Spider Noir e o delicioso poder da canastrice em P&B
Nicolas Cage abraça o seu lado mais Nicolas Cage numa produção em que os superpoderes são meros coadjuvantes – ainda bem!
Por THIAGO CARDIM
Se você procurar o significado de “canastrão” num dicionário usual, vai encontrar a definição como sendo um “ator medíocre” ou, em algumas publicações, um “ator ruim”. Mas, se você for perceber como a palavra é aplicada nos dias de hoje e ainda ouvir alguns especialistas/estudiosos na arte da interpretação, vai compreender que ela ganhou uma outra camada: um ator grandiloquente, exagerado, porém bastante carismático, que defende durante toda a vida um mesmo personagem, ou, pior ainda, interpreta basicamente a si mesmo.
É um pouco do que vemos, por exemplo, na carreira mais recente do hoje sumidíssimo Jack Nicholson (que, depois de performances brilhantes numa filmografia genial, se encontrou soterrado no eterno papel recorrente de Jack Nicholson) e mesmo de Johnny Depp, que passou a fazer inúmeras variações de Jack Sparrow a cada um de seus filmes. E, bom, também é o que vimos em parte da história filmográfica de Nicolas Cage – em especial, nos últimos 10 anos. Salvo honoráveis exceções como o brilhante Pig: A Vingança (2021), Cage andou colecionando produções de ação absolutamente questionáveis e genéricas, daquele tipo que a entidade LOCADORA tanto amava nos anos 1990.
Logo, percebe-se, Cage é um ótimo ator que sabe MUITO BEM ser canastrão quando quer. E que sabe, inclusive, QUANDO ser canastrão faz muitíssimo bem pro papel. Como é o caso do investigador particular Ben Reilly na série Spider-Noir, produção live-action que adapta o Homem-Aranha de uma realidade alternativa vindo dos quadrinhos e ao qual o próprio Cage deu voz no filme animado do Aranhaverso.
Na série, Reilly está mais velho e, graças a uma questão pessoal bastante emocional e intensa, acabou decidindo aposentar o seu alter ego heroico, o protetor mascarado desta Nova York dos anos 1930. Mas o que ele não esperava é que, para além da crescente dominação do gângster Cabelo de Prata (Brendan Gleeson, de longe um dos meus subestimados atores favoritos), a metrópole fosse invadida por um bando de outros sujeitos com superpoderes, e cuja origem parece de alguma forma intrinsecamente ligada à sua própria. Junte a isso uma misteriosa e sedutora cantora de nome Cat Hardy (Li Jun Li) e, pronto, está armado o cenário para o retorno do vigilante, ainda que a contragosto.

Ben Reilly é tremendamente canastrão. Aliás, eu diria mais: ele é DELICIOSAMENTE canastrão. Cage força a barra, como o personagem pede, no jeito de falar, nos olhares, nos sorrisos de canto de boca, nos trejeitos exagerados, no jeito de andar… Até o seu momento “bebum que não consegue enfiar a chave na porta de casa” é hiperbólico. E tudo isso combina perfeitamente com o que é este detetive um tanto fora de forma, um tantinho desengonçado e um tantão egocêntrico. Mas dá pra encaixar ainda adjetivos como “cínico”, “pessimista incorrigível” e “piadista fracassado” nesta conversa.
E por mais que Cage esteja cercado de coadjuvantes incríveis – em especial, a dupla formada pela incrível secretária Janet Ruiz (Karen Rodriguez) e pela versão noir de Robbie Robertson (Lamorne Morris) – ele rouba a cena porque parece sempre e sempre, a cada quadro, estar se divertindo um bocado na produção. Porque, sabemos bem, o ator é um fanático por gibis e principalmente por HQs de super-heróis. Logo, não passa um frame em que não fica claro que Cage tá realizando um sonho.
Por mais que esta não seja, vejam vocês, uma série de super-heróis.
Poisé, calma que o tio explica.
Aliás, você sabia que deveria estar vendo Spider-Noir em preto e branco, né?
O recadinho tem motivo de ser: desde a minha época de JUDÃO.com.br, uma década atrás, eu sempre defendi que super-herói não é e nem nunca foi gênero cinematográfico coisa nenhuma. Super-herói é um arquétipo pop, tal qual um caubói ou um agente secreto, que pode estrelar produções dramáticas, cômicas, de aventura, de terror, de suspense, de qualquer coisa que se possa imaginar.
“Motoqueiro Fantasma é um filme de terror (para alguns, LITERALMENTE isso). Capitão América 2 é um thriller de espionagem. E Guardiões da Galáxia é ficção científica. Entendeu onde eu quero chegar?”, disse ninguém menos do que EU mesmo, em pleno 2015.
Portanto, veja, Spider-Noir tem seres com superpoderes. Mas eles, de verdade, são apenas e tão somente pano de fundo. Não é uma história sobre lutinhas de gente mascarada. É uma trama detetivesca, com o mafioso de moral mais do que discutível e a bela garota com ares de femme fatale. Exatamente como qualquer bom exemplar de filme noir.
No fim, minha gente, Spider-Noir nem sequer sonha em se focar na parte “Spider” de seu título, mas sim muito mais no tal Noir… E se você não sabe do que se trata, afinal, tenha em mente que estamos falando de um dos mais populares e adorados gêneros cinematográficos do passado, mais exatamente dos anos 1930 até os 1950. Traduzindo literalmente, o termo, criado por críticos franceses para denominar fitas policiais, significa “novela escura”. Como o próprio nome diz, a principal característica dos exemplares desta categoria envolvem a exploração do lado sinistro do duelo mocinho vs. bandido.
E a explicação aqui é do nosso mestre cinéfilo cult Leandro “Zarko” Fernandes, que escreveu um ótimo artigo a respeito, que pode ser lido na museum edition do nosso saudoso site A ARCA. “Até os idos de 1930, os longas-metragens policiais eram bem claros: o mocinho era bondoso e puro; o bandido era o estereótipo máximo da vilania (o que o tornava muitas vezes risível)”, conta ele. “O noir procurava dissecar o lado psicológico deste embate; nos filmes noir, integridade era uma palavra inexistente, ou seja, o bom poderia ser tão corrupto, sinistro e dissimulado quanto o mal. Às vezes, até mais. O objetivo do gênero era explorar o filão policial através de seu lado mais complicado: o psíquico”.

O Leandro diz ainda que, para um filme ser considerado noir, era necessário seguir algumas regras. Você deve: narrar um crime; ambientar seu enredo numa cidade grande e suja, cheia de becos escuros e inferninhos; utilizar uma atmosfera soturna e sombria, de preferência com uma fotografia sem cores e bastante contrastada; contar sua história sob a perspectiva do(s) bandido(s); retratar a polícia como uma organização com um potencial fora do comum para se corromper; ter uma femme fatale entre seus personagens, para causar o declínio do mocinho; mostrar gangues ou grupos de homens (bandidos ou mocinhos) cheios de amor e ódio para um com o outro; e não ter medo de filmar violência. Pois Spider-Noir cabe direitinho nesta listinha de itens aí (incluindo o herói protagonista que não é exatamente um herói). E então… tal qual todo bom filme noir, a série do Spider-Noir deveria ser vista em preto e branco. Entendeu? 😉
(Tô de sacanagem, claro. Se quiser ver colorido – até porque as cores da série são bem estouradas e saturadas, no maior esquemão retrôtechnicolor – vai que vai. Desde que você simplesmente assista, né?)
Em tempo…
NÃO, você não precisa ter visto o primeiro Aranhaverso para entender esta série (embora devesse, já que o filme é sensacional). E tá, NÃO, não precisa ter lido nada do Homem-Aranha Noir nos gibis originais. A série fala por conta própria, te revela tudo que você precisa saber e, como deveria ser SEMPRE, funciona sozinha, sem precisar estar conectada a qualquer MCU da vida como muleta criativa.
Sim, Lonnie Lincoln (Lápide), Flint Marko (Homem-Areia) e Dirk Leyden (o praticamente desconhecido Megawatt) estão na série, mas são retratados da maneira que faz mais sentido PARA A SÉRIE, sem qualquer necessidade de ter que replicar de alguma forma o seu modus-operandi dos gibis ou tampouco fazer algum tipo de justificativa. Só é assim e acabou.
Percebe o ponto? 😉
Lembrando: os oito episódios da primeira temporada de Spider-Noir já estão integralmente disponíveis no Prime Video.
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