do último czarniano Lobo com um certo mutante canadense de nome Logan. O resultado é o mais puro suco dos anos 1990 – e aí você é quem decide se isso é uma boa ou má notícia, hahahaha
Em tempo: tudo indica que a Panini vai trazer os crossovers pra cá muito em breve, antes do tempo de diferença regulamentar entre Brasil e EUA – até porque, no fim, as histórias não seguem qualquer questão cronológica, então não faz diferença.
Fique de olho nas redes sociais deles pra saber mais a respeito. Até porque pelo menos a farofa é gostosinha. 😉
